segunda-feira, 18 de abril de 2022
você não está mais na minha vida, eu não tenho mais memórias para criar, o que tenho são memórias para revisitar. quando permito que minha mente viaje até você, revisito sua casa dentro do meu coração. uma vez eu te disse que meu coração é como uma vila e que cada pessoa que eu amo tem sua própria casa; eu brinquei dizendo que você era tão importante que dentro da minha vila você não tinha uma casa, e sim um sobradinho. seu sobradinho era azul como seus olhos, e eu gostava tanto da sua companhia que o jardim era florido e vistoso. depois que você me magoou tão intensamente, percebi que deixei de cultivar as flores, e assim as borboletas pararam de fazer visita. como eu te disse antes de sair da sua vida: naquele dia senti algo dentro de mim se quebrar e não sabia exatamente o que era; hoje volto com a resposta, porque talvez eu tenha descoberto: o que estava quebrando eram os vasos das flores e os vidros das janelas, que antes impediam que o vento frio entrasse para dentro do seu sobradinho. eu protegia sua casa como podia, e tentava manter dentro dela o aconchego de um bolo quentinho. depois que você me quebrou, percebi que eu não sentia mais vontade de ligar o forno, então o vento gelado da dor invadiu sua casa e se alojou. as luzes queimaram e a vivacidade foi embora. quando eu saí da sua vida, tentei destruir seu sobradinho: dei uma marretada, um chute, coloquei fogo e passei por cima com uma retroescavadeira. no dia seguinte, ao passear pela minha vila, vi que sua casa estava lá, reconstruída. passei alguns dias destruindo de novo, mas, toda vez que eu dava uma volta, lá estava sua pequena mansão erguida de volta, mas nunca com as flores. com o tempo, desisti, e assim todo dia eu entrava dentro do seu sobradinho que, antes tão colorido e bonito, tornou-se escuro, cinza, bagunçado e triste; e no seu pedaço de céu, o sol nunca mais apareceu. às vezes eu gritava lá dentro que você era um idiota, às vezes que eu sentia sua falta, às vezes, os dois. em muitos dias, quebrei móveis e paredes, deixando tudo ainda mais sujo e bagunçado. com o tempo, parei de entrar dentro do seu sobradinho e te deixei sem vizinhos: tirei todo mundo que morava ao seu redor e realoquei. você agora está solitário e sua casa é a mais feia da rua, pois é a única que eu não cuido. não vou negar que ainda entro na sua rua, mas não faço questão - nem tenho disposição - de limpar nada por lá. mesmo assim, as visitas nunca deixam de ser dolorosas.
algumas vezes a gente ouve que o amor e o ódio andam lado a lado, e agora há pouco, em uma das minhas revisitas, acho que notei isso dentro de mim. dentro da sua casa no meu coração, vivem as mágoas, as dores e a raiva; grudados neles, as memórias do que um dia foi bom. não consigo pensar em você sem sentir angústia pelo que me fez, na mesma proporção que ainda vive dentro da sua casa a vontade de te dar um abraço e a de saber com você está. vive lá a gratidão por ter me despertado sentimentos tão bons, ao mesmo tempo em que vive uma raiva absurda por ter me machucado tanto. eles estão lá, todos juntos, sentados no seu sofá e dividindo a pipoca enquanto assistem ao filme dos dias em que você ainda estava aqui.











