Lidando com as frustrações
Como é difícil não criar expectativas diante do que estamos vivendo! Aliás, isso é impossível. Qual a melhor forma, então, de lidar com as expectativas? Ou melhor, sendo mais específica, como lidar com as expectativas frustradas? Porque, a respeito daquelas correspondidas, Provérbios já nos discerniu:
“A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida” (13:12)
A resposta para essa pergunta me ocorreu em meio a algo inusitado. É o que pretendo compartilhar.
No Diário de uma Recém Casada: 12 lições do 1º ano, relatei que, no mês em que completaríamos 9 meses de casados (e comemoraríamos Bodas de Maternidade), eu descobri uma gestação.
Como sou muito observadora e detalhista, pude notar mudanças em meu corpo e suspeitar da gravidez antes mesmo do atraso menstrual. Assim, 6 dias antes da data prevista para minha menstruação, eu já sabia que um filho estaria por vir. Tentei conter minha ansiedade com a notícia para preparar uma surpresa pra meu marido; não consegui. 5 minutos depois de ter lido o positivo, contei-lhe ainda trêmula e chorosa! Aí veio a primeira grande frustação para meu esposo: ele sempre sonhou em receber uma notícia como essa de um jeito especial e, por minha causa, essa agora era uma expectativa frustrada.
Bom, aprendi logo de cara que, por mais ansiosa que eu esteja, não posso acrescentar um côvado sequer à minha vida (Mateus 6:27). Digo isso porque descobrir muito antes só me fez ter que aguardar semanas para o primeiro exame; e mais semanas para o segundo exame que me confirmaria um aborto retido. A essa altura, já havíamos compartilhado a notícia com a família e com alguns poucos amigos... E aí veio a segunda grande frustração: não havia embrião e, portanto, não haveria um bebê, logo eu tampouco seria mãe.
Alguns ainda perguntam o motivo do aborto, eu precisei me contentar com a explicação da médica: “é muito comum abortos na primeira gestação; 25% das mulheres sofrem disso. Na próxima tentativa, dá certo”.
Três meses depois, um cenário muito parecido: mudanças no corpo, cansaço excessivo e, mais uma vez, antes do atraso menstrual, descobri uma nova gestação! Guardei segredo o mais que pude (para, dessa vez, planejar uma surpresa para meu esposo!), contive a ansiedade para fazer o teste... Mas um sangramento aparentemente incomum me fez, mais uma vez, frustrar meu esposo, contando-lhe a notícia de um jeito nada especial (que ao invés de produzir-lhe alegria, lhe transmitiu preocupação).
Foi, então, que percebi o quanto eu estava apreensiva com essa gestação. A experiência anterior me havia gerado um certo temor. Optamos por guardar segredo, inclusive, dos amigos próximos. Parei de fazer planos e de sonhar com o quarto do bebê, com seu sexo, com seu nome... Decidi somente curtir a gestação quando tivesse certeza de que “daria certo”, de que não “perderia meu tempo”, de que não teria que lidar com frustrações.
Enquanto estava nessa vibe, testemunhei histórias curiosas. Uma irmãzinha tão querida descobriu com seis meses de gestação que seu filho não viveria mais que 5 minutos e, ainda assim, ela precisou encarar o fim da gestação e o parto de um filho que nunca teria nos braços. Uma outra irmã, também preciosa, pariu um bebê lindo e o perdeu com 9 dias de nascido. O Senhor também me fez lembrar de outra moça que há alguns anos perdeu um filho amado com cinco aninhos de vida.
O que fazer, então, se tudo pode “dar errado” a qualquer momento?
Uma gestação pode se encerrar no primeiro ou no último mês, a vida de um filho pode ser tomada na infância ou na juventude, aliás, é possível que nunca chegue um filho... Assim como um casamento pode não chegar nunca, o emprego tão esperado pode não chegar também, aquela viagem dos sonhos pode nunca acontecer, a casa própria pode ser para sempre “meta para este ano”... Enfim! Tudo pode acontecer, inclusive, nada! O que fazemos, então, diante disso?
Nesta gestação, o medo de “dar errado” me paralisou até que eu percebi que o futuro não está em minhas mãos; o presente, sim. “Basta a cada dia o seu próprio mal”, nos ensinou Jesus. O que virá virá das mãos do Senhor, mas o que eu tenho hoje é o que ele já me deu pra viver hoje. Percebi que precisava trocar a apreensão por gratidão e o medo por oração! Entendi que tudo bem eu me alegrar com um embrião no ventre ainda que eu não saiba por quanto tempo ele estará lá.
Essa nova perspectiva coincidiu com a primeira ultrassom, que, diferentemente de como aconteceu na primeira gestação, nos mostrou um embrião pequenino, com batimentos cardíacos! Que alegria! Como vibramos com essa notícia! Que alívio ouvir e ver que Deus decidiu dar vida àquele serzinho.
Pronto! Uma notícia como essa era o que eu precisava para impulsar algumas expectativas reprimidas: quarto de bebê (inclusive, já tenho uma pastinha no Pinterest, se quiser compartilho aqui!), possíveis nomes, roupinhas, chá revelação, parto, rotina como mãe... Nossa! Há tanto que se pensar, sonhar, planejar, orar...
Três semanas passaram e uma nova consulta. Fui tão bem atendida! O médico me disse: “teus exames estão ótimos! As taxas, ok; tudo normal na primeira ultrassom também... Já vou te dar as guias para os exames do final deste trimestre!”. Eu, por segurança, lembrando da recomendação do último médico, pedi-lhe uma guia para uma ultrassom que pretendia fazer naquele mesmo dia.
Passaram minutos apenas para descobrirmos um novo aborto retido. Mais uma vez, um saco gestacional vazio... O pontinho que antes pulsava, agora, já nem mais existia ali. Naquele mesmo momento, ainda deitada na maca, ao invés de desespero, eu senti paz; ao invés de questionar “por que eu? Ou por que de novo?”, eu lembrei de uma vozinha no meu coração (que eu bem conheço!), há um mês, que dizia: “ainda não é o tempo”. A médica, claro, diante de uma situação, agora comprovadamente incomum e até agora inexplicável (dois abortos retidos diante de um quadro de saúde), sugeriu exames alternativos e uma busca mais aguçada por respostas. Eu, por outro lado, já tinha a resposta de que precisava, antes mesmo de ter feito qualquer pergunta.
Mais uma expectativa frustrada. E minha alma, como está? Consolada. Em paz. Amparada pela certeza de que meu Deus é o dono do tempo e da vida. Aprendi que uma expectativa frustrada é uma oportunidade de se sujeitar a Deus, de rever os planos e os desejos para realinhá-los à vontade de Deus (que é sempre boa, agradável, perfeita). Aprendi que Deus me deu vida para que eu a viva em abundância! Por isso, não posso paralisar ou me deixar abater pelo medo do “e se...” Jesus conquistou minha liberdade e eu posso decidir vive-la plenamente! Sou livre para sonhar, fazer planos, desejar... Tudo aos pés de Jesus! Aí, depois disso, é com Ele! E o “enquanto isso” é comigo!
Em resumo, o ponto é que uma expectativa atendida nos alegra, nos consola, nos recarrega as energias... As frustrações, por outro lado, podem nos levar a tristeza, amargura, ingratidão... SE não decidirmos olhar para Jesus e ser-lhe grato por tudo!
Eu posso ser grata por ter sido mãe por 6 semanas (nas duas gestações), por ter experienciado estar a maior parte do tempo com náuseas e com sono, por termos meu esposo e eu a oportunidade de conversar sobre vários temas importantes a respeito de criação de filhos... A gratidão é a melhor vacina contra a murmuração ou a amargura de alma. Essa é a receita.
Já ouvi tantas vezes “não oro por casamento pra não criar expectativas” ou “não quero nem imaginar como seria trabalhar naquele lugar pra não ficar ansiosa...” quando, na verdade, o segredo está em contar tudo pra Jesus (já dizia Aline, uma amiga muito amada lá de Itaberaba). A gente sonha, deseja e ora! A gente coloca tudo pra Jesus e espera. Mas espera vivendo intensamente. Espera caminhando. Espera desfrutando a paisagem. Espera se preparando. Se o cenário mudar, foi Deus quem mudou. Aí a gente agradece e segue em paz porque, afinal, Ele é o dono de nossa vida! E é assim que guardamos nosso coração nEle e para Ele.
Bom, eu, agora, estou aguardando mais uma expulsão natural (sangramento intenso à vista!), farei novos exames... Mas, acima de tudo, seguirei ancorada em Jesus porque um dia eu fui amada e atraída.