Capitulo 1
Antes de o sol raiar, tomando todo cuidado para não acordar ninguém, Arryn já havia pulado da cama, tomado o seu café e esperava ansioso o abrir dos portões, duas enormes placas de metal azul com quase quinze centímetros de espessura onde dois guerreiros de armadura e escudo apareciam talhados na face externa, a única entrada e saída da grande muralha que circundava o orfanato e que, durante anos, o impedira de seguir seus objetivos, sua perna direita tremia inquieta ao aguardo do seu tão esperado dia.
Com exceção das suas fugas ocasionais, onde ele era sempre recapturado por um dos batedores, essa seria a primeira vez que sairia do orfanato, pelo menos com permissão. Ele acabara de completar quatorze anos e finalmente iria realizar seu sonho, partir e oferecer o seu serviço a uma das nações como caçador de bestas.
As crianças que perderam seus pais para os monstros ou para qualquer outra calamidade daquele mundo caótico, eram trazidas até o orfanato, um enorme castelo que datava, misteriosamente, de desde antes da chegada dos homens a ilha. Com vastos campos que serviam de escola e abrigo, os órfãos só eram forçados a ficar até que completassem quatorze anos, nesse momento teriam duas escolhas, ficar e se profissionalizar em uma das artes ou ofícios que eram ensinadas por lá, com variações que iam desde a culinária até técnicas de combate, ou partir.
A maioria das crianças ficava por lá, não existe exatamente muita coisa do lado de fora hoje em dia, principalmente para quem já perdeu tudo, e lá dentro pelo menos eles estariam seguros. É por isso que, para a maioria das pessoas, era estranho ver aquele jovem garoto com tanta pressa de se desfazer do que seria seu único lugar no mundo. Arryn tinha os olhos dourados, cabelos pretos, usava uma faixa branca amarrada na testa, não tinha mais que um metro e sessenta de altura, suas vestes, simples, eram uma camisa amarela clara com um casaco de pano branco por cima, uma bermuda preta até o joelho, tornozeleiras e uma sandália de dedo.
Juliver foi o próximo a se levantar, ele era um homem alto e magro, de cor pálida, olhos e cabelos esverdeados, com uma pequena cicatriz na sobrancelha, vestia um traje marrom amarrado com uma corda grossa na cintura, que para Arryn se assemelhava muito a um saco de batatas, mas era um traje típico por ali, todos os cuidadores o usavam com orgulho e servia para mostrar desapego aos bens materiais. Ainda bocejando ele olhou para Arryn, que estava com semblante sério e com seus olhos fixos no portão, sentado no chão com as pernas na posição de lótus se balançava inquietante para frente e para trás. Juliver sorriu com um canto da boca e perguntou.
– Então é hoje, não vai mesmo desistir dessa ideia maluca de ir embora e se tornar comida de monstro?
– Você sabe que não, isso aqui não é pra mim, não vou deixar meus objetivos para trás, não quero ficar preso aqui para sempre. – Arryn respondeu sorrindo e franzindo a testa enquanto apontava para Juliver com um ar confiante, mas sem deixar de mirar a porta por um momento sequer.
– Bem, a vida é sua, por mais que seja uma pena perder um aluno e amigo com seus talentos, já sei que é impossível manter um moleque teimoso e autodestrutivo como você aqui, se não amarrado! – Disse Juliver enquanto virava o rosto em sinal de reprovação.
Nesse instante os portões se abrem, Arryn se levanta calma e confiantemente e desaparece por entre eles com uma mão levantada em sinal de despedida para seu grande, e talvez único, amigo. Apesar das palavras anteriormente ditas, Juliver não conseguia esconder sua preocupação e raiva da situação, seu rosto sempre muito pálido agora se encontrava corado e seus dentes cerrados mal podiam segurar tudo que ficou por ser dito, sentia que perdia a chance de se despedir pela ultima vez de seu querido amigo.
– Se pelo menos nunca tivesse lhe falado do mundo lá fora, se pelo menos nunca tivesse lhe contado tantas historias. – Juliver murmurava se culpando em palavras quase inaudíveis enquanto se recolhia vagarosa e depressivamente de volta aos seus aposentos.

















