Um fio de seda chegou ao Reino Celestial um dia atrás flutuando antes de desaparecer. No dia de hoje há uma criatura diminuta no solo daquele lugar onde a mariposa desapareceu antes de tecê-lo, o rosto redondo é parcialmente familiar, mas a única coisa que indica sua identidade é uma escama iridescente no topo de longos cabelos negros. Esta criaturinha não parece enxergar o imortal, contudo suas mãos se esticam na direção daquele fio trançado como um anel que há muito a mariposa o dera./Runyu
Não era segredo que o tempo no plano Celeste era inacreditavelmente mais veloz do que o plano mortal. Anos, décadas, séculos passavam num piscar de olhos para um Imortal, e ainda sim, o tempo curto de uma vida ainda conferia a uma existência mortal toda uma singularidade. Ainda sim, de todas as criaturas no plano terreno, justamente a que havia de roubar-lhe o coração fora justamente uma pequena que mal conseguia se manter viva por mais de meros segundos neste terreno divino. Talvez não devesse ansiar, talvez não devesse cobiçar poder dobra o tempo e as forças da natureza à sua vontade apenas para satisfação de seus desejos. Havia ainda um dever a cumprir, ainda que não pudesse apagar a mancha deixada por seus pecados passados.Seria esta mais uma punição que devia sofrer?
O tempo de espera que lhe fora demandado desde seu último encontro pareceu se extender mais do que inicialmente previsto neste plano. E cada segundo que se o silêncio dava voz aos próprios pensamentos, apenas ecoando e amplificando suas dúvidas: Será que não devia ter insistido mais e ficado lá até o fim? E se tivesse lançado mão de sua cultivação para mantê-la saudável? Perguntas e mais perguntas que se empilhavam uma sobre a outra em sua mente enquanto observava em silêncio a destruição que causara em seu quarto após um repente de fúria por conta da própria impotência. Uma última olhada para os jardins do palácio, até perceber o frágil fio de seda flutuando com a brisa suave daquele lugar gélido e vazio, brilhando sob a luz da lua gigantesca antes de desintegrar em ar fino.
Uma onda de inquietude o acomete, enquanto ele se vê congelado no lugar em que estava, envolto pela escuridão, não só do ambiente, mas também dos próprios sentimentos e pensamentos. Sequer pensou duas vezes antes de descer até o plano mortal, navegando pelos ventos do Leste com toda a velocidade que seus poderes permitiam enquanto o corpo parecia ser enxurrado pelo mais variado misto de sensações. Medo? Tristeza? Ansiedade? Talvez uma combinação de tudo enquanto os olhos afiados percorriam apressadamente cada metro de terra procurando o local indicado.
O espaço reconhecido estava agora vazio, sem vivalma, apenas restando os utensílios e objetos que ele reconhecia como sendo de sua adorada Mariposa. No entanto, bastou andar em volta para enfim achar o que pareciam ser traços de seda se espalhando pelo pequeno recinto. Não precisava ter um brilhante poder de dedução para supor que estava chegando cada vez mais perto. Mas para sua surpresa, não encontrou nada... Exceto uma pequena criatura que rastejava no solo. Era familiar, porém em nada se assemelhava com quem estava procurando. Ou assim ele achou. Logo ao se agachar para observá-la melhor, logo notara o brilho da escama que somente um único ser no mundo poderia portar. Agora sim. Agora sim ele sentia a dor de mil adagas atravessadas em seu corpo esbelto, enquanto esticava as mãos para tentar afagá-la e deixar a sua presença ser notada calmamente para não afugentá-la.
Os olhos ardem, a garganta seca e parece se contorcer a ponto de palavra alguma sair no primeiro momento, enquanto os finos e delicados dedos tocam a superfície do inseto. Estranho pensar que o Imperador dos mais Excelsos Céus rastejaria por um inseto. Vai ver talvez fosse exatamente este o lugar em que ele deveria estar. Francamente, nada disso importava agora. Porém, ao ver que seria inútil apenas tocá-la, ele tratou de forçar as palavras para fora com a maior delicadeza que o presente contexto poderia permitir. ❛❛ ━━━━━━━━━━ Por favor, não se assuste, Yue... ❜❜ A voz vem embargada, fonemas desajeitados enquanto uma lágrima escorre. ❛❛ Eu vim cumprir minha promessa. Eu vim te buscar, meu amor. ❜❜