Ele está olhando para mim com aquela expressão que defini como: por favor diga o que eu quero escutar para então eu foder com você. Hoje eu não quero dizer, apesar de querer foder. Eu não quero dizer porque está ficando chato, todo o mesmo ciclo de humilhação e então aprovação. Eu nem sei se já tinha me dado conta antes do quanto faço isso, talvez sempre, mas nunca tinha me importado até ela jogar as verdades no meu colo, não tinha me importado até ela me beijar como se eu só precisasse existir para ter vontade de me beijar.
— Tenho que ir, hoje não vai rolar. — digo me levantando.
Sua expressão muda para uma que também já tem definição: você é nojenta e não vale a bosta que fica grudada no meu sapato.
— Então por que você veio até aqui sua cadela?
Reviro os olhos apenas internamente, não estou exatamente no humor hoje para voltar com alguma marca roxa apenas onde eu possa ver e sentir doer por semanas. Penso isso tão casualmente que caí como um soco no meu estômago.
Me levanto antes que ele possa dizer mais qualquer porra, a bebida pesa nas minhas pernas assim como a pressão atrás do meus olhos das lágrimas contidas desde mais cedo, desde semanas atrás, meses, anos. Você não percebe o quanto é fácil entrar e repetir situações fodidas até estar dentro delas, até a mulher mais linda que você já viu te fazer perceber tudo isso.
Sinto uma vontade tão enorme de poder atravessar os anos e poder voltar infância quando eu deitava do lado da minha mãe e ela beijava meu cabelo, quando eu tinha certeza que era a coisa mais importante, quando o amor que eu recebia era sem restrições.
Cambaleio pelas ruas sentindo tanta pena de mim mesma que é admirável que eu não esteja soluçando. Meus pés seguem uma direção na qual jurei nunca mais procurar, mas sempre fui patética quando bêbada.
Minha mão bate na sua porta, seu rosto entra na minha visão mais doce do que qualquer lembrança, mais lindo do que qualquer coisa que eu possa merecer. Olha para o meu estado da cabeça aos pés, franze a testa, fecha os olhos, se amaldiçoando. Sua mão sobe até meu rosto ainda que não esteja olhando, seca alguma das minhas lágrimas. Tenta não lembrar da desgraça que eu sou, da dor que de alguma forma eu sempre vou a procura de mais. E ainda sim abre a porta porque sabe que não tenho para aonde ir, não apenas essa noite, não apenas externamente e sabe que talvez eu nunca tenha, mas ainda assim me deixa entrar.