As minhas constantes noites sem dormir sempre me levam ao desespero do pensamento, do medo irreal, das paranoias sem sentido. Repensar uma noite perfeita contigo me faz questionar todas as outras noites agradáveis que também pensei serem perfeitas. Tento entender até que ponto os outros são diferentes de você. Eu tenho algumas possíveis explicações: os outros não eram inexperientes, mas os outros também não eram totalmente sinceros, os outros não tinham inteligência emocional, os outros me faziam duvidar de mim mesma, os outros me faziam sentir insuficiente, os outros me usaram, os outros me consumiram o psicológico, os outros se agarravam em mim como salvação pros próprios problemas, os outros nunca me fizeram sentir segura emocionalmente, os outros também me rejeitaram por eu não aceitar ser controlada, os outros foram outros que mal lembro o nome, mal lembro os tempos bons, mal sei quem foram.
Tenho escritas sobre alguns que se destacaram no meio dos outros caóticos e desagradáveis. Tenho escritas que traduziam sempre um romance criado por mim para mim. Tenho escritas que mostram mais o que eu queria que fosse do que realmente era. Mas você... Você realmente segurou minha mão e disse: "tá tudo bem, eu tô aqui contigo. Vou continuar aqui contigo e você não precisa passar por isso sozinha." Você realmente esteve ali enquanto eu só conseguia surtar mentalmente porque eu estava chorando e dizendo o quanto aquilo era demais pra eu mostrar em tão pouco tempo, por sentir tanto tão rápido, tão intensamente, de um jeito tão diferente. Você estava ali e ficou e me garantiu que tava tudo bem ser eu, ser várias de mim mesma.
Eu não inventei nada daquela noite. Mas você foi naquele momento o que eu sempre quis que alguém fosse, alguém que dissesse que tudo bem eu ser assim. Me fez sentir suficiente. Sem nada dos romances que eu achei que queria, sem nada das bobeiras americanas eu lia, sem poesias adolescentes. Não sinto a necessidade agora de acrescentar frases bonitas, nem análises poéticas pra enaltecer a maneira como você me olhava ou me beijava, ou pelo jeito que eu consegui te dar carinhos e mais carinhos, ou pelo jeito que a gente conseguiu chorar por ter se entregado ali, de um jeito meio torto, meio estranho, meio fora da zona de conforto dos dois, talvez como nunca antes. "Depois de você, os outros são os outros e só."
O melhor de viver algo real foi tê-lo feito de um jeito mais bonito do que eu poderia fantasiar. Eu entendo suas dores, entendo suas dificuldades, entendo toda a atrocidade de não ter controle de si mesmo, dos pensamentos, ou do próprio corpo. A minha preocupação contigo foi genuína em todo o momento e também uma surpresa pra mim. Eu que só cuido de mim, resolvi que valia a pena que eu me preocupasse em fazer você se sentir bem na minha companhia. Justo eu que sempre achei mais fácil abandonar homens em motéis baratos e nunca mais querer saber ou ouvir a voz deles, que me entregava por aí muitas vezes por tédio, pra preencher qualquer coisa que nunca fez sentido.
Sei que você não tem parâmetro para comparar e isso pode ser mais confuso ainda, mas saiba que foi tudo novo até pra mim. O meu carinho por você já é novidade, tanto que eu já nem sabia que era capaz de fazer isso; muito menos fazê-lo sem me sentir completamente insegura, sem sentir que talvez eu estivesse sendo demais, que estivesse te assustando pela rapidez de tudo; ou o clássico da minha mente perversa, que a pessoa vai desistir de mim antes mesmo de tentar. Eu não sei atualmente o que se passa pela sua cabeça, embora eu esteja constantemente apavorada pelo que quer que seja. Não consigo imaginar nenhum cenário positivo no momento, porque sei que nada nisso faz sentido. Eu consigo imaginar o de sempre: isso é demais pra mim e acabou. Sei que não podemos ter e nem temos certeza de nada além de que foi maravilhoso o que aconteceu. E eu adoraria ser uma pessoa que se contenta com pouco, mas eu não sou e acho que, apesar de estar sempre pronta pra seguir sozinha, apesar de todas as experiências à distância que tive terem sido completamente frustrantes, eu ainda acredito. Se é ingenuidade, burrice ou só um defeito, eu não sei, mas como eu disse antes pra você, eu acredito que ainda existam pessoas boas no mundo e eu não gosto de deixá-las ir embora quando as encontro.
Não posso mentir pra mim mesma e dizer que já não cogitei a possibilidade de você se mudar e a gente se encontrar ainda nessa vida, ainda nesse ano. Não posso mentir dizendo que já não cogitei milhões de coisas pra gente se ver de novo antes mesmo que eu tenha ido. Nessas horas que eu odeio cada pedaço da minha ansiedade e de como eu posso ser tão impulsiva, egoísta e até irrealista. Eu nem te perguntei, nem sei se é o que você quer. É por isso que eu sempre prefiro fincar os pés no chão. É mais seguro pra mim e eu não assusto ninguém e eu não me sinto difícil de ser amada, de encontrar alguém que não desista por causa de tudo isso, de toda essas invenções precipitadas. Por causa de uma história que nem aconteceu, mas na minha cabeça eu já anseio pelo fim, esperando por um começo.
Não se preocupa também. Eu me conheço bem o suficiente pra saber que se não for dessa vez, eu vou ficar bem também, como sempre fico. Talvez passe a ser cada vez mais difícil me permitir de novo como fiz contigo, cada vez mais complicado manter a esperança de acreditar; mas eu vou ficar bem, porque, assim como você sempre teve essa certeza, eu também acredito que vou continuar sozinha e, até certo ponto, eu não acho um problema como já achei que seria quando mais nova.
Acho engraçado quando você me diz que nunca teve um relacionamento e nunca nem cogitou algo do tipo, porque eu não me sinto tão diferente. Eu nunca tive nada remotamente saudável pra chamar de relacionamento. Nunca pude dizer "eu te amo" pra alguém sem cogitar anos depois se aquilo era amor ou abuso psicológico ou só palavras sem significado pelo desespero que de querer amar alguém. Ou pior, de querer ser salva por alguém. Ser inexperiente nesse ponto não deveria ser um problema. A gente aprende sempre e tem primeira vez pra tudo. Pra mim você é uma primeira vez saudável, linda e cheia de aprendizado. Então, é como se ajudar nos quesitos que ainda desconhecemos. De qualquer forma, deixo isso pra você decidir, pra você refletir, pra você querer. E, se, por acaso, você achar que vale a pena embarcar nessa loucura que seria existir um nós; por mais estranho, complicado, e até bobo, que pareça, eu estarei disposta. Eu não meço esforços para a minha felicidade, e confesso que já tô um pouco cansada de só ter ela pra mim mesma.