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Dead Lamb by Kristina Kikhno
Lesser Ury - "Nollendorf Platz, Berlin" (1922)
Amar
Quando digo que lhe amo,
Não estou dizendo
Por amar.
Estou dizendo por querer,
Pela força que canto
Amar tanto ao ponto de doer,
Sofrer, desmoronar, temer…
Que vá embora
Em algum dia aleatório,
Não me esperando.
Eu lhe amo
E escrevo poesia.
Eu lhe amo
E danço no luar
Embaixo de um mar.
Eu lhe amo, pois não sei colocar
Em palavras,
Mesmo depois das tuas palhaçadas,
Afogo minhas mágoas
Nas letras embaralhadas.
Pelo quase
Se fez inerente,
Teus dedos ásperos
Crava minha mandíbula
Mutilando-a.
Queima a minha pele
Fazendo-me chorar.
Só penso em gritar,
Queimar, jorrar,
Morrer.
Eu lhe amo,
Por um sentimento nobre,
Pelas flores que caem
Da rosa do deserto
Plantada em minha casa.
Faça calma a morada,
Pare com esta turbulência
Em minha mente.
O silêncio grita mais alto
Que minha boca aberta.
Eu lhe amo,
Mas cansei de esperar
Teu retorno tão tardio.
Não fui feito para isso,
Não fui feito para nada.
Eu lhe amo,
Ao ponto de passar por lugares
E encontrar nela
Uma parte que me lembre você,
Como a árvore no fundo do meu colégio.
Eu lhe amo
Pois sou um ser vivo
A busca de alguém
Para cuidar de mim
Assim como cuido de ti.
Eu lhe amo
E caio nessa maré funda,
Onde teu braço não alcança
E não tenho forças
Para levantar o meu.
Eu lhe amei
Até um pouco mais que deveria,
Amei-o muito além que poderia
Sem pedir nada em troca.
Eu tive tudo para te dar.
Estimei teu corpo,
Principalmente vi ele
Por tua alma.
Achava bela,
Agora é indelicada.
Eu lhe amei
No passado, presente.
Eu tropecei, cantei
Até a garganta falhar,
Incondicionalmente.
Eu lhe amo…
Diga isso mais vezes.
Deixe meu peito transbordar
Da alegria de me amar
Sem ter de ajoelhar.
Porra, como eu te amo!
É tão difícil ver
O que faço para te ter,
Sem ter que arrancar
Partes e mais partes de mim?
Eu carreguei um peso
Tão grande e majestoso
Quanto meu amor,
E eu vivi com ele
Até me matar por completo.
𝖜𝖊 𝖑𝖔𝖛𝖊𝖉 𝖎𝖓 𝖙𝖍𝖊 𝖑𝖆𝖓𝖌𝖚𝖆𝖌𝖊 𝖔𝖋 𝖌𝖍𝖔𝖘𝖙𝖘
Aurora em Colapso
Eu existia pela simplicidade
Desmoronando a toques
Construindo paredes
Em volta da minha existência
Perdido em desvanecidos
Como quem não pede licença
Entrou pela porta da frente
Invadindo como uma brisa matinal
Trazendo consigo um campo inteiro
Verde, vivo, florescendo em mim
Dentro de ti mora um rio
Uma aurora em colapso
Esta beleza desorganizada
Desaguando na pureza
De um caos em manto sagrado
Há em ti uma galáxia quieta
Pulsando mesmo à distância
Em teus fins de Andrômeda
Fazendo-me desejar ser uma estrela
Apenas para lhe alcançar
Teus olhos castanhos e cálidos
São de outono,
Carregam sóis de um mar âmbar
Eles sorriem e o mundo para
Lembrando-me do que é existir
Tua pele, teu corpo, teus dedos
Como se o toque tivesse sido inventado
Para lhe agradar
A luz dança em teus cabelos
Como num pôr do sol de praia
Abrigando o mel
Pintando obras de arte
Incendiando um infinito
Em razão de crer na vida
Exaltando o belo
Quando andastes
Acenderás esquinas
Seguindo como paladar
Na esperança de um dia
Ser o abrigo da aurora de tua alma
Quero descansar na pele
Silenciando as dores
Agraciando teu corpo
Não por um desejo carnal
Mas pela arte de existir em teu abrigo
Teu nome ecoa em meu peito
Tão belo, tão veneno
Faz brotar em mim aquilo que o mundo matou
Há um crepúsculo na sala quando sorris
Um universo em desalinho
Navego-te em silêncio,
Temendo profanar
Tua presença é o véu
Entre o caos e a calmaria, teu corpo
A epifania das formas que os deuses invejam
Se um dia partires novamente
Costurarei lembranças
A custo de amar-te
Onde flores nascem mesmo no inverno
Ligando ao sagrado profano
"𝓑𝓮 𝓽𝓱𝓮 𝓵𝓲𝓰𝓱𝓽"
The Water Sprite (circa 1892)
— by Theodor Kittelsen
"The days go by but the sheer pain in me never subsides."