Adoniran Barbosa e Elis Regina (1978) Nesse registro datado de 1978, no Bar da Carmela, em São Paulo, Adoniran canta Iracema e Um Samba no Bixiga, acompanhado de Elis Regina. IRACEMA (Elis Regina) Iracema, eu nunca mais que te vi Iracema meu grande amor foi embora Eu chorei, eu chorei de dor porque Iracema, meu grande amor foi você Iracema, eu sempre dizia Cuidado no atravessar essas rua Eu falava, mas você não me escuitava não Iracema você travessou contramão E hoje ela vive lá no céu Ela vive bem juntinho de nosso Senhor De lembrança guardo somente suas meia, os seus sapato Iracema, eu perdi o seu retrato. (Adoniran Barbosa) — Iracema, faltavam vinte dias pra o nosso casamento Que nóis ia se casar Você atravessou a Rua São João Veio um carro, te pega e te pincha no chão O chofer não teve curpa, Iracema Você atravessou contra mão Paciência, Iracema, paciência (Elis Regina) E hoje ela vive lá no céu Ela vive bem juntinho de nosso Senhor De lembranças guardo somente suas meia, os seus sapato Iracema, eu perdi o seu retrato Iracema, meu grande amor foi você Iracema, você travessou contra mão UM SAMBA NO BIXIGA Domingo nós fumos num samba no Bixiga Na Rua Major, na casa do Nicola À mezza notte o'clock Saiu uma baita duma briga Era só pizza que avuava junto com as braxola Nóis era estranho no lugar E não quisemo se meter Não fumo lá pra brigar, nós fumo lá pra comer Na hora "H" se enfiemo de baixo da mesa Fiquemo ali, que beleza vendo Nicola brigar Dali a pouco escutemo a patrulha chegá E o sargento Oliveira falá "Num tem importância Foi chamada as ambulância" Carma pessoal, A situação aqui está muito cínica Os mais pior vai pras crínica Em itálico, as variações presentes nas composições, em relação ao português padrão. É comum encontrar nas composições de Adoniran Barbosa, supressões do plural, como em suas meia ou pras clínica. Essa é uma variação presente em dialetos de inúmeras regiões paulistanas e possui influência certeira da imigração italiana. Na língua natal dessa colônia, o plural não é marcado com a terminação –s em substantivos, mas sim com alterações na vogal final, como em ragazzo-ragazzi (menino-meninos), persona-persone (pessoa-pessoas) ou calza-calze (meia-meias). São mudanças fonéticas sutis se comparadas com a mudança no português quando se trata da formação de plurais. No processo de aprendizagem, provavelmente a mudança não foi assimilada na formação dos substantivos e acabou sendo incorporada pelos falantes, depois transmitida para os descendentes. Proposições, pronomes e artigos recebem a partícula –s normalmente. Também aparecem enfiemo e escutemo, no lugar de enfiamos ou escutamos. Aqui, além da supressão da partícula –s do plural, há uma troca entre os fonemas /a/ e /e/. Em travessou, a palavra atravessou perde o fonema /a/ inicial e em duma, há uma aglutinação entre de e uma, também perdendo uma vogal no processo (/e/). Nessas palavras, as vogais trocadas ou perdidas não são significante expressivo, por isso, mesmo com as mudanças, não se perde o significado do que foi expresso. Em falá e chegá, a variação é predominantemente escrita. Na oralidade corrente, os verbos falar e chegar são pronunciados dessa forma, ao invés da pronúncia do –r final. Em mais pior, além do adjetivo comparativo, há a presença de um advérbio de intensidade, o que não é admitido pela variante padrão do português. Esse tipo de construção é comum no português popular, considerando que a palavra pior não só funciona como um adjetivo comparativo, mas como um substantivo que demonstra inferioridade. É interessante notar que nos diálogos registrados entre Adoniran e Elis, ambos demonstram um domínio do português padrão. Isso mostra que a variação nas composições de Adoniran Barbosa é proposital, ou seja, há uma adequação intencional em sua música para a variante popular do português, mostrando uma preocupação com o público alvo e com o tipo de mensagem a ser passada por ela.