#30 ÓRBITA
Minha querida Pietra,
Não sei bem por onde começar. Talvez porque todas as nossas conversas sempre começassem do mesmo modo. Havia sempre a sua pergunta simples, repetida com uma constância quase doméstica. “Como você tá?”. Era curioso como três palavras tão comuns podiam carregar tanta presença, como se ao dizê-las você abrisse uma pequena janela no dia.
E havia também a outra coisa. Seu hábito de me chamar de “lindo”. Eu sempre fingia não dar a devida importância, como convém a alguém que acredita ter alcançado certa seriedade adulta. Mas a verdade é que essas pequenas palavras pousavam em mim com uma doçura que eu não sabia bem onde guardar.
Os seus olhos negros eram um lugar para os meus. Eu olhava mais do que devia, mais do que talvez fosse prudente. A sua voz também ficava comigo, às vezes leve, quase brincando com as palavras, outras vezes carregando um peso que só se percebe quando se escuta de verdade. E existiam aqueles momentos seus, tão íntimos, em que você se mostrava extremamente feminina, como se por um instante deixasse o mundo de lado. Entre madrugadas inteiras conversando e manhãs que começavam ainda sonolentas, fomos andando por essa linha fina entre amor e irritação, carinho e implicância, como duas pessoas que nunca souberam exatamente de que lado estavam, mas mesmo assim continuavam ali. Mas talvez tudo isso tenha sido demais para mim.
Eu tentei girar dentro do seu mundo como um pequeno planeta obediente à órbita. Tentei ajustar meus passos, minhas palavras, meus silêncios. Tentei me encaixar. No entanto, mesmo enquanto girava, havia em mim a sensação estranha de estar deslocado, como um astro que, por mais que tente, não encontra o lugar exato no céu.
Curioso que, entre todas as coisas que você disse, duas tenham ficado gravadas em mim de maneira quase cômica. A primeira, dita com uma convicção tranquila, era que errar é humano. Guardo essa frase com um certo carinho silencioso. Ela ficou comigo como ficam algumas pequenas lembranças que não se explicam muito bem, mas que ocupam um lugar estável dentro da gente, um lugar que não se desfaz com o tempo.
A segunda frase era outra, muito sua. “Saudade de você.” Você dizia isso com uma frequência que transformava a ausência numa espécie de presença discreta. Curioso pensar que agora, mesmo com o silêncio entre nós, essa saudade continua existindo de algum modo. Não como promessa, mas como uma coisa que ainda me acompanha.
Observando você com o cuidado quase clínico de quem tenta compreender alguém, havia também um traço seu que sempre me chamava atenção. A sua necessidade de se culpar, de pedir desculpas com uma intensidade maior do que a situação pedia. Muitas vezes eram desculpas que não precisavam existir, culpas que não tinham realmente um lugar onde pousar. E eu pensava, em silêncio, que você não precisava pedir desculpas depois de ter visto quem eu sou por detrás da capa. Ali não havia nada extraordinário para a quem pedir desculpas; apenas um menino indefeso tentando se esconder dentro de um homem.
Talvez nessas pequenas coisas houvesse mais verdade do que em longas confissões.
Porque eu sei, ou penso saber, que nem sempre aquilo que você dizia era exatamente o que estava vivendo. Não digo isso como acusação, mas como quem compreende um hábito humano. O de guardar certas coisas para si, sobretudo quando elas pertencem à zona discreta onde realizamos nossos pequenos ocultamentos.
E mesmo assim, apesar de toda a minha gravidade adulta, aquela que se espera de quem já deveria saber o que faz com os próprios sentimentos, com você algo sempre se desmontava. Eu me pegava falando bobagens, rindo de coisas mínimas, tendo conversas que pertencem mais a dois adolescentes do que a duas pessoas crescidas. Era como se perto de você eu ficasse um pouco desmascarado, e nessa revelação involuntária houvesse também algo doce.
Talvez porque toda mulher do rock seja diferente. Carrega em si uma rebeldia antiga, mas também certos traumas que fazem o coração tocar em tons que eu nem sempre soube acompanhar.
Eu prometi um milhão de beijos.
Peço perdão por ter entregue tão poucos.
Há também uma confissão estranha que preciso fazer. Nunca pude chamá-la pelo seu nome. Pietra sempre existiu para mim como algo que eu sabia, mas que raramente ousava pronunciar. Como certas palavras que, quando ditas em voz alta, parecem alterar o equilíbrio delicado das coisas.
Às vezes penso em mim como um astronauta da imaginação. Durante muito tempo atravessei universos interiores, cruzei céus inventados pela cabeça e fiz do próprio coração uma nave improvisada. Viajei por galáxias de pensamento como quem busca, entre milhões de estrelas, uma forma particular de luz.
E em algum ponto dessa viagem, talvez num planeta vermelho perdido entre sonhos, encontrei você.
Seu nome tem parentesco com a água, é verdade. Mas sempre me pareceu que você pertencia mais a Marte do que a qualquer rio da Terra. E talvez por isso eu agora me encontre em outro planeta, um lugar diferente do seu, mais contido, mais limitado. Um lugar onde o céu já não possui as mesmas cores do universo onde você habita.
Mas mesmo os astronautas precisam aprender a voltar.
E talvez esta carta seja justamente isso. O registro melancólico de alguém que percebe que a viagem não pode continuar como imaginou.
Se algum dia você voltar a perguntar “como você tá?”, talvez eu não responda como antes. Talvez apenas diga que continuo caminhando, tentando aprender a viver neste novo pedaço de mundo onde as coisas acontecem de maneira mais silenciosa.
Com carinho,
de sua querida criação, Arthur.














