Decidi. Ali mesmo no banheiro. As duas mãos apoiadas em lados opostos na pia. Respirei fundo e decidi. Assim, do nada. Como quando você olha mil vezes a calça jeans mais cara do mundo na vitrine e por algum motivo acha que não merece ter. Mesmo sabendo que vai ficar linda. Eu decidi. Algumas batidinhas frenéticas das unhas de acrílico no mármore e pronto. Se ele pode sair num sábado à noite e encher a cara no meio de um monte de gente feliz e contente, logo após o fim de uma história tão linda como a nossa, eu também posso. Se ele pode simplesmente pegar todo o meu amor enrolar num saco preto e colocar do lado de fora da casa, eu também posso. Se ele pode se casar no dia seguinte, comprar passagens e viver a nossa lua de mel com outra pessoa, eu também posso. Eu sou mais que o silêncio desse banheiro, enquanto ele conta a mesma piada que me conquistou na mesa de um bar para mais doze pessoas como se elas fossem únicas. E todo mundo explode em risos. Eu decidi. Não que de fato fosse um caminho fácil a percorrer só porque eu havia decidido. Mas sim, porque eu era muito maior do que um amor que não era amor. Eu era maior do que qualquer amor não correspondido de quinta, regado a filmes e uns tragos. Eu era sensacional. E o mundo lá fora merecia que eu estivesse bem. Eu merecia estar bem. Não que toda forma de amor fosse de fato válida. Mas sim, porque agora eu sabia que nem toda forma de amor era justa. Eu merecia mais do que um sexo na terça, um filme na quinta, ou uma ligação na segunda. Eu merecia ser preenchida, decidi. Ter todas as arestas e frestas ocupadas por alguém que fosse muito a ponto de me transbordar. Eu era muito mais do que ficar sozinha, estar sozinha, me sentir sozinha num banheiro minúsculo enquanto a vida dançava lá fora. Não importava quão difícil fosse olhar para fora outra vez, eu estava decidida. Eu não sou o tamanho do amor que me deram. Eu sou todo o amor que existe no mundo, decidi.
Ciceero M.











