Você já viu um passarinho com as asas cortadas? Eh, ele não pode voar... Ah, ele sabe que nasceu pra isso, que o céu é o seu destino cruel e inalcançável... Fica imóvel no seu ninho frio e úmido, o peito apertado de uma dor que corrói por dentro... E aí ele olha pra cima, com os olhos marejados de lágrimas que nunca caem, e vê tantos outros pássaros como ele voando livres, dançando no vento com uma graça que o esmaga... Mas ele não pode... Ele não consegue! Por mais que ele queira, com uma ânsia que queima como fogo vivo; por mais que ele almeje, sonhando acordado com o azul infinito; por mais que ele tente, debatendo-se em agonia até sangrar as penas remanescentes, não pode, ele não consegue sair... Eu me sinto assim, exatamente assim... Com as asas cortadas, mutiladas pela vida impiedosa, latejando em feridas que nunca cicatrizam... O pior é saber que essas asas podem nunca crescer de novo, que o voo é um sonho roubado para sempre, uma prisão eterna disfarçada de ninho... E aí, o melhor que eu tenho a fazer pra evitar esse sofrimento lancinante, essa dor que devora a alma pedaço por pedaço, é... Esquecer que poderia voar... Não olhar mais pro céu, que agora só me fere com sua beleza distante; não desejar ser livre, pra não enlouquecer no vazio absoluto da esperança morta...














