Você é mais um vindo à minha direção. Você chega perto e diz: Oi, como você tem passado? Você realmente espera que eu me atire aos seus pés e diga que não estou bem? Poupe-me. Você volta a repetir a pergunta, então eu sorrio e dou meia volta. “Ei, espera aí”, eu ouço ao longe, paro e volto a te olhar. Então me lembro de setembro passado, memórias me invadem, mas não me afetam mais. Eu ainda lembro o que você me disse naquele domingo: “Eu não te amo, mas gosto do modo em que você torna tudo fácil. O mundo é dos mais espertos.” Palavras que me magoaram, cortaram, sangraram. Senti pena da minha alma, tão doente, tão sofrida, tão enganada. Deus, eu te dei tudo. Minhas forças, minhas ilusões. Como pude? Como pude me deixar enganar? Eu ficava em meu quarto, olhando as paredes e pensando: Será que vocês são capazes de ser mais quentes que ele? Bom, eu acho que sim. Alguém que diz que ama, quando na verdade não sente nada, só pode ser no mínimo, um covarde egoísta. E, enquanto eu fiquei trancada em meu quarto, num tempo em que até ver a luz do sol me machucava, onde o ar comprimia a minha garganta, e onde aprendi, com algum custo, a sofrer comigo mesma, a conter choros e forçar sorrisos, eu disse a mim mesma, você vai ficar bem. Vai sobreviver. Então quando abria a janela e sentia o sol em minha pele, tudo retornava. Mentiras, quantas mentiras, olhares, palavras… Então, fechava a janela, deitava na cama mas eu já não chorava mais, estava seca demais pra isso. Permaneci lá com o coração quebrado, mas os cacos não estavam mais espalhados, comecei a ser tão fria que até eu me temia. Então, eu ouvi uma história, duas histórias… Pessoas vencendo cancers, lutando por suas vidas… lutando pra viver enquanto eu estava aqui, lutando pra tirar a minha. Então eu saio do quarto e vou viver a vida, até arriscando sorrir. Um dia eu te reencontro e eu não sinto mas aquela sensação de nauseas, tremedeiras ou coisa assim. Você é mais um, vindo na minha direção. Você chega perto e diz: Oi, como você tem passado? Você realmente espera que eu me atire aos seus pés e diga que não estou bem? Me poupe. Você volta a repetir a pergunta, então eu sorrio e dou meia volta. “Ei, espera aí”, eu ouço ao longe, continuo a andar. Você grita: Não consegui te esquecer, na tentativa de me deter. E eu? continuo a andar, sorrindo. Setembro passado eu voltaria, choraria e diria que sinto o mesmo, que esperei muito pra ouvir isso. Mas agora, estou andando. Lembro da minha imagem no espelho quando eu disse: Você vai conseguir. Eu consegui.