stepping into another maze.
tkouk:
Kou era a definição de exaustão naquele dia. Trabalhar e estudar ao mesmo tempo estava provando ser algo muito difícil, mais até do que na época em que era um artista profissional e ainda precisava lidar com o ensino médio em um país estranho. Talvez fosse mais fácil porque seu status garantia regalias dentro da instituição, já que não eram poucas as vezes que precisava matar aula para ensaiar, se apresentar, gravar, dar entrevistas, etc. E ali… Bem, ali não era nada além de um estudante de música que cantava à noite em alguns pubs. Precisava ser diligente em ambas as coisas e sem privilégios.
Não era como se precisasse daquilo. Na verdade, sua vida como guitarrista da antiga banda EDEN lhe rendeu dinheiro suficiente para viver tranquilo por um tempo contanto que não se rendesse a muitos luxos e Kou nunca foi dependente deles. Contanto que tivesse seu violão, seu café e seu cigarro, além de tranquilidade de saber que sua mãe estava bem e ao seu lado, não precisava de mais nada. Contudo, apenas estudar deixava o homem com tempo livre demais para pensar e aquela era uma coisa que definitivamente não queria, nem conseguia se acostumar mais. Foi por isso que decidiu aceitar o convite de um amigo seu para cantar no pub dele. Dali em diante, os convites só se tornaram mais frequentes graças à sua antiga fama e hoje cantava quase todos os dias, o que lhe dava dinheiro, tranquilidade e pouco tempo para pensar. O lado ruim era só não ter tempo para descansar.
Para sua sorte, aquele era das poucas noites de folga que tinha durante a semana, por isso decidiu ir até um café que adorava, mesmo estando cansado das aulas que havia assistido. De um lado carregava seu violão no case e do outro uma mochila, que insistia em cair do seu ombro. Estava tentando fazer com que ela ficasse ali quando uma melodia conhecida pôde ser ouvida, cantada por uma voz que não lhe era estranha. Na verdade, era tão conhecida quanto a canção.
Franzindo o cenho, se aproximou um pouco mais da cafeteria, que parecia ser a fonte do som e não demorou muito para ver uma mulher sentada em uma das mesas externas com um violão no colo. Ela tocava bem e tinha uma voz que tranquilizava Kou de forma que só uma outra fazia, mas havia tanto tempo desde que a ouvira ao vivo que demorou a relacioná-la com a que ouvia naquele instante. E quando fez, não foi apenas sua mochila que ameaçou cair, mas também seu queixo.
Aika. Fuwa Aika. De todas as pessoas do mundo que podia encontrar em qualquer lugar daquela cidade, tinha que ser ela e ali.
Antes que percebesse, o sorriso que viu no rosto alheio foi imitado. Não havia nada que pudesse fazer além de sorrir e foi a única coisa que fez por longos segundos. Não encontrava sua voz para falar.
Quando, por fim, conseguiu se recompor do choque inicial, respirou fundo e limpou a garganta antes de dar mais alguns passos para frente, se aproximado ainda mais da japonesa. Ela estava mais linda do que nunca e seus olhos não desviaram dela nenhum segundo. Apesar de mais madura, a mulher em sua frente ainda era a garota por quem havia se apaixonado perdidamente na adolescência e foi inevitável que uma chuva de lembranças tomasse conta de sua mente naquele instante, em poucos segundos, de forma tão rápida que lhe deitou tonto.
“Já te disseram que você toca muito bem?” Foi a primeira coisa que disse, em um tom levemente divertido. Estava nervoso. Haviam milhares de coisas que queria dizer, mas nenhuma delas parecia certa, nenhuma parecida apropriada para o momento. Sua falta de habilidade com as palavras continuava a mesma de sempre e nunca se detestou tanto por isso. Quanto tempo havia se passado desde a última vez que se falaram? Sequer conseguia lembrar. Mas agora que a tinha em sua frente, o tempo passado parecia não importar mais. “Quanto tempo, Ai-chan!” Chamou-a pelo antigo apelido, mesmo sem ter certeza se ainda tinha direito de chamá-la assim. Parecia estranho e errado fazer diferente.
Honestamente, ouvir seu apelido naquela voz era algo que ela não esperava nunca mais. Tanto tinha acontecido no Ensino Médio entre os dois que a reaproximação parecia impossível. Não cortaram as relações de fato, mas em algum ponto, para se proteger, Aika sumiu. Afundou-se em estudos, em compromissos, em trabalho, no que ela pudesse se afundar, apenas para fugir de todo o resto. Funcionou. Se era possível, ela se tornou alguém ainda mais responsável e confiável em seus compromissos, sua imagem de idol jamais tinha sido manchada. Tivera uma carreira relativamente longa e frutífera e hoje em dia, embora a fama lhe faltasse sem fazer falta alguma, ela ainda era chamada para um ou outro trabalho como modelo. Alguns, ela aceitava. Mas Kou tinha sido meio que enterrado em seu passado, afogado em seriedade e trabalho. De novo.
Aika nunca se considerou uma boa pessoa e, depois da adolescência, passou a assumir a imagem de má com a qual ficara marcada na escola e entre amigos antigos. Mas bem dizem os mais velhos que o tempo cura tudo e agora, ela podia ver Kou pensando que todas essas coisas eram passado. Tudo tinha ficado para trás. E de repente entendeu a questão que fazia seu coração palpitar e seu estômago ficar indeciso se estava leve ou enjoado: o próprio Kou não estava mais no passado, estava bem ali, ao alcance do toque dela, no presente. Aquilo quase a colocava em curto-circuito, ao mesmo tempo em que a paz que tinha alcançado na sua vida adulta a impedia de qualquer sentimento. Ainda era a robótica Aika de sempre e aumentou o sorriso quando percebeu isso.
“Eu tive boas inspirações pra aprender a tocar o instrumento. ” Nada tinha mudado nele. Era exatamente o tipo de comentário elogioso que ela esperaria dele, sem tirar nem por. “Quer um café por minha conta ou está ocupado?” Parecia inadequado oferecer aquilo, mas parecia um erro maior ainda deixar a chance escapar.














