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A felicidade morava nas coisas pequenas no barro entre os dedos na chuva escorrendo pelo rosto e na terra firme sob os meus pés
Eu rodopiava sob o céu aberto enquanto ao fundo você gritava para eu sair da chuva antes que o resfriado me ensinasse limites
E mesmo ali na bronca disfarçada de cuidado havia amor
O cheiro do bolinho de chuva recém feito ocupava a casa inteira como se dissesse que existir também podia ser doce
Eu adormecia no sofá vencida pelo dia e acordava coberta por um gesto que nunca fez alarde
Havia um abraço quente quando o mundo parecia grande demais e eu pequena demais para ele
Havia sua mão estendendo a toalha quando eu esquecia porque você sempre lembrava por dois
E hoje quando penso no que é amor não lembro de promessas grandiosas lembro de chuva de açúcar e canela de cobertas silenciosas de cuidado atento
Gestos simples que sustentavam o universo
Temo não saber repetir essa delicadeza inteira esse amor que não fazia barulho mas fazia morada
Porque o amor mais puro não era dito
Era feito todos os dias nas pequenas coisas que me ensinaram o que é ser cuidado antes mesmo de entender o que era o mundo.
Desague.
Ontem, eu chorei.
Voltei para casa e me sentei na beira da cama como quem chega ao fim de si. Tirei os sapatos sem cuidado, desabotoei o sutiã como quem desarma a última defesa e desmoronei. Chorei sem pudor, até o nariz escorrer e manchar a blusa de seda comprada em promoção — ironia barata para um colapso caro. Chorei até a cabeça latejar, até o mundo embaçar e os lenços se acumularem no chão como provas de um crime que ninguém investigaria. Não foi um choro educado nem contido, foi o choro que rasga o corpo porque ficou tempo demais esperando.
Chorei por todos os dias em que estive ocupada demais, cansada demais, endurecida demais para sentir. Por todas as vezes em que me silenciei, me abandonei, me tratei como algo secundário. Meu Eu voltou em forma de espelho cruel quando os outros fizeram comigo exatamente o que eu já havia feito comigo mesma.
Chorei pelo que me foi arrancado, pelo que pedi e não veio, pelo que conquistei e entreguei em troca de migalhas, saindo vazia, gasta, exaurida. Há um ponto em que a linguagem falha e a única coisa possível é o choro.
Chorei pelas crianças largadas no meio do caminho: meninos abandonados pelos pais, meninas esquecidas pelas mães. Adultos que não sabem amar indo embora e chamando isso de destino.
Chorei porque tive um lindo menininho quando ainda me sentia una menina, porque fui mãe sem mapa, sem colo, sem saber. Porque quis meu pai de um jeito que doía no osso. Chorei porque feri e porque fui ferida. Porque a dor não aceita atalhos: ela precisa chegar ao fundo para acordar quem a carrega. Chorei porque era tarde demais e porque, paradoxalmente, era exatamente a hora.
Minha alma sabia o que eu fingia não saber, ela sempre soube. Foi um choro espiritual, daqueles que libertam e devastam no mesmo gesto. Entre soluços, senti algo se abrindo: uma fresta de liberdade, dolorosa, inegociável. Ontem, eu chorei por cada instante da minha vida. E nada disso foi em vão.
- Aquarius, 1998
Nunca pensei que fosse chegar a esse ponto. Nunca pensei que o limite fosse chegar nesse ponto. Nunca me imaginei nesse ponto. Nunca quis chegar nesse ponto.
Esse ponto que me define hoje, não sei se um dia não mais me definirá. Esse ponto, esse maldito ponto, tirou minha essência. Tirou tudo que me fazia sentir alegria. Tirou tudo que construí ao longo dos anos. Tirou minha paz. Tirou meu cuidado. Tirou a vontade de viver. Tirou meu dom.
Desse ponto, o que me resta é chorar, na tentativa de me livrar de tudo que me fez chegar a esse ponto.
Carta aberta para meu filho...
Existiu uma ruptura em mim, quando seu corpo começou a se formar dentro de minhas entranhas. As vezes me pego lembrando dos chutes que você me dava, das ânsias, das idas ao hospital e quantas e quantas vezes passei e suportei isso sozinha? Mesmo sem entender nada, aquela sensação de estar fazendo parte do segredo do universo foi aumentando, e quando vi seus pequenos olhos, seu corpinho minúsculo, seus dedinhos pequenos e sua boca um pouco parecida com a minha me dei conta que já não era mais uma menina. Precisei me reinventar, como te segurar no colo ? Como te alimentar ? Como lidar com a exaustão e a insegurança? Como lidar com o fato que o seu pai nunca nos quis ? Como ? Com o passar dos anos essas perguntas foram ficando para trás e em você encontrei motivos para comemorar, motivos para sorrir, para amar, para conquistar e acima de tudo lutar. Lutar por nós. Nunca mais me senti tão só. Nossas conversas são incríveis, você é um ser da natureza, inreverente, intuitivo, amante dos animais, caridoso, carinhoso e tudo em você me encanta. Não existe algo maior que meu amor por você. Vejo o quanto o universo foi misericordioso comigo, você é a melhor parte de mim. É a melhor parte de tudo o que há em mim, é meu coração batendo forte fora do meu peito, é o meu sonho materializado, é o homem que sempre quis, é o porto seguro que tanto precisava, era o motivo que eu queria, é o amor que buscava. Já não sou mais aquela menina boba, inconveniente, inconsequente, exagerada. Sempre que estou pronta para agir, penso primeiro em você. Paro pra pensar se sou a mãe que você precisa, a mulher que você admiraria, o seu porto seguro. As minhas melhores escolhas foi por você, para você e sempre há de ser assim. Antes do acaso, estarei lá por você. A vida me recompensou com o que há de melhor nesse mundo, e já não existe motivos suficientes que me faça querer desistir.
Flores de Capitu, 2024
NÃO QUERO SER MÃE E TUDO BEM EM DESTAQUE NO KINDLE DEAL BR
Não Quero Ser Mãe e Tudo Bem foi selecionado para a promoção Kindle Deal da Amazon Brasil e estará com preço especial de R$ 10,00 (de R$ 24,99) de hoje, 11/11, até 20/11.
Confesso que dá um quentinho no coração saber que existe interesse crescente neste tema que considero tão essencial. São tantas mulheres que se sentem julgadas, questionadas e invalidadas por decidir não ter filhos. Este livro é para elas, e para todos que acreditam que existem muitos caminhos possíveis para uma vida plena.
A obra nasceu da minha própria experiência e das conversas com dezenas de mulheres que escolheram conscientemente a não-maternidade. É um convite ao diálogo aberto sobre autonomia corporal, pressões sociais e o direito fundamental de sermos donas do nosso corpo e da nossa vontade.
Se você conhece alguém que precisa ouvir que sua escolha é válida, que não está sozinha, que não há nada de errado em trilhar um caminho diferente do esperado, esta promoção é uma oportunidade especial de compartilhar essa mensagem.
Porque não existe um único modelo de felicidade. E tudo bem.
Promoção exclusiva na Amazon Brasil até 20/11.
https://a.co/d/01VyIpM
#nãoquerosermãe #childfree #escolhasdevida #autonomiacorporal #kindledeals
A maternidade não é fácil.
Não é fácil trocar fraldas a cada 2/3/4 horas ou pior, trocar a roupa inteira pq está suja ou mijada. Não é fácil viver dias inteiros tentando consolar um choro inconsolável. Não é fácil acordar toda madrugada. Não é fácil ficar madrugadas em claro.
Não é fácil renunciar meu próprio ego a todo segundo pelo meu filho. Não é fácil doar muito além do meu limite e ter a certeza de que você está completamente vazia e esgotada, pra no próximo minuto você perceber que, na verdade, nunca esteve tão cheia e tão viva. É exaustivo, é cansativo, é frustrante.
Mas olhar só para o que é difícil talvez nos faça ver a maternidade como o vilão mesmo; sendo que, na verdade, a maternidade é algo transformador. Eu nunca estive tão sensível ao que o Senhor fala comigo. Eu nunca estive tão aos pés DEle quanto agora; eu nunca quis tanto derramar minhas lágrimas no peito de Jesus quanto agora. Pq eu sei que Ele entende, acolhe e me renova em meio ao meu cansaço.
Nem todos os dias são bons. A vida não é um roteiro de filme. Nem todo dia a expectativa vai ser a realidade. Nem todo dia eu vou sentir que venci; mas todo dia eu tenho a certeza de que estou, de pouco a pouco, morrendo para mim mesma para que meus filhos possam crescer, que eu estou cada vez mais perto de Deus.