O quarto secreto estava uma bagunça, tudo que antes estava em cima da mesa estava agora no chão. Livros, frascos quebrados, pergaminhos, cadernos, não se importou com nada, jogou tudo no chão de uma vez e repousou o corpo de sua bruxa na mesa. Dimitri tremia enquanto observava seu corpo inerte, sabia que uma das etapas para se transformar em um vampiro era a morte, mas não conseguia olhar para ela daquele jeito. A roupa de ambos estava pingando a sangue e precisava se livrar logo de tudo aquilo, quando ela acordasse não queria que ela visse nada daquilo. Ainda queria torturar o assassino dela, mas o mais importante era cuidar de Alithea, então respirou fundo antes de fazer, no automático, tudo para tornar aquilo menos traumático.
Sabia que tinha tempo o bastante para ir pegar várias bolsas de sangue para ela, tomar um banho, trocar as próprias roupas e conseguir uma nova muda de roupas para ela; mesmo assim, não hesitou em usar a velocidade vampira mais uma vez, só para garantir que estaria lá quando ela acordasse. O suprimento de sangue foi armazenado em uma bolsa térmica que deixou no canto do quarto, então tirou as roupas de Alithea e fez o melhor que pôde para tirar o sangue de seu corpo com uma toalha e água quente. Havia pego o primeiro vestido que encontrou em seu armário e o colocou com facilidade em seu corpo. Estava tentando a todo custo não pensar muito sobre o que fazia, ou corria risco de voltar a ficar descontrolado. Como ela não acordava, entretanto, ocupou a mente com a arrumação do quarto: colocou os livros em um lugar, recolheu todo o vidro espalhado no chão, os pergaminhos, tudo. O lugar ficou mais organizado do que estava antes e mesmo assim, Ali não acordou.
Começou a sufocar naquele lugar. E se ela não acordasse? E se precisasse de mais alguma etapa para se tornar um híbrido? Ele nunca tinha ouvido falar sobre isso, mas e se? Sua cabeça parecia que ia explodir quando deixou o corpo cair sobre a cadeira ao lado da mesa, precisava dela viva, aquilo não podia acabar daquele jeito. “Volte pra mim, Ali” sussurou, como um pedido, ao fechar os olhos e apoiar a testa na mesa, passando a mão pelo cabelo escuro da bruxa, ficaria naquele lugar até ela acordar.
Vazio. Era tudo o que havia. Ao seu redor, dentro dela. Era seus sentidos, seus pensamentos; restava apenas o escuro e confusão. Tentou olhar para baixo, para as próprias mãos, buscando comprovar que estava inteira. Mas, novamente, encontrou o nada. Onde ela estava? O que tinha acontecido? Aquilo era o limbo? Não tinha som, cheiro, cor. Talvez ela estivesse cega, ou seria apenas a falta de luz no local a desnorteando? Com certo esforço parecia puxar um frágil fio de memórias dentro da sua mente. O som dos tiros, a poça de sangue, a falta de ar. E, por falar em ar, ela estava respirando? Não parecia. A bruxa tentou puxar o oxigênio em uma grande golfada, mas não obteve sucesso. Nem mesmo sabia se podia respirar naquele lugar. Sentia-se sufocada, presa; a escuridão ao se redor a envolvia em paredes sem fim, crescendo sobre o que quer que fosse que ainda restava de Alithea, envolvendo-a e puxando mais longe. Mais uma tentativa falha de respirar, já sentia tudo desmoronando ao seu redor, aquele era seu fim. O vácuo a consumia rapidamente, em breve restaria apenas o vazio. Se ela pudesse, estenderia os braços buscando arranhar e lutar seu caminho para longe, mas não era o caso.
Até que, como um milagre, um foco de luz surgiu, abrindo caminho em meio ao manto de trevas que a sufocava. Não sabia como, mas usava todas as suas forças para ir até ele. Lutava com todas as suas forças com algo que não era corpóreo, como poderia ganhar? Estava cada vez mais fraca, porém nunca se daria por vencida. Sua força de vontade feroz era a única coisa que a separava do fim. “Não”, ela pensava. “Eu nunca fui feita para morrer”. Foi a última coisa que passou por sua mente, quando, por algum milagre, notou suas mãos voltando a se estenderem até o clarão etéreo que ali pairava. Devia estar fazendo algo certo, via seu corpo retomar forma, lutando contra a penumbra que insistia em puxá-la e arrastá-la num conflito que parecia eterna.
Não tinha mais fôlego para nada. Tudo ficou mais desesperador quando retomou seu corpo naquele lugar maldito e abandonado. Agarrava a própria garganta em busca de ar, a visão já se turvava, o que antes era um clarão nítido passou a ser uma enorme orbe de luz desfocada. O silêncio cortante foi quebrado em um único momento, quando a garota ouvira sussurros que clamavam “volte pra mim”.
Mas ela lutou até o fim. E, finalmente, quando as pontas de seus dedos tocaram o tão almejado fulgor, eletricidade percorreu cada fibra de seu corpo. Ela não iria a lugar algum. Algo inexplicável aconteceu ali. Sentia cada célula, cada suspiro, cada emoção, cada parte do universo em si, pulsando e a puxando de volta para onde pertencia. Dor, êxtase, tristeza, vida e morte. Fechou os olhos, sendo engolida por aquele clarão formado pela mais pura magia que já sentira, e, finalmente, respirou.
Após alguns breves momentos, sentiu a superfície sólida da mesa abaixo de si. Levantou-se subitamente, de olhos arregalados, com os pulmões tumultuados, reaprendendo a respirar. Era quase como se... Eles não precisassem? Como se a ideia de hiperventilar depois do susto que levara fosse apenas isso, uma ideia. Não sentia a real necessidade de fazê-lo. O que estava acontecendo?
Olhou para si mesma. Já não estava embebida em sangue e roupas sujas como antes, tinha apenas alguns resquícios do líquido carmesim em sua pele, e usava um de seus vestidos leves de seda. Sua visão já não era mais turva e fraca, estava acurada, nítida. Tinha quase certeza de que podia ver com facilidade através da sala toda, e ouvir as discretas batidas de um coração, lento, quase inexistentes. Foi quando o cheiro de Dimitri e de sangue a golpeou como um soco nas narinas. Chegou a ficar um pouco tonta com a intensidade das novas coisas que sentia. Focou sua visão na face do namorado, tomada por uma expressão que nunca vira antes. Apenas sorriu a ele, um sorriso de iguais partes eufóricas e ferinas. “Sentiu minha falta?”
Ao falar, percebeu que não era o ar que lhe fazia falta, mas sim líquido. Sua garganta raspava, a boca estava tomada pela secura de mil desertos. Os lábios rachados a incomodavam. Mas não era de água que precisava, era de sangue. Algo muito parecido com adrenalina corria por suas veias, estava renovada, forte, atenta, eufórica. Com um pulo saiu da mesa, ficando em pé ao lado do namorado. Ouviu o tilintar característico de metal atingindo o chão - as balas, ou melhor, os estilhaços delas, que antes se agarravam com tanta intenção às entranhas da bruxa. Como um passe de mágica, seu corpo decidiu que não eram mais bem-vindas ali, e as expeliu. A morena levantou a barra de seu vestido até o peito, analisando seu corpo, como se checasse os danos. Nada. Nem mesmo um arranhão. A pele continuava tão lisa e imaculada como antes, talvez até mais. Tocou os locais em que fora atingida para ter certeza de que não estava imaginando coisas, e apesar da enorme sensibilidade ao toque, comprovou o estado perfeito em que seu corpo estava. Nenhum ferimento, dor, mancha ou contusão a vista.
Soltou o vestido, que voltou a cair até seus joelhos, e com um sorriso largo pulou em direção ao outro. Aparentemente tinha mais força do que se lembrava, pois o impulso fora grande, fazendo com que cambaleassem para trás enquanto Ali rodeava o namorado com seus braços e pernas. Não disse nada, apenas mergulhou em direção ao seu rosto, selando seus lábios no beijo mais intenso que já tivera em sua vida toda. Ao seu fim, fitou os olhos alheios. “Você conseguiu. Me salvar. Eu te amo”. Disse, soltando-o, novamente sendo guiada por seus sentidos, o cheiro de sangue era a única coisa que tomava sua atenção.
Correu em uma velocidade que pensava ser impossível atingir até o lado oposto do quarto, em um fragmento de segundo estava revirando a caixa que tanto a chamava. Uma pequena pilha de bolsas recheadas de sangue a esperava. “Você realmente pensou em tudo, meu amor”. Disse, rindo, sentindo algo que nunca experienciara. Uma pequena pontada a atingiu na boca, seguida de dor. Nada excruciante, mas ainda assim soltou uma pequena lamúria, levando as pontas dos dedos até o local. Sentiu algo afiado. Suas presas brotaram com facilidade e rapidez, quase como se fossem destinadas a estar ali desde sempre. E, como um instinto, Alithea sabia exatamente o que precisava fazer. Com um golpe rápido furou uma das bolsas que ali havia, cravando-a os novos caninos pontudos sem dificuldade. Em segundos todo o seu conteúdo fora devorado. Não tinha o gosto que esperava, provavelmente por não ser algo fresco, mas saciou a sede copiosa que a tomara por alguns momentos. Mas sempre queria mais. Repetiu o processo por mais três ou quatro vezes, até que restasse apenas uma bolsa de sangue dentro da caixa. Ao fim de seu frenesi, Ali ergueu a cabeça em direção ao namorado. Algumas gotas de sangue escorreram, percorrendo o caminho até seu pescoço. A híbrida não deixaria nenhum resquício de seu precioso alimento sobrando. Ergueu o rosto, capturando o pequeno filete rubro e limpando seu queixo. Lambeu a ponta do dedo ensanguentado como quem termina a mais fabulosa das refeições, e, de fato, havia aproveitado um banquete. “Desculpe, onde estão meus modos? Eu morri, não sofri uma lobotomia. Você quer?” Inquiriu, apontando para a última bolsa, as presas ainda de fora, distorcendo um pouco o sorriso que habitava sua face.