Não tinha certeza se havia realmente acordado. Abriu os olhos, mas não via nada. As dores lhe atingiam em todos os cantos, na costela direita, na barriga, bem no interior da sua cabeça. Inferno, onde estava a luz daquele lugar?
“Amanda? Você está acordada?” ouviu a voz de Jamie lhe perguntar.
“Infelizmente”, conseguiu dizer. “Pode acender a luz, por favor, eu consigo lidar com os machucados.”
“Amanda, a luz está ligada”. Por algum motivo sua voz estava carregada de insegurança.
Então Amanda entendeu.
“Quando você caiu… Amanda… A pancada na sua cabeça foi muito forte, os médicos disseram…” Uma pausa. Com um susto, Amanda percebeu que ela segurava sua mão. “Eles disseram que não tem cura… Eu tentei falar com eles, mas não deu… Tentamos de tudo.”
Ela sabia dos riscos, sabia assim que entrou naquele trabalho. Sabia que seria uma missão perigosa, que poucos agentes voltavam da Rússia. Nem um pouco apavorada com seus pensamentos, Amanda percebeu que preferiria ter morrido.
Seus gritos desesperados ecoaram nos corredores do hospital e lágrimas copiosas escorreram pelo seu rosto.
Esse era seu novo mundo, um mundo que parecia sem possibilidades. A verdade é que sem aquele aperto em suas mãos e as palavras de coragem que viriam logo em seguida, não teria conseguido encontrar nenhuma vontade de adentrar aquele mundo que lhe parecia tão injusto.
Açafrão, pó de lua, trigo. Misturar os ingredientes com um pilão. Adicionar suco de pêssego. Sal, alho. Cozinhar em fogo baixo.
Sua cozinha cheirava a azedo. O odor da mistura foi o que a acordou de seu transe. Amanda encarou a panela… Pó de lua?, pensou. Tinha certeza de que nunca ouvira falar em tal ingrediente. Na verdade, toda a mistura em sua frente lhe era desconhecida. Também desconhecia o motivo pelo qual se levantara tão tarde da noite para preparar aquela receita ridiculamente fedorenta.
Era a terceira vez que isso lhe ocorria somente naquela semana.
Tudo começara no dia em que lhe aparecia na emergência aquele caso esquisito de uma mulher - Clarissa, lembrou - quase completamente sem sangue. O engraçado era a total falta de ferimentos ou sinais de hemorragia interna. Até mesmo a polícia se envolvera. A imagem de seu corpo pálido e quase sem vida não tinha saído de sua mente desde então. Parecia ter sido tirada de um filme e imaginou que tudo não se tratava de uma peça ou mal entendido. Talvez a mulher estivesse drogada, pensou. Porém não conhecia absolutamente nenhum tipo de droga que causasse aquele efeito em quaisquer seres vivos. Era simplesmente impossível.
Balançou a cabeça enquanto jogava o conteúdo da panela pia abaixo. Aquilo estava passando dos limites. Não iria permitir que uma insônia ridícula atrapalhasse sua folga tão preciosa, não depois de 48h de plantão. Se dirigiu ao quarto, apagando da mente as imagens daquela paciente e do seu acompanhante mal encarado. Se deixou envolver pelos lençóis macios e pegou no sono.
Açafrão, pó de lua, trigo. Misturar os ingredientes com um pilão. Adicionar suco de pêssego. Sal, alho. Cozinhar em fogo baixo.
Ao seu lado, uma mulher morena e sorridente parecia ocupada com suas misturas também. Amanda não deixou de notar a preocupação em suas feições, disfarçada pelo meio sorriso. A sensação era de que devia a conhecer profundamente para notar aquilo.
“Você tem certeza de que irá funcionar?”, a mulher perguntou. Sua voz parecia vinda de outro mundo.
Outra vida, talvez.
Amanda adicionou o ingrediente final, um fio de cabelo da pessoa desejada. A mistura brilhou em furta-cor por alguns segundos e depois cheirou a lavanda. “Jamie, podemos chamar John pois a poção está completa e só resta ele para realizarmos o feitiço.”
E teve certeza de que aquilo iria funcionar. Só não poderia imaginar as terríveis consequências.
“Summer Love” starring Amanda Williams and Charlotte Evellark
Algo dizia que o sol estaria brilhando no céu o dia inteiro. No entanto, Amanda tinha certeza disso. Tinha prestado atenção na previsão e tudo. No momento, saía de casa com um lindo e simples vestido, floral, saia rodada. Carregava uma grande mochila. Ia tomar sorvete, ela. Não sozinha, tinha convidado Charlotte. Sentia-se ansiosa, normal, não era só um sorvete. Iam viajar. Tinha ligado bem de manhã, confirmando - com medo de tudo ser cancelado.
Foi a pé até a loja, Hiddenwood tinha dessas coisas. Quando chegou, já estava fechada, uma placa na porta. Porém, tocou a campainha e esperou. Um rapaz atendeu, reconheceu o funcionário, Brandon. Tinha cara de poucos amigos, lembrava dele, chamando todos de estúpido. Sabia que era um bom jovem, foi até simpático e disse algo como "Charlotte estava te esperando, por favor, entre" sendo educado e tudo mais.
Ela estava deslumbrante, como todas as outras vezes. Era engraçado revê-la assim - conseguir vê-la - em um mundo onde tudo era tão diferente, tão vívido. Ela tinha batom nos lábios e isso deixava Amanda perdida.
Riu, enquanto arrumava uma mecha de cabelo que estava na frente dos olhos da outra. Sem saber o que fazer depois, um tanto desconfortável, sorriu novamente.
- Amei o vestido. - brincou Charlotte. Ambas sabiam o que tinha acontecido quando Amanda veio à loja provar o vestido, e na verdade, não conseguiam esquecer. Muita coisa tinha acontecido depois daquilo.
Foi Amanda que pediu o namoro, depois de um jantar. Foi engraçado, tropeçou nas palavras, como uma boba - Charlie achava aquilo um charme. As duas eram cheias de piadas bobas, principalmente Amanda. Tinha algo jovial naquilo, dançavam e corriam uma atrás da outra para provar.
Ambas saíram, deixando Brandon para dar uma faxina. Quando questionada sobre confiança no empregado, Charlotte riu. Amanda deu de ombros e resolveu acreditar.
Cidade de praia e turística, algumas horas de viagem. Colocaram música e cantarolavam, desafinadas. Amanda tinha afastado o banco e colocava o pé no painel, enquanto Charlotte dirigia. Tinha que se esforçar em prestar atenção na estrada, com o par de pernas tão ao seu alcançe. Não foi fácil e certamente não focou no caminho em algumas partes da viagem.
Já estavam de biquini, porém Amanda apenas colocou um chapéu. Seu vestido era praiero. Quanto à namorada, gostava de tirar a blusa e amarrar uma canga na cintura. Estavam cansadas da longa estrada, portanto decidiram deixar o sorvete para o próximo dia.
A casa era pequena, muito próxima da areia, assim como o anúncio dizia. O proprietário estava esperando, não disse muita coisa, apenas instruções gerais. Um quarto, banheiro, cozinha. Tinha geladeira e fogão, alguns lençóis, ar condicionado. Não ligar som alto, não sujar a praia, limpar tudo no final da estadia.
De noite, com as malas enfim desfeitas, resolveram ir ao mar. Estava um pouco frio, Charlotte tremia, porém Amanda era canadense e aquilo não passava de uma brisa. Brincou. Assim que viu que era sério, ofereceu tudo o que vestia, canga e chapéu. Charlie pareceu melhorar, isso deixou um sorriso no rosto das duas.
Conversaram, em um quiosque perto da areia. Charlotte falava do que tinha paixão e isso deixava sua namorada com corações no lugar de olhos. Amanda escutou por um bom tempo. No final, a beijou, como se fosse de primeira. Seguraram mãos e fizeram conversa fiada sobre as ondas do mar. Amanda confessou que tentara surfar, certa vez, na Austrália. Não mencionou que sua ex a humilhara com manobras e simplesmente por ficar de pé em uma prancha. Aquelas memórias não pareciam certas. Charlotte notou seu olhar de tristeza, resolveu não comentar, apenas apertar mais a mão da outra.
Voltaram à casa, se beijaram e prolongaram a noite durante algumas horas. Dormiram abraçadas.
O sorvete de Charlotte era algo elaborado, com chocolates e biscoitos recheados, caldas e caramelos. Amanda escolheu seu sorvete de frutas, coloridos que doíam os olhos. Trocaram colheres diversas vezes. Charlotte conseguiu alcançar o nariz com a língua, onde um pouco de sorvete havia se instalado. Amanda achou aquilo impressionante, tentou fazer o mesmo, porém falhou miseravelmente. No final, Charlie deu conta do sorvete no nariz da mulher.
Já tinham acrescentado mais umas cinco piadas internas à lista, quando chegaram na casa alugada. Se trocaram e resolveram passar protetor, pois iam mergulhar.
A praia estava cheia, porém deu para aproveitar. Jogaram água uma na outra e todos as brincadeiras praieras de namoradas. Sentaram na areia e Amanda tentou construir alguma coisa, porém Charlie achou engraçado estragar tudo. Tiveram uma pequena briga boba. No final, ambas riram até os pulmões queimarem.
Ao fim do dia, foi a vez de Amanda falar de suas paixões. Sentada na cama, encostada na parede, Charlotte observa a mulher de pé, dando sua aula. Amanda deu discurso e falou de suas motivações. Disse sobre o amor, os astros, artes inspiradoras e a história da mulher. Inventou trocadilhos e disse que amava Charlotte seguidas vezes.
Prepararam um doce, que ficou muito açucarado, mas era assim que Charlie gostava.
Se beijaram em todos os lugares da casa e em todos os cantos de seus corpos.
Dormiram algumas horas, depois de uma conversa baixa e sussurrada.
Amanda acordou com Charlie cantando e fazendo uma dança engraçada. Entrou na onda e acabaram tropeçando e caindo. Riram da performance boba de ambas.
Limparam tudo em tempo recorde, dobraram os lençois e arrumaram as mochilas. Lá pelo meio do dia, o proprietário voltou, para checar se tudo estava bem e pegar a chave.
Charlotte deixou Amanda dirigir - e quase implorou. Cantarolaram em francês dessa vez (Charlie não tinha a mínima ideia de como falar francês). A estrada pareceu ser metade do que tinha sido na ida, apesar que cinco álbuns vieram e foram.
Em Hiddenwood, Charlie deixou Amanda em casa. Desceu do carro e ajudou com a pesada mochila. Entrou e foi até o quarto da namorada, deixando tudo por lá. Na descida, encontrou alguém muito sorridente.
Ao Charlotte fechar a porta, Amanda soube que essa era a pessoa com quem passaria o resto da vida. Só faltava uma pequena perguntinha.
Era uma floresta densa. Uma neblina pesada se espalhava pelo chão como um manto cobrindo um corpo morto. Duas figuras, distantes uma da outra, corriam como se tivesse algo as perseguindo, como se caso parassem ou ficassem mais lentas, algo terrível aconteceria. A primeira figura corria pela sua família, pelos seus amigos. A segunda, corria pelo irmão. Ambas, pelas próprias vidas.
A primeira figura usava robes rasgados, antes sofisticados e cheirosos. Tinha cabelos castanhos, encobrindo os olhos e impossibilitando parte de sua visão. A outra mulher tinha expressão assustada, corria incrivelmente rápido e não parecia se cansar fácil.
De alguma forma, Amanda - a morena - sabia da presença de outra pessoa nas redondezas, e sentia seu desespero, assim como poderia dizer exatamente como era a sensação de sua corrida veloz. Jenna, portanto, conseguia sentir como era ter sua visão incapacitada pelos cabelos, mesmo quando os seus estavam presos em um rabo de cavalo.
O encontro das duas parecia destinado a acontecer, e quando este finalmente se deu, pararam de correr (mesmo que continuassem imensamente amedrontadas pelo o que estava atrás delas).
- Quem é você? O que faz aqui? Eu te conheço? - seus olhos esbugalhados denunciavam seu medo, mesmo que Amanda não precisasse disso para saber o estado emocional de Jenna. Ela simplesmente tinha as respostas.
- Jenna Lionsdale. - disse, disfarçando sua preocupação pelo o que estava atrás dela, perigosamente perto. - Me desculpe por isso, mas... você corre um perigo terrível.
E assim, calou-se. Os cabelos castanhos da mulher começaram a cair em chumaços, se perdendo na névoa aos seus pés. Seus braços ficaram cada vez mais finos, a pele que sobrava coberta de marcas roxas até que não houvesse nenhuma área que não estivesse enegrecida. Mesmo assim, não gritava. Seus olhos afundados e sua boca pendia aberta, revelando nada mais do que pura escuridão.
A última coisa que Jenna se lembra antes de acordar gritando era o gosto de sangue em sua boca.
✪ my muse seeing the ghost of your muse (transylvania)
TRANSYLVANIA AU
Inglaterra - 1943
Se levantou abruptamente, fazendo com que o lençol, antes lhe cobrindo completamente, parasse no meio de suas coxas. Mesmo acostumada a dormir em meio de barulhos extremamente altos para ouvidos humanos, treinar-se para acordar ao som da sirene de aviso tinha sido algo relativamente fácil. Em um pânico gerado pela urgência de se proteger e agravado pela falta de luz, a mulher colocou seus chinelos e se direcionou ao pequeno alçapão.
Isso foi, claro, até se lembrar de que não havia alçapão (logo após de suas mãos encontrarem um vazio no local onde ele devia se encontrar). Suspirou e revirou os olhos, repreendendo-se por ter sido tão estúpida. Um sonho, é claro, onde devia ter ouvido a alta sirene. Estava no interior do país. Ali, bombardeios eram quase impossíveis — realidade completamente diferente da cidade.
Jenna não estava cansada (ela nunca estava). Por isso, encarava dormir como um meio de transporte, um atalho pelo tempo. Era mais fácil deitar e dormir ao invés de ter que passar mais tempo acordada. Só que, claro, isso lhe rendia sonhos. Esses sim eram empecilhos. Principalmente quando tinha que encarar um passado do qual se esforçava em não lembrar.
Sentou-se na cama, reprimindo imagens de um alto e charmoso homem ensanguentado, com um maníaco olhar, dilacerando o pescoço de uma morena com seus caninos alongados. Aquele homem, aquele monstro, costumava ser o seu namorado. Jenna tinha um certo problema na hora de escolher com quem poderia passar seu tempo.
A escuridão do recinto, de repente se amenizou, com um facho fraco de luz que atravessava o vão da porta. Curiosa, a loira levantou-se novamente, pronta para quaisquer imprevistos (suas garras e presas à mostra). Girou a maçaneta lentamente.
— Quem está aí? — sua voz não oscilava.
—…certo. Com certeza. — alguém dizia.
Pronta para ter que lidar com alguma vizinha intrometida, Jenna voltou à sua forma original. Porém, toda a cor (já não era muita) esvaiu do seu rosto quando percebeu o que acontecia.
A figura emanava uma luz sobrenatural, ao mesmo tempo em que era possível ver através de sua forma. Não vestia o que pareciam roupas e sim um grande manto, que se esmaecia nas pontas, como se derretesse. Suas mãos e pés não eram estavam à vista, assim como tudo dos ombros para baixo não estavam definidos. E não somente isso, mas de quem a figura se tratava.
Não era algo muito comum e nem esperado, considerando o que a loira era, porém uma lágrima escorreu por sua bochecha. Os olhos borrados do fantasma não estavam direcionados à Jenna, e não parecia notá-la ali.
— Isso é real? — chamou sua atenção, a pergunta parecendo algo incrivelmente estúpido, quando posto em comparação com todas as outras coisas que devia perguntar.
— Desculpe, não sei. — parecia confusa. — Essa não é a hora certa.
Sentia-se tonta, atraída pela forma iluminada. Deu um passo em sua direção, porém, parecia muito mais longe do que anteriormente.
— Amanda, é realmente você?
— Não totalmente. Não inteiramente. Meu feitiço me matou e me desfez. Esse não é o momento. O heptacentenário não se completou.
— Feitiço? Momento de que? O que quer dizer com heptacentenário? — suas perguntas mais pareciam ecos. Calou-se, quando percebeu que estava se fazendo de ridícula. Mesmo assim, precisava de respostas. Sabia que algo acontecera na batalha e que um feitiço fora realizado, porém, por tudo o que deduzira, tudo tinha dado errado.
— Minha essência está desaparecendo. Esta não é a hora certa, não é o momento.
E assim, tudo desapareceu em uma escuridão completa.
Jenna acordou com o travesseiro molhado em volta dos olhos.
Tinha aspernas um pouco finas, talvez um tanto tortas. Andar era uma coisa engraçada,fazia em zigue-zague. Sua mãe dizia que natação poderia corrigir isso, porémpor algum motivo, nunca lhe inscrevia (encontrava-se até um tanto aliviada pelamãe fazê-lo).
Uma saída parasua caminhada engraçada era sempre seguir encostada na parede, quase searrastando. Era uma cena um tanto triste, ainda mais por sua postura e suaexpressão não indicarem nenhum pouco de felicidade. Mesmo encobertos por umagrande franja, alguém que observasse com cuidado, poderia ver seus olhos,recém-esfregados, vermelhos e inchados, característicos de alguém que haviaacabado de chorar.
Uma calçalarga, com um grande casaco na cintura, chegando mais ou menos até a metade dascoxas. Uma blusa de manga curta, com alguns dizeres encobertos pelos cadernos,que eram abraçados em sua frente.
Assim, seguiao corredor da escola. Vazio, pois as aulas já haviam acabado há um tempo. Jáconseguia avistar a saída e ao mesmo tempo que desejava chegar logo, aquilotambém não parecia uma opção muito sedutora.
Inesperadamente,uma porta se abriu com força, bem em sua frente (e por pouco não foi atingidacom tudo no rosto). De dentro, saiu um rapaz, que parecia irritado.
“Eu não venho aqui semana que vem nem se meameaçarem com uma 38!” esbravejou, assim que a porta se fechou, para quequem quer que lá dentro estivesse, não ouvisse.
Logo depois, ogaroto jogou seus materiais no chão, produzindo um estrondo significativo. Emuma espécie de ataque de raiva e frustração, sacudiu os braços e a cabeça,soltando ocasionais grunhidos. A poucos metros, Amanda observava espantada odesenrolar da fúria do rapaz, que não pareceu perceber que ela estava ali atése abaixar para recolher os livros. Mesmo assim, não parecia envergonhado econtinuou a catar os lápis, enquanto lançava olhares curiosos para cima, onde aadolescente esperava.
Quando tudo oque estava no chão encontrava-se nas suas mãos e braços (e logo na mochilavelha e desbotada) finalmente deu uma brecha para que a morena pudesse passar.Porém, assim que ela deu o primeiro passo, seu caminho foi obstruído.
“Você, por acaso, não estava chorando,estava?” perguntou, com um tom de voz que traduzia uma real preocupação.
“Por quê pergunta?” respondeu, nãoconseguindo fazer contato visual. “Não.”mesmo que sua voz embargada dissesse justamente o contrário.
“Está bem, mas você vem comigo.”
Era um rapazde roupas amassadas e obviamente muito largas para seu corpo. Tinha olhosclaros (pelo o que Amanda havia conseguido observar) e cabelos rebeldes, quenão pareciam seguir um corte definido. Tinha um sotaque sulista e um bronzeado.Parecia ser o típico garoto que sempre estava se metendo em encrencas. Nadaparecia fazer com que a garota tivesse um mínimo de vontade de ir com ele paralugar algum.
“Desculpa, mas eu acho que vou para casa.”apontou para a saída.
“Então eu vou com você.” pareceudecidir.
Amanda rolouos olhos e resolveu ignorar a sua presença. O empurrou e seguiu seu caminho,enquanto ele andava atrás.
Permaneceramassim até estarem ao ar livre.
“Seus pais vem te buscar?” perguntou,quando viu que ela havia sentado na rampa de acesso. Cerrando os olhos com arepentina luminosidade do sol, o garoto colocava a mão na cintura, tentandotalvez, avistar algum carro que pudesse estar esperando.
Como nãoobteve nenhuma resposta, resolveu sentar ao seu lado. Sua presença deixava agarota um tanto desconfortável.
“Por que está me seguindo?” perguntou.
“Quero conversar, é só isso.” ele deu deombros. “Eu sou o John, sétima vez emdetenção seguida, prazer.” estendeu a mão, com um sorriso no rosto.
“Eu não estava em detenção.”
“Nunca disse que estava. Sabe, eu costumavaficar depois da aula há um tempo. E não era por causa de detenção.”
“Amanda.”
“Legal”
Um momento desilêncio.
“Olha, você pode estar passando porproblemas ou em dificuldades ou você liga bastante pra o que as pessoas dizem.”começou, em um tom sério.
Foi ignoradonovamente.
“Mas você não pode evitar ser diferente. Nãotem nada demais nisso, eu entendo.” continuou, tirando algo do bolso dacalça. Amanda percebeu, horrorizada, que se tratava de cigarros. “Quer um?” guardou-os quando novamentenão recebeu nenhuma resposta.
Mais unssegundos onde ninguém disse nada.
“Você devia entrar nas aulas de teatro, temuma galera assim como você lá. Diferente.” aconselhou.
“O que quer dizer com diferente?” derepente interessada, Amanda se inclinou, apoiando os braços no joelho.
“Você sabe, fora dos padrões.” deu deombros. “Não tenho paciência pra essas coisas de clube, mas acho que poderiaser a coisa certa pra gente como eu.” uma nuvem de fumaça se formava acima dacabeça do garoto.
Um carroestacionou do lado do meio-fio. Era vermelho e limpo, um tanto impecável. Umamulher que dirigia. Falava no celular e esticava o pescoço, tentando enxergarcom quem sua filha estava falando.
“E essa é minha carona.” Amanda selevantou, novamente com os livros abraçados em sua frente e a franja caindo porsobre os olhos, já não mais vermelhos. “Obrigada,John. Vou pensar no que disse.”
E o deixouali, refletindo em como a mãe dela sabia que era para buscá-la naquele horário,se não estava de detenção.
Estava mais calma, e aquela havia sido uma das melhores coisas que lhe haviam acontecido, sem dúvidas, mas ainda se sentia confusa. Sua mente ia e vinha, com pensamentos loucos. Tinha em mente que haviam, sim, entrado clientes na loja enquanto as duas…se amavam, e não importava.
Passou a mão pela testa suada, tirando os próprios fios de cabelo de seu rosto, para que pudesse ver Amanda melhor. Ela era realmente muito linda. Abraçou a garota, dando-lhe um beijo na testa, por puro conforto, e sem seguida se levantou para se vestir.
Foi colocando peça por peça, assim como haviam sido tiradas pela outra. “Amanda” finalmente disse, tirando uma coragem de dentro de si, a qual ela não fazia ideia de onde vinha. “Me desculpe. Me desculpe por tudo isso, ok?” abaixou a cabeça, fechando o zíper de sua calça e pegando a blusa jogada do outro lado do provador. “Eu não deveria…” sua voz falhou “Eu não deveria ter feito isso com você. E é. Eu não tenho certeza disso. Eu não tenho certeza se eu quero e gosto. Me perdoa” foi jorrando as palavras, torcendo para que não atingissem Amanda e ferissem ela. Respirou fundo. “Por favor, me desculpe”.
Lágrimas voltaram a escorrer pelos seus olhos. Então era aquilo que faria? Era aquilo que queria dizer desde o início? ‘NÃO’ sua mente berrava, ‘NÃO’ seu corpo berrava. “E-eu adorei o que fizemos aqui, de verdade. Eu só gostaria de ter certeza” terminou, querendo que aquele fosse apenas uma vírgula. “A gente pode tentar uma amizade?” ah, como queria que aquilo fosse uma vírgula.
O lugar estava uma bagunça, assim como Amanda. Seu humor, antes elevado ao máximo, de repente era destruído pelas palavras de Charlotte. Como se de repente não houvesse mais chão abaixo de si. Perguntou-se se talvez tivesse sido desta maneira que aquela mulher se sentiu quando Amanda dispensou-a há dois anos em Sydney. Pois era usada, confusa e desacretidada que se sentia. Não chorou, pois não ousaria fazê-lo na frente de alguém que estava apaixonada, de alguém que não sentia o mesmo por ela.
"Só isso?!" sua voz saiu embargada. Pouco tempo atrás eram apenas coisas confiantes que saiam de sua boca, agora apenas um nada. Não acreditava que poderia ter sido apenas aquilo. Já se cobria com a roupa, envergonhada e um tanto indefesa por tudo aquilo o que a outra lhe falava. "Veja, eu não quero, entende?", seu sotaque australiano mais forte do que nunca, embora sua mente gritasse para que este morresse o mais cedo possível. "Eu não vou conseguir." Admitiu, agora sua voz nem tão embargada.
Levantou-se, suas sobrancelhas juntas e os lábios contraídos. No que havia se metido? Agora estava literalmente fodida e abandonada. Mas se tinha uma coisa que desejava, é que a última parte não fosse realidade, não queria ser abandonada. E era nisso o que Amanda se diferenciava daquela vez dois anos atrás, não queria ser deixada como a tal mulher havia sido. "Mas," disse, um tanto desesperada para que Charlotte não fosse embora, "se é isso o que você quer, eu posso tentar. Eu vou tentar."
E não sabia como não tinha enxergado que aquilo não daria certo. Se a voz da moça não fosse não hipnotizante, e ela não fosse tão, mas tão bonita, talvez seria mais fácil desistir da ideia de que algo poderia acontecer entre as duas. Se realmente pudessem ser amigas, queria que desse certo.
Quando sentiu o toque dos lábios de Amanda teve que ser muito forte para não cair, pois suas pernas tremiam como se não aguentassem o próprio peso. Sua mente fervia com milhões de perguntas, tais como: o que eu estou fazendo?, por que eu estou fazendo isso?, o que está acontecendo comigo? E nenhuma dessas perguntas poderiam ser respondidas, não naquele momento.
Seus olhos se fecharam, deixando aquela lágrima que havia surgido anteriormente escorregar em seu rosto, se misturando ao gosto dos lábios da outra moça em seguida. Suas mãos vagaram até sua cintura e a puxaram mais para perto. Sem motivo aparente, Charlotte a desejava. Desejava que ela estivesse perto, desejava que ela estivesse ali, desejava que aquilo fosse realidade.
Em sua mente, mais confusa do que nunca, nada se acertava. A única coisa que conseguia fazer era beijar Amanda, aquela moça que havia conhecido naquele dia mesmo, com quem havia almoçado, a moça que estava perfeita e sexy em um vestido de sua loja, a moça que estava a beijando e não dava sinais de querer parar tão cedo, assim como a própria Charlotte.
Tudo parecia estar tão maluco. Ao mesmo tempo em que beijava aquela linda moça, desejava estar em algum lugar maior, algum lugar mais arejado, pois sentia um calor imenso. Não que fosse ruim, até porque fazia com que quisesse continuar para sempre, somente aceitando o fato de que estavam coladas e que isso era incrivelmente bom. Mas como tudo o que é bom, alguma hora teve que parar para respirar, os olhos arregalados e a boca ainda aberta, sem fôlego. Suas pupilas dilatadas e uma das alças do vestido tão bonito e sexy pendendo para o lado.
"Garota," disse, em uma voz rouca, desta vez sem vergonhas. Não esperou, não tinha como continuar a frase, queria mais. Diabos, ela era tão bonita. E queria que dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Estava incrivelmente ferrada por estar tão perdida por Charlotte. E não parou para ter medo, como sempre tinha, ou de ser tão paranóica, nem parou para respirar, assim como tinha feito da outra vez. "Você nunca deveria ter fechado aquele zíper."
Sorriu de lado e desta vez permitiu que ela fizesse alguma coisa, sem saber se ela iria de fato retribuir seus sentimentos ou simplesmente retribuir o que faziam naquela hora ao invés de sair correndo daquele provador ou apenas desistir, como Amanda tinha certeza que faria se estivesse em seu lugar.
Seu sorriso permaneceu intacto enquanto via a moça escolher o vestido, e ele até aumentou quando ela achou alguns que lhe agradassem. Suspirou, com uma estranha sensação de missão cumprida. Ficou observando também os vestidos que Amanda havia descartado, se sentando no banquinho ao lado. A garota tinha um gosto peculiar, que estranhamente a agradava.
Balançou a própria cabeça, tentando tirar aquelas coisas da cabeça. Charlotte provavelmente precisava de mais distração, estava trabalhando demais. Virou a cabeça quando ouviu o próprio nome saindo da boca da moça, e corou instantaneamente quando ela lhe pediu ajuda. Nunca, em toda sua vida, de profissional ou não, havia ficado com uma outra mulher em um espaço tão pequeno, mas com um suspiro ela andou até o provador, com seu subconsciente voltando a lhe falar ‘Ajude-a. Você precisa’. Odiava ser mandada pelo próprio subconsciente como se estivesse sendo feita de boneca, mas não protestava.
Entrou no provador e logo viu que o problema de Amanda era o zíper do vestido, tocou seus ombros com delicadeza, fazendo-a se virar de costas, até tentou dar um sorriso simpático, mas não dera muito certo. Pegou no zíper calmamente, cuidando para não tremer, e o subiu lentamente fazendo com que o mesmo encostasse nas costas de Amanda, assim como seus delicados dedos trêmulos. Ao terminar esse serviço deu dois tapinhas em suas costas como se dissesse “está pronto” e voltou a encarar o espelho que mostrava uma Charlotte corada, confusa e extremamente encantada com a imagem de Amanda deslumbrante em um simples vestido vermelho.
Estava sem palavras, sem reação. Poderia ficar observando o quanto Amanda estava divina pelo resto do dia. Suas mãos insistiam em permanecer nos ombros da garota, e uma lágrima surgiu no canto de seu olho direito. Seu estômago revirava, suas pernas estavam bambas. Ao mesmo que queria sair dali e gritar, ela queria continuar naquele provador. Deslizou suas mãos pelos braços de Amanda, fechando-as em punho e voltando-as para ao lado de seu corpo, deu um passo para trás encontrando com as próprias costas a porta do provador, voltou os olhos para baixo, tentando não encarar Amanda. Mas ela não podia evitar no inevitável.
Seu peito ia e vinha de acordo com sua respiração depressa. Podia jurar que se ela continuasse tocando em seu ombro daquela maneira seu coração rasgaria tudo e pularia fora. Quando Charlotte acabou, olhou-se no espelho, impressionada por estar tão bonita em um vestido do qual nem esperava tanto. A peça vermelha tentava dizer à ela algo como: sou curto e grosso, simpático, inteligente e tímido, mas não se engane, posso fazer você ir à loucura com apenas um olhar... "Está perfeito", sussurrou, ainda naquele transe por estar parecendo tão legal. Porém, foi só por alguns segundos até perceber que a sua companhia estava ali, parecendo ao mesmo tempo confusa, maravilhada, triste e tão, mas tão, mas tão, mas tão bonita. Não que isso fosse alguma coisa que ela já não havia notado anteriormente, porém nem tinha parado para realmente perceber aquilo.
Alguma coisa desde o princípio havia puxado Amanda para ficar tão obcecada por Charlotte, e era sua voz, sem dúvidas. Mas passava tanto tempo prestando atenção na voz da outra, para ver que sua aparência e seu jeito também eram igualmente indescritíveis. E era de novo toda aquela coisa de não saber como suas ações afetavam seus sentimentos, e vice-e-versa, mas naquela hora não tinha como pensar em mais nada a não o quanto ela queria aquele toque novamente. Seu olhar ia do espelho para a testa de Charlotte, e de sua testa para sua boca, e de volta para o espelho.
O silêncio se tornava milhões de vezes mais embaraçoso, enquanto ficavam ali naquele minúsculo provador e nada mais acontecia. Nem percebeu que tinha andado um passo para frente, ao mesmo tempo que a outra recuava. Ergueu a mão, tentando tanto não fazê-lo, achando que poderia estar agindo muito mais que precipitadamente (pois só havia de fato falado com ela naquele mesmo dia, apesar de já estar bastante obcecada bem antes disso). Tirou a mecha de cabelo que cobria o rosto da outra, colocando-a atrás de sua orelha, quase por um milagre pois seus dedos tremiam consideravelmente.
E continuavam ali quando se inclinou e selou um beijo que dizia para Charlotte exatamente o que o vestido queria tanto comunicar.
Assentiu com a cabeça positivamente enquanto sua mente trabalhava em buscar memórias de alguma coisa mais escura. Suspirou bem fundo. Amanda não havia especificado o que queria, se era um vestido, uma saia, uma blusa, uma camisa…Mas Charlotte preferiu optar em mostrar-lhe vestidos, afinal era o que a moça estava olhando quando começou a atende-la.
Foi até o estoque caminhando rápido com passadas largas, não queria atrasar mais aquilo. Sentia que precisava agradar aquela moça, mesmo sem saber exatamente o porquê. Foi bisbilhotando por tudo e pegando quase todas as peças escuras que vinham pela sua frente: vestidos de festa, vestidos para ficar em casa, vestidos curtos, vestidos longos, vestidos com estampas, com babados, com renda…Tudo que fosse escuro.
Voltou até Amanda com, no mínimo, vinte peças em mãos e estendeu-as sorrindo. “Agrade-a” dizia seu subconsciente "Faça ela ter motivos para vir aqui mais vezes". Se sentia confusa com aquilo tudo, mas apenas agia por instinto. O que raios estava acontecendo com ela?
"Bem…" começou, sentindo o estômago revirar “Eu não sabia bem o que você queria então trouxe vários modelos para escolher” soltou os vestidos eu um banquinho que estava ali perto delas "Escolha um e…Experimente!" voltou a sorrir confiante, estava dando seu melhor.
Levantou ambas as sobrancelhas em puro espanto quando via Charlotte chegando com no mínimo dezoito peças na mão. Sentiu-se um pouco mal, por nem estar tentando escolher nada, enquanto que ela claramente estava se esforçando além do normal para que pegasse no mínimo alguma coisa. Sorriu de volta, desta vez determinada a olhar aquela montanha de roupas direito e escolher uma, mesmo que nem fosse usar depois. Foi então em direção ao banquinho, examinando a primeira peça e considerando a possibilidade de vestí-la. Decidiu que poderia experimentar.
E foi assim, selecionando vestidos que poderia provar. Pretos, vermelhos, azuis, todos em um tom incrivelmente escuro, assim como havia pedido anteriormente, apesar de não ser assim tão rígida quando o assunto era o tom de cor. No final, havia desconsiderado um pouco menos da metade da pilha anterior e finalmente entrava no provador. Desacostumada com um ambiente tão pequeno, que ainda ficava menor com tanta roupa, foi bastante desajeitava na hora de provar o primeiro vestido, demorando mais do que o normal.
Quando finalmente o fez, teve dificuldades na hora de fechar o zíper. Considerou a possibilidade de pedir ajuda por algum tempo. "Hã... Charlotte..." juntou as sobrancelhas e contraiu os lábios quando sua voz saiu muito fina e apagada. "Charlotte," tentou novamente, "poderia me ajudar aqui?" Abriu um pouco a cortina e colocou a cabeça para fora. Ainda não tinha ninguém a não ser as duas na loja, o que não deixava de ser bastante embaraçoso para Amanda, que com certeza não ficava muito sozinha com pessoas. Pessoas com uma voz simplesmente indescritível... Ela estava ferrada.
Se surpreendeu ao ver que a moça sabia o significado de seu nome, coisa que nem ela se lembrava, mas que conseguiu se lembrar de quando era pequena e suas tias diziam que 'era o nome de um doce para uma menina doce'. Parecia haver mais tempo desde aquele dia até o dia atual do que realmente havia, sentiu o estômago apertar.
Levou Amanda para o restaurante em seu carro, que não era o carro do ano e nem nada do tipo, mas servia bem para se mover quando sentia preguiça de caminhar. Não usava-o muito, mas naquele dia havia resolvido tirá-lo da garagem antes que mofasse lá dentro.
Trocaram algumas palavras durante o percurso, que, de carro, não foi longo, e chegando lá deixou que a sua visita escolhesse uma mesa, a qual achou ótima escolha. “Posso fazer uma sugestão de cardápio?” perguntou sorrindo “Aqui eles fazem um macarrão divino!” e pediu.
Como de costume, o macarrão estava divino, mas logo acabou. Fez a gentileza de pagar a conta e voltaram para a loja. "Então, você não gostou mesmo desse vestido? Quer que eu vá buscar outro?”
Tinha sido um ótimo almoço. Excelente, para falar a verdade. Talvez Amanda tivesse gostado daquilo mais do que normalmente apreciava um almoço. Pelo fato de ter companhia ou até mesmo por ser um macarrão delicioso, não sabia dizer. Ultimamente as coisas iam tomando rumos que não sabia dizer direito o efeito que isso dava em seus sentimentos.
De volta à loja de roupas, já estava mais solta e nem de perto tão nervosa quanto da primeira vez que falava com a tal da Charlotte, mesmo que o sentimento de que já havia escutado sua voz continuava lhe importunando como um mosquito na calada da noite.
"Hã... Acho que não." Mexeu a cabeça, um pouco incerta. "Eu acho que prefiro alguma coisa mais escura." Inventou alguma desculpa, pois não ligava muito para a cor do vestido e sim o quão confortável ele era. Sim, ela tinha um pequeno gosto para moda, mas o conforto sempre vinha como prioridade. A desculpa também servia para deixar as duas um pouco ocupadas, não sabia o que faria se ficassem apenas as duas sozinhas em algum tipo de silêncio. Ou ela apenas falando... O que diabos tinha naquela voz?
Talvez estivesse ficando um pouco paranoica, mas tinha a sensação de que encarava demais a boca da outra se movendo conforme ia pronunciando as palavras. Provavelmente estava parecendo uma lunática, assim quase sem piscar, mas não conseguia evitar. Quase agradeceu quando a mesma se virou, possivelmente para buscar o tal vestido de cor mais escura.
Mordeu a bochecha, meio nervosa, mas talvez a garota tivesse razão, ou não, afinal quem muito se desculpa acaba ficando chata. A última coisa que Charlotte não queria ser era chata, não com ela. Um arrepio subiu sua coluna quando percebeu que não era pela clientela, pela primeira vez.
Ignorou o arrepio e sorriu para a moça "Amanda é um nome bonito. Se eu não me engana significa ‘amada’". Se sentiu meio idiota, a garota não queria saber o significado do próprio nome, talvez até já soubesse. Charlotte, mais uma vez, se odiou, estava sendo inconveniente e se ela não fosse ela não seria amiga dela mesma. "Bem, eu costumo comer em lugares diferentes, mas acho o The 2000’s muito bom. Tudo bem pra você?" respondeu, voltando a tornar seu semblante sério. "Olha, espera aqui que eu vou fechar a loja e volto já. Cinco minutinhos, não mais!" saiu correndo dali, ativando o sistema de segurança, pegando sua bolsa com suas coisas, e aproveitando, discretamente, para dar uma retocada no seu batom e cabelo, o qual desprendeu do coque no alto da cabeça. Sorriu para a própria imagem no espelho e torceu para que Amanda não tivesse aproveitado para dar o fora. Com a bolsa pendurada no braço, saiu para fora e suspirou quando a viu parada ali, esperando. "Hm, vamos?"
Deu um pequeno sorriso, um pouco envergonhada. Inclinou a cabeça para a esquerda, bastante curiosa e até com traços de surpresa. Amanda realmente significava amada, e não era como se ela não soubesse disso, mas com a tal mulher lhe dizendo aquelas palavras, tudo parecia novo. "Obrigada", gaguejou. "mas pessoalmente acho que Charlotte é melhor. É um doce francês, sabe." Soltou, mesmo que tivesse certeza de que alguns segundos atrás não soubesse de nada acerca de doces franceses. Principalmente algum chamado Charlotte. E algo dizia que Amanda já havia comido, mesmo que não se lembrasse de ter ido à França. Por outro lado, não lembrava de nenhum dos lugares que havia visitado, só tendo checado as várias fotos que aparentemente havia tirado.
Na verdade, foi uma das primeiras coisas que fez após ter simplesmente esquecido a maior parte de sua vida e dispensado a sua aparente namorada. Ela estava na maioria das fotos também. Acordou de seus devaneios, percebendo que a dona da loja havia voltado. Tinha soltado o cabelo e sua aparência com certeza era milhões de vezes melhor do que a da própria Amanda, que não havia gastado muito do seu tempo naquela manhã em se arrumar.
Parecia um pouco surreal a ideia de que ela sairia com Charlotte para almoçar, principalmente porque nunca saía com ninguém. Parecia que sua obsessão por ela - ou pela voz dela - havia feito com que tudo se encaixasse daquela forma... Não que acreditasse em destino, e parecia bem cética acerca dessas coisas, mas de todo o jeito, tudo parecia realmente estar caindo como uma luva. "Vamos lá." Sorriu. Nunca havia comido no 2000's e estava um tanto ansiosa.
"Hmmm." Jenna assentiu, seus lábios comprimidos um contra o outro. Tomou mais um gole, afinal, era a outra mulher que protestava contra a bebida, e não ela. Depois de terminar o copo e repousá-lo na mesa, ela levantou um dedo. "Primeiro de tudo, eu não estou exatamente trabalhando no momento. E depois… num momento, você me dá um fora, e dois minutos depois está me chamando para a sua casa?" Ela sabia. Hiddenwood era tão limpa, tão segura e tão utópica, que só haviam três policiais na cidade inteira. Ela, e duas outras pessoas. A delegacia geralmente estava tão vazia que Jenna sentia falta dos grilos e quase visualizava as bolas de feno rolando. A tal de Julie, perita da cidade, nem mesmo tinha desculpas para não saber o nome dela.
A loira estendeu um pequeno sorriso de canto. Não sabia descrever se era preenchido de orgulho pelo monstro que acabara de criar com apenas algumas doses de whiskey, ou apenas a malícia casual. Pelo visto, as coisas iriam melhor do que ela esperava. Por um instante, seus olhos se focaram no sorriso um tanto presunçoso de Amanda. Mal podia esperar para juntar os sorrisos das duas, se isso não soasse tão poético. Não era pra ser, e definitivamente não seria.
Riu. "Viu? No final das contas, minha cantada não foi assim tão ruim." Falou, dando de ombros. Por um instante, virou o rosto para o outro lado, para um homem atrás do balcão, mas ainda consideravelmente longe. "Phill, the bill!"
Não estava tentando enganar ninguém a não ser a si mesma. Com certeza toda aquela bebida que tomara havia contribuído para que estivesse milhões de vezes mais tranquila em simplesmente conversar com alguém. Porém, aquilo não havia sido o suficiente para estar totalmente embriagada, saindo por aí se oferecendo para qualquer pessoa. Não, Amanda queria um pouco de algo diferente, uma conversa, algo decente, mesmo que não ousasse admitir. Além do mais, aquela tal de Jenna tinha alguma coisa da qual a atraía, e a bebida tinha feito a morena simplesmente aceitar aquilo. Quanto à sua segurança nas noites da cidade, só de andar com alguma representante da lei ao seu lado seria o suficiente.
"Não estou chamando para a minha casa." Corrigiu Amanda, não conseguindo disfarçar seu embaraçamento. "Estou chamando para me acompanhar até a minha casa." Acenou positivamente com a cabeça, como se estivesse confirmando aquilo à si mesma, tentando se convercer de que não queria muita coisa com a xerife. De todo o jeito, também não conseguiu controlar uma pequena risada, mostrando seu lado divertido, e acrescentando uma expressão de total descrença. "Sua cantada foi horrível."
Com a conta paga, se levantou e esperou a loira lhe acompanhar pela saída do bar. Era uma noite agradável, mesmo que estivesse extremamente tarde. Alguns sons distantes ecoavam, e a concentração de pessoas perto do bar era com certeza considerável. Logo foram distanciando-se do lugar, e Amanda tentava fazer com que a situação não fosse assim tão constrangedora. "Então, qual foi a da cantada ruim? É sempre assim?", riu a morena. "Eu estava indo embora por causa dela."