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e tristezas inúteis
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@aditiva
odeio dores improdutivas
e tristezas inúteis
um final plausível
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona
mais.
deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal
ou ler um romance.
é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios
e suponho que aquilo que a maioria das pessoas faz
quando não há mais lugar algum para onde ir
é ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa
que dificilmente as satisfaça,
e esse ritual tende a aplainá-las
até que consigam prosseguir de algum modo
mesmo sem esperança.
essas caras que você vê todos os dias nas ruas
não foram criadas
inteiramente sem
esperança: seja generoso com elas:
assim como você
elas não
escaparam.
BUKOWSKI, Charles.
não é fácil achar a saída quando não se sabe muito bem para onde se quer ir ou onde se está
todos os dias parecem os mesmos desde que há oito meses entrei nesse maldito emprego
exceto pelos cigarros
embora tenha tentado parar, tenho fumado cada vez mais
como se pudesse fazer o tempo passar menos devagar,
também tenho comido menos,
meus 47 quilos assustam os cliente que me olham de canto
de olho
repito “é a vida” como um mantra, um consolo ou uma promessa cumprida
que minha mãe me disse aos 18.
hoje, aos 26 tenho um medo
do escuro.
eu era mais sã aos 18, com menos medos e mais vontade de viver e
hoje corto meu cabelo para me reconhecer
somehow
me perdi entre os 18 e os 26
só deus sabe aonde
se ao menos eu soubesse rezar...
a última menina com quem transei me falou que não gostava de bukowski, acho que foi por isso que paramos de transar,
não que seja necessário gostarmos das mesmas coisas,
obviamente, mas ela achava ele muito dolorido, e a vida para ele parecia tão cruel
eu não conseguia lidar com uma pessoa assim, que via a vida tão cheia de esperança e beleza
não conseguia engolir isso
até que o sexo era bom, tínhamos uns papos interessantes, gostávamos de bandas parecidas e nossas
insônias aconteciam nos mesmos horários.
tenho lido Foucault demais... talvez por isso a vida tenha parecido tão cruel.
sinto falta das madrugadas acordada, lendo, ouvindo música, escrevendo loucamente. depois dos 25 tudo muda, por mais estúpido e clichê que seja dizer isso. muda. já tenho marcas no rosto... não me reconheço mais.
tua saudade me deixa febril
eu deveria perguntar quem é você, mas não, melhor não
ele engole mais um pouco da cerveja já quente e me olha amargo.
“você diz quando e onde” “assim? fácil assim?” “oh filho da puta, estou sendo tão boa com você” "você e suas migalhas” riu, seco “às vezes você me olha como se estivéssemos em um filme porno” "não sou dissimulada” “sim, você é"
assenti, sorrindo. ele pôs a mão sobre a minha e pegou o cigarro apagado que eu mexia entre os dedos.
“faz quanto tempo?” “nove meses” “e ainda anda com o cigarro?” “achei que estava perguntando sobre nós”
ele riu, em prazer, quase êxtase.
“eu ainda to dilacerado, clarice” “nós estávamos nos dilacerando, você vê agora?” “eu ainda sinto sua falta”
peguei o cigarro de volta e coloquei na boca. já fazia dois meses que tinha parado de fumar, sem grandes tentativas ou desafio, apenas um pedido de paz. o acendi.
“você desiste das coisa fácil” “não acho que você me conheça” “to falando sobre coisas que te fariam bem, como se curar dessa porra” “é só um cigarro” “como diria freud…”
o cigarro queimando com pressa,
a noite cai lentamente como se
estivesse esquecido de chegar e
deus existisse
e pedisse perdão.
olho pra rosa que ganhei,
é a primeira vez que ganho flores.
você é uma promessa não cumprida
que faz remoer as unhas
e chorar em silêncio.
você existe mas
é como se não fizesse sentido
no meio de toda essa confusão
a gente ter se encontrado porque
enquanto você reza um pai nosso e
eu chupo seu pau
o mundo parece cruel
e
aquela vez que fomos naquele galpão
quente
eu descobri que te amava.
depois de dois meses juntos, você me disse que eu gostava da minha tristeza
e que “não-queria-sair-dessa-dor”.
nunca concordei com você sobre a maioria das coisas,
sempre te achei são e com uma alegria sobre a vida que me dava um certo desespero
claro
você gosta de amar e
carregar alguém
manter uma fé digna sobre todas as coisas da vida.
mas baby, a tristeza me segue como um cachorrinho
magro e faminto.
eu nunca fugi e isso nunca foi um peso.
existe algum lugar em que não há tristeza?
sinto falta de São Paulo e de me sentir abraçada por todo aquele caos
de todos os lugares, você
quando eu parei de te amar, deixei de me preocupar com as mangas amassadas da sua camisa e
de como você sempre dormia com os braços pra cima.
quando eu parei de te amar, mudei a medida do pó de café para
duas xícaras de água.
não foi em um momento exato, como quando você me acordava as seis da manhã e eu ficava irritada ou
enquanto você se despedia da sua mãe e do seu antigo cachorro.
não foi enquanto fazíamos compras e discutimos sobre a marca do sabão em pó
ou quando resolvemos mudar os móveis de lugar e a sala ficou desconexa e menor.
não houve um momento, nem estabelecemos um fim mas
você percebeu e foi embora antes que pudéssemos falar sobre isso.
lembro que no dia que você foi suas mangas não pareciam tão amarrotadas e sua calça cheirava a roupa limpa.
parecia que você estava chegando, e não partindo: você se foi com a cautela da chegada.
por algumas semanas, o jornal que você assistia diariamente pareceu não fazer sentido,
o café passou a ter um gosto mais forte
e eu parei de sonhar com a Califórnia.
and as I stared I counted the webs from all the spiders catching things and eating their insides, like indecision to call you and hear your voice of treason. will you come home and stop this pain tonight?
Você não escreve mais, Clarice?
pouco
parou de escrever? sinto falta de ler suas palavras
tenho escrito pouco, mas to tentando dar continuidade a um livro de histórias
where are you?
lost in translation
lembro de você até hoje, e todas suas histórias loucas. queria te ver de novo.
ah...