well, I do this often|| cheshire and the march hare
Ao longe, Cheshire podia escutar sua amiga de longa data conversando com sua prataria e porcelanas. Perguntou-se por quanto tempo tal conversa duraria, para que logo Lebre começasse a quebrar as xícaras e tudo que encontrasse sob a mesa do chá. É claro que ele não poderia ignorar tal fato, além de que, era realmente hora do chá. E por mais que faltasse muitas vezes nas reuniões, Cheshire encontrava-se em um ótimo humor para ir atrás da Lebre e tomar o chá da tarde. Talvez, porque tinha o leve pressentimento de que não seria uma tarde excepcionalmente normal, e o gato fazia de tudo para se livrar do tédio, indo em buscar do que pudesse lhe proporcionar maior prazer e/ou diversão. Admitindo para si mesmo, sabia que gostava da metamorfa com toda a sua loucura e sentia, além de tudo, um interesse muito grande por ela justamente por isso. A Lebre era uma pessoa forte para resistir as torturas de Elizabeth, não seria qualquer um que sairia somente com um trauma do castelo. No entanto, jamais diria tais coisas em voz alta, uma vez que prezava sua reputação de egoísta e que apenas ligava para si próprio. Por muito mais, não tardou para se materializar em uma das cadeiras de madeira que existia ali. Usando uma máscara humana, sua forma masculina segurou uma das xícaras de porcelana e pegou o bule colocando um fundinho do chá feito pela Lebre.
A menina parecia completamente alheia a presença do gato que se materializara ao lado dela, imersa em seus pensamentos conversando animadamente com seus talheres. Observou-lhe segurando uma risada enquanto dava um gole no chá de procedência desconhecida, mas que possuía uma gosto até que não tão ruim. Também não podia deixar de pensar que não gostava da aparência desvairada da Lebre. Muito pelo contrário, os cabelos despenteados, os olhos arregalados e frenéticos e o sorriso dissimulado eram de fato atraentes, de uma maneira completamente diferente para Cheshire. Interessante, seria a palavra certa, mas não a palavra suficiente. Gostava, porém, do que via na morena que gesticulava como se estivesse em uma conversa muito animada. Ele colocou a xícara de volta no pires para encará-la, e finalmente mostrar que estava ali aquele tempo todo e só ela não percebera. - Acho que ela está apaixonada por você, Mary. - Zombou da jovem que falava com sua porcelana, e no segundo seguinte, começou a rir de maneira extremamente cínica, como apenas o gato de Cheshire o fazia. - Mas detesto ter que lhe dizer que ela jamais vai ser como eu. - Disse piscando com um olho, de maneira divertida. O flerte fora apenas uma maneira de brincar com a criatura, uma vez que ela parecia demasiada concentrada em suas porcelanas. Além do fato de que, Cheshire e Lebre poderiam ser uma dupla dinâmica caso decidissem trabalhar juntos, e porque não espalhar o caos com sua amiga de longa data? Isso é claro, se não começassem a discutir no meio do caminho, como quase sempre acontecia com os dois.
Alguns minutos se passaram enquanto Lebre olhava fixamente ao pequeno bule em suas mãos, como se fosse uma figura totalmente nova a sua vista, que por vez derramava chá em uma xícara com o fundo quebrado, que segurava com a mão livre, e fazia todo o líquido morno cair em umas das poucas xícaras em perfeito estado, se não a única.Estava tão concentrada no objeto frágil em suas mãos, que, ao ouviu a conhecida voz aveludada e preguiçosa ao seu lado a fez dar um pulo, perdendo os objetos finos das mãos que estilhaçaram no chão. -Cheshire- disse em um sussurro quase não audível, de olhos assustados e arregalados que não encaravam criatura ao seu lado, enquanto se controlava para não morder a língua como quando fazia estando nervosa, e logo se perguntando a quanto tempo estava sendo observada por aquela criatura. Assim que percebeu sua presença ali, pela sua fala, não o olhou por nenhum segundo, sabendo que o reconheceria pelo jeito de respirar. -Ninguém nunca te falou que não é educado sentar-se onde não fora convidado?- comentou, finalmente olhando para o gato, menino para se mais preciso, e sentindo sua raiva se evaporando de seu corpo aos poucos, mas ainda insistido no comentário mesmo sabendo que o mesmo não precisava dessas formalidades, não com a Lebre, pelo menos. Provavelmente alguém já havia falado isso a Cheshire, e provavelmente havia sido a própria Mary, incontáveis vezes, ora, desde que se conheceram ela tinha certeza que havia repassado regras tolas de etiqueta que a mesma desprezava, não esperava que lembrasse de todas e quantas vezes havia as repetidas afinal fazia tanto tempo que conhecia o gato, antes mesmo de ser resgatada pela corte branca, quando vagava por ai bem mais louca do que é, descontrolada, e com faixas presas a cabeça. Por que, pela santa Árvore eu andava com aquelas faixas? E por que sempre aquelas folhas ficavam presas no esparadrapo? Mary pensou, razões médicas, talvez, mas onde queria chegar era que os dois se conheciam a tempo, que mesmo assim, havia demasiadas coisas que não entendia sobre Cheshire, que a fazia ficar curiosa e inquieta, sempre tendo a ousadia de perguntar mas nunca tendo uma resposta clara, sempre aquelas falas vagas que Mary nunca gostou.
-Você acha é?- peguntou primeiramente irônica, mas alguns segundos depois sua face expressava duvida e a criatura realmente pensava se o bule, agora estilhaçado no chão sentia alguma coisa a mais por ela - Ora, não seja bobo, ele não está, conheço ele. E Não importa mais- falou em alto e bom som sua decisão, fixando seu olhar no garoto por alguns segundos e logo se esticou para pegar uma torrada, derrubando tudo entre elas. Mary olhou para os estilhaços no chão sussurrando para a peça -É claro que importa, agora quieto, ou não te colarei- duvidando muito que Cheshire não estivesse escutado, mas não ligava. -Não? Sorte - comentou acompanhando o riso do menino, e ignorando totalmente o flerte-brincadeira como forma de proteção psicológica; tanto de ficar embaraçada e corar, tanto de perceber que na verdade Ches estava tirando uma com sua cara e logo pular em seu pescoço com qualquer objeto cortante. Normalmente o gato vazia essas coisas, ele tinha, uma especial habilidade de deixar Mary brava, por que a garota podia ser violenta até com um filhote de cachorro que a trazia tortas de morango e massageava seu pés, mas brava, essa sensação só chegava quando a Corte Vermelha vinha a tona, e bem, Cheshire. Ultrajante comparar o gato aquele lugar, sendo que os dois eram amigos, e para ser sincera Mary gostava dele, admitiria isso sem problema nenhum, mas as vezes se via tão enrolada em seus dedos manipuladores e sabia que era só mais uma peça de seu grande jogo, que por vezes a irritava, e por outras Mary apenas esquecia disso. Nunca foi uma relação estável de qualquer maneira, em uma hora estavam rindo justos e dando pequenos tapinhas em suas costas, outras estavam brigando como cachorros enfurecidos (no caso da menina, é claro), e em dias especiais estavam rindo e brigando.
-Me diga, que dia bateu a cabeça para resolver aparecer por aqui?- deu um pequeno gole seu chá que segurava com as duas mão tremulas, escondendo o sorriso - E não tenho muita certeza do que você está bebendo é... confiável- Mary parou de falar para tentar pegar a bebida do amigo e cheirar, tendo uma certa duvida em que tipo de chá que era deu um gole minimo -Oh, esta tudo bem, pode beber esse- comentou aliviada, nem todos os condimentos que repousavam naquela mesa eram novos, ou não nocivos, por que Mary tinha isso era uma ótima pergunta, até para ela -Mas se você quiser ainda tenho suco de laranja quente. Estranhamente delicioso e segunda bebida quente favorita.- Completou finalmente terminando sua torrada, ainda não satisfeita.

















