Sinto que estou batendo em sua porta incessantemente e nunca me canso. E grito, do lado de fora, que não vou desistir até que você abra e eu te veja. Fico esperando você aparecer nem que seja por uma fresta da janela de tantos cadeados, um olho pela metade, um fio de cabelo exposto, posso quase prever sua roupa, se está de chinelo ou pantufas, se está cozinhando ou passando um café. Daqui tento escutar os barulhos das panelas, a música no fundo, talvez Caetano ou Gal, um episódio daquele podcast que compartilhamos, enquanto as cachorras tentam subir em suas pernas, eufóricas. Daqui de fora consigo sentir tudo. Quero te contar tanta coisa enquanto esteve fora, como quem acumula os jornais em uma sacola e revê de forma cronológica, às vezes acho que também posso voltar no tempo, é por isso que ainda não fui embora daquele dia, da última noite, da conversa pela metade, resgato cada segundo do que já foi repetidas vezes, e de tanto refazer a cena não sei mais o que é real e o que foi inventado. O tempo modifica tudo. Não sou uma narradora confiável. Você sabe. Daqui da porta estou tentando decifrar como você faz para viver seus dias como se nada tivesse acontecido. Levanta, toma seu café, se arruma para o trabalho, comprimenta as pessoas de sempre, realiza as piadas antigas para depois chegar em casa e se esvaziar do seu dia, dormir com a consciência limpinha, intacta, sem qualquer dano. Enquanto eu continuei do lado de fora, esperando a grande chance, aguardando impaciente a mesma sorte que chegou - tão cedo - pra você.