O olhar incisivo sobre a figura esbelta era fenomenal, podia facilmente observá-lo para sempre sem se cansar, o cheiro então, tão agradável e nostálgico que chegava a doer as narinas, e diga-se de passagem, minimamente diferente do que se lembrava. Não sentia mais nenhuma deficiência sanguínea no organismo a sua frente ( ou seria por outras características? ) ; por isso o desencontro com as recordações. Seus sentimentos estavam mais que confusos, mirava os lábios atraentes fervorosamente, ansiando as respostas futuras de Kei.
Não demorou para que a típica expressão exagerada surgisse. – “…Oh! Então você acha que quem está no comando é você?” – Riu descarado, tirando sarro do rumo em que a conversa tomava. A sagacidade evidente do humano era impetuosa até para o loiro. Estava maravilhado, orgulhoso e muito, muito feliz. – “É um rapaz bastante ousado, heim’. Chegou a pouco tempo na área e nem ao menos teve o trabalho de pesquisar sobre?” – Debochou da inteligência do outro, demonstrando certa euforia. – “Esse seu sotaque não engana ninguém…” – Tão estranho conversar com ele na sua língua nativa, e não em dinamarquês. – “Quer dizer–” – Suspirou fundo, tentando reprimir-se. – “Eu te conhecia melhor que ninguém.” – Proferiu num tom sedutor, exibindo seu sorriso convencido.
Invadiu o tempo de resposta do outro, cedendo um pouco para o entendimento do mesmo. – “Por direito territorial, sua loja fica na área em que a minha família herdou, então assim’, é meu dever dar uma olhadinha no que está acontecendo sem o nossa aprovação nesta loja.” – Revelou. – “Agora me diz… Como é que está vivo?” – Indagou-o curiosíssimo, quiçá, fissurado, assim como uma besta faminta, no exato momento em que finalmente encontra a presa da noite.
É claro que Shin não conseguiria manter seu foco, estava anestesiado, qualquer coisa que seu irmão tivesse lhe instruído minutos atrás havia sumido em questão de segundos na consciência nebulosa. Acabou misturando seus dois papéis desempenhados naquele momento, e não estava nem aí para o resultado que isso poderia gerar.
Sentia constantemente analisado por aquela pessoa... De uma forma intensa, talvez tão intensa que nunca tivesse acontecido antes. Chegou a recuar o movimento sutilmente afastando-se do apoio na mesa. Não era medo exatamente, era algo que mexia com a sua pessoa em vários lugares e por um instante, sentiu uma pequena crise de ansiedade que não sentia a anos. O movimento do coração intenso, os sons pareciam próximos ao ouvido, as mãos frias acumulando suor e uma tremedeira leve, assim como um arranhar na garganta. Queria fumar. Kei não fumava a anos.
O som da risada o chamou atenção, mas não tanto quanto as declarações. Ele de fato tinha um sotaque acentuado, por mais que tivesse adquirido o visto nacional não era como se japonês fosse sua primeira língua. A garganta fez um nó. - O que você quer dizer com isso? - O semblante de desdém alterou-se para sério. Ninguém de fato tinha feito tal abordagem a ele. Era completamente de Kaoro. Não se interessou nem um pouco sobre aquela parte sobre a área em si pertencer a outra pessoa, afinal, Kei comprou aquela localidade com muito investimento e trabalho árduo e nada que aquele rapaz dissesse o faria deixar o ponto que tinha feito. O que intrigava era o modo como ele dizia, como ele parecia conhece-lo.
- Como é que você sabe sobre mim? De onde eu te conheço? - Olhava firme e por mais que o nervosismo o tocasse, não parecia ceder facilmente ao tom e as provocações. Relaxou os ombros e umedeceu os lábios tocando de leve a franja na testa. Os olhos claros se encontraram com os do outro de forma intensa. Apoiou as mãos sobre a mesa inclinando o dorso e cerrou os olhos examinando bem aquele rosto. - O que é você? Não é humano. - Pareceu enojado com a declaração.
Recolheu-se melhor para o assento ainda o olhando da mesma forma. - Qual sua ligação com Kei Mathia? - Falava de si mesmo como se fosse outra pessoa, como se tivesse sido enterrado, apesar do corpo e alma serem o mesmo as memórias não o acompanharam. - Eu não entendo minha cabeça adolescente... - Esfregou os polegares nas têmporas fechando os olhos por um instante. - Tudo foi apagado... Algo como um surto pós traumático? - Nem se quer sabia exatamente o que foi o causador da perda de memória severa, o médico tinha mencionado que já tinha acontecido antes. - Entretanto... Algo na sua voz, no seu rosto... Na forma como anda, o seu cheiro... Me faz me sentir nostálgico. - Afastou-se mais um pouco esfregando uma mão a outra. Aquela pessoa... Ainda não tinha certeza se era perigosa, não podia abaixar a guarda.