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Não sei se um dia vou conseguir ficar diante de você como se fosse normal. Sem reparar no teu olhar por tempo demais, sem desejar encurtar a distância, sem lutar contra essa vontade absurda de te ter por perto. Não, eu sei. Não acho que isso vai mudar. Acho que sempre vou te olhar e querer te beijar e te querer... Droga!
Daniel Soares
Às vezes dói perceber que eu nunca vou ser considerado tão importante ou tão especial para as pessoas. Eu só não deveria esperar por isso, sabe? Não tem porque esperar que isso aconteça, já que eu sou só uma pessoa comum, sem coisas grandiosas, sem coisas chamativas, apenas um idiota solitário com uma bagagem cheia de traumas e problemas. Quem é que me consideraria um presente? Algo enviado do divino? Algo bom? Ninguém, é óbvio. Não tem como fazer os olhos de alguém brilhar, quando tudo aqui está apagado... E eu já deveria ter aceitado isso.
— O meu nome é solidão, D. Quebraram.
Imagina um campo minado… Cada passo é uma chance de afundar num buraco. Primeiro, coloco só a pontinha do pé — pra testar se o chão aguenta meu peso. Depois, o corpo todo, não foi dessa vez que eu caí. Mais um passo, mais uma ânsia de cair e sumir. A mente embaralha, o medo de cair some, dou o próximo passo — não com confiança, mas pronta pra despencar. Porque, naquele momento… cair já não parece tão ruim assim. Os passos continuam, não há pressa, nem muito menos destino. É só o peso do corpo sendo arrastado pelo pouco que ainda resta de mim. O céu está cinza — não porque vai chover, mas porque até o sol parece cansado, ameno. As árvores ao redor não se movem, como se soubessem que qualquer som alto demais pode me fazer desabar, a respiração é curta, o peito aperta, mas não dói mais. É só o vazio fazendo morada. E, de repente, percebo que não é o medo que me paralisa — é a indiferença, o tanto faz se no próximo passo irei despencar ou seguir adiante.
Sua intenção era me bagunçar? Era bagunçar tudo o que levei tanto tempo tentando arrumar? Olha pra todo esse tempo que sumiu, acha que também não passou pra mim? Claro que passou, organizei tudo como estava, cada sentimento no seu devido lugar. E aí você aparece, sem pedir licença, como se fosse simples abrir o que já estava fechado, você fala, e depois some. E quem fica com o eco das palavras sou eu. Quem precisa recolher os restos, sou eu. Não é justo. Nunca foi. Eu não sei se queria que você ficasse, só sei que sua ausência de novo pesa mais do que sua presença breve, parece que você veio só pra me lembrar do que eu tinha esquecido sentir. São tantas dúvidas… porque eu também não sei o motivo de você ter me mandado aquela mensagem, era pra manter uma conversa? Ou só pra eu saber que você ainda está por aí, de alguma forma me vendo? Não sei o que é pior: a ausência completa ou essa presença mínima que me deixa em suspensão. Você não fica, não explica, só lança uma fagulha e me deixa com o incêndio. Talvez eu nunca tenha resposta, e talvez nem precise, porque a ausência agora já é a resposta. É estranho porque eu já tinha me acostumado com o silêncio. Já tinha colocado cada lembrança no seu canto,não era felicidade plena, mas era paz. E aí você chega, toca a campainha e some, como se nada tivesse acontecido. Quem faz isso? Fico me perguntando se você pensou em mim antes de escrever, se ensaiou as palavras ou se foi só impulso. E se foi impulso, por que logo comigo? Talvez eu esteja dando importância demais. Talvez, pra você, tenha sido só uma mensagem qualquer, dessas que se mandam sem pensar. E agora estou aqui, me perguntando se sinto falta de você ou apenas da sensação de não me sentir sozinha quando você estava. Você me bagunçou de novo, e o pior é que eu não sei se queria isso ou não. Parte de mim sente saudade, e no meio disso tudo fico eu, tentando juntar os cacos de mais uma ausência sua.
Desabafos da sua ausência.
As vezes o amor é ter a coragem de se deixar tocar, mesmo sem garantias, é acreditar que ele pode ser gentil com suas inseguranças, que pode ser calmo nas suas tempestades, que pode ser cais nas suas emoções, ele pode te mostrar que amar não é algo difícil e muito menos que não te cabe, esqueça as pessoas que passaram por sua vida apenas por interesse numa noite, esqueça essas pessoas que confundiram passagem com presença. O amor que te merece vai querer ficar, não por carência, mas por escolha. Ele vai se interessar pela tua rotina, pela maneira como você toma café, pelas pausas que você precisa pra respirar. Vai respeitar teus silêncios sem tentar preenchê-los à força. Vai querer aprender a amar do teu jeito, no teu tempo. Vai entender seus medos e te ajudar a lidar com eles. Vai te fazer sorrir num dia ruim. Você vai entender que é merecedora, sim — não por fazer mais, não por ser sempre forte, mas porque ser você já basta, e quando esse amor chegar, espero que você se sinta segura o suficiente pra se doar sem medo, porque ele vai conseguir quebrar esse muro que construiu de alto defesa, porque o amor certo não exige armadura. Ele te acolhe inteira, até nas partes que você achava que precisava esconder, e você finalmente vai se permitir sentir.
Cuidar é mais do que estar perto, é se fazer presença mesmo na distância, mesmo nas horas que não queremos presença. É reparar no silêncio do outro, nas pausas, nos pequenos sinais que passam despercebidos, mas que no fundo sabemos o quanto são significativos. O ato de cuidar é tão natural, as vezes o simples fato de perguntar “você comeu?” quando a fome parece ter sido esquecida no meio da correria, é válido. É lembrar do que o outro gosta, do que o acalma, do que faz seus olhos brilharem. Cuidar é oferecer colo sem precisar de convite, é respeitar o tempo do outro, mas não deixar que ele se perca dentro de si, é mostrar que você pode ser morada, é ter mãos que acolhem, palavras que confortam e silêncios que não machucam. Cuidar é uma forma bonita de amar e talvez seja das mais sinceras, porque quem cuida, sente. E quem sente, nunca está ausente.
— Julliany em Relicário dos poetas.
Chorei baixinho num lugar onde sabia que ninguém me ouvia, era mais uma noite lembrando da nossa despedida, aquela que com ânsia de vômito, de tanta ansiedade, tive que fazer. Pôr um fim no nosso laço foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida, porque aprendi a te amar de dentro para fora. Amei seu caos e sua mentira primeiro e isso, na minha cabeça, funcionava muito bem. Mas a verdade é que eu sempre carreguei um grito engasgado, um grito que queria te dizer que eu não aguentava mais ser metade enquanto você era inteiro só para os seus próprios desejos. Um grito que implorava para você ficar, ao mesmo tempo em que suplicava para eu ter coragem de ir. Um grito que se formou no peito, pesado, vibrando como se quisesse romper minhas costelas, mas não saiu. E não saiu porque eu sabia que, se saísse, eu desmoronava, não saiu porque eu ainda te olhava com aquele resto de esperança que só o amor teimoso conhece. Não saiu porque eu aprendi a silenciar por você, a me diminuir por nós, a sufocar o que doía para que você não percebesse o estrago. No fim, a despedida não foi o instante em que virei as costas. A despedida foi todo o tempo em que eu segurei todos os incômodos, as inseguranças, os medos e a falta de reciprocidade, quando te vi indo embora me deu vontade de ir atrás, gritar para que voltasse, mas o grito não saiu, não tinha mais voz, tudo em mim silenciou.
— Julliany em Relicário dos poetas.
o silêncio do outro não é um laudo sobre o seu valor. Mas eu sei… quando acontece sempre, o cérebro faz essa conta sozinho e quase nunca a nosso favor. Tem dias em que eu não sei se é meu corpo falando mais alto ou se é meu coração cansado de esperar as expectativas que mesmo sem querer começo a criar. Fico tentando entender se o que dói é exagero emocional , ansiedade antiga ou só o choque silencioso de expectativas que não se cumpriram e isso cansa, cansa ter que ser forte, cansa tentar não levar para o lado pessoal, cansa se perguntar por que nunca ficam. Às vezes me arrependo de ter permitido conhecer, não porque o encontro foi ruim, mas porque a ausência que vem depois pesa mais do que a experiência em si. Fica esse sentimento estranho de frustração, como se eu estivesse sempre disponível para o começo, mas nunca para a continuação e isso abre tantas e tantas interrogativas. Talvez não seja sobre falta, talvez seja sobre desencontro, talvez apenas não seja o momento certo. Mas em dias assim, o silêncio ecoa, a ansiedade fala alto e o coração fica tentando se proteger do próprio desejo de ser escolhida, porque a pergunta que mesmo não querendo fica se repetindo na minha mente é “quando é que vai dar certo?” É cansativo ter que racionalizar a própria carência, ter que ser madura quando tudo o que o coração pede é descanso. Talvez um dia esse ciclo se quebre e um dia alguém fique.
Se eu tivesse o dom de reiniciar, de apagar minha memória e todos os dias ter perspectivas diferentes, o que eu faria? Eu diria que, em certos dias, seria um alívio. Porque, por mais que eu entenda que às vezes é atravessando a dor, a raiva ou até a decepção que a gente constrói a cabeça de hoje, eu ainda escolheria não carregar esse tipo de memória, elas cansam. Elas me levam para lugares onde eu nem sequer me reconheço, onde viro uma versão minha que só sobrevive. Fico presa no automático, repetindo gestos, pensamentos e silêncios, tentando funcionar quando, na verdade, só queria descansar de mim, de toda essa exaustão. Talvez reiniciar não fosse sobre esquecer tudo, mas sobre ter a chance de me olhar sem o peso do que já doeu, sobre acordar sem precisar ser forte o tempo todo, sem ter que explicar feridas antigas para justificar quem eu sou hoje. Porque viver fora de si cansa, e há dias em que tudo o que eu queria era voltar para dentro, e não carregar tudo isso.
Mandei mensagem no nosso grupo e marcamos de nos encontrar, em um lugar tranquilo, sem muitas pessoas onde poderíamos nos sentir à vontade. Cheguei primeiro e esperei um pouco, sorri quando vi vocês chegando de uma em uma. É incrível como, quando estamos juntas, tudo fica mais leve, falamos sem medo de ser julgadas, de parecer bobas ou de estar erradas. Nosso desastre vira riso, nossas dúvidas viram conversa e até os dias mais pesados perdem um pouco do peso, é libertador sentir confiança para ser exatamente quem eu sou quando estamos juntas, acho que é isso, intimidade é poder ser vista sem defesa, é não precisar medir palavras, nem esconder fragilidades, é saber que não existe competição, apenas acolhimento. Eu guardo todas as armaduras quando estou rodeada de vocês e por alguns instantes o mundo lá fora deixa de ser tão barulhento, porque encontro no meio das nossas conversas e risadas, um lugar seguro para simplesmente existir.
— Julliany em Relicário dos poetas.