Eu tinha uma convicção inabalável de que estávamos indo no caminho certo, mas em questão de horas, tudo se dissipou. Como a fumaça do meu cigarro, agora aceso, que é carregada e desfeita pelo ar. O 'nós' enfatizado por você também se dissipou e voltou a ser 'eu'. Sabe, pra falar a verdade, acho que sempre fui só eu. No relacionamento, no sentimento, nas atitudes, na procura, na entrega... Você automaticamente reagia às minhas atitudes, às minhas demonstrações de carinho, cuidado, atenção e conversas. Mas olhando pra trás agora vejo que era exatamente como você disse que sua vida estava, no 'automático'. Você disse, eu não tinha entendido que isso também servia pra mim.
O 'nós' que você enfatizou era o meu objetivo. Eu queria tanto mas tanto que fazia o papel dos dois esperando que em algum momento você fizesse sua parte também. Eu estava errada. Ludibriada por minhas próprias expectativas. Mas o ponto aqui é que elas foram correspondidas, ainda que no automático e isso me impulsionou pra frente sem eu saber que não existia um 'a frente'.
Você não está em seu estado normal mentalmente, eu já sei da depressão, mas isso não é desculpa para negligenciar quem esteve do teu lado nos momentos de crise, quem te apoiou, te deu colo e suporte. Eu deixei claro que não esperava perfeição, nem alegrias e grandes demonstrações de empolgação e bem-estar, mas que enfrentaríamos juntos tudo o que viesse pela frente.
Mas a guinada veio quando eu precisei de apoio e em menos de duas horas após você dizer novamente "é nós agora, não tem mais só você" foi tudo por água abaixo. Uma única vez foi o bastante para você desfazer todo esse 'nós'. Como pôde fazer isso? No momento em que eu mais precisava do teu apoio, do teu suporte, tu me largou no meio do oceano, me afogando e deu partida no barco. Quando uma única frase vinda de você seria suficiente para me estabilizar.
"Vai ficar tudo bem, amor, eu estou com você".
Era isso. Era tudo o que eu queria ouvir. Invés disso, eu senti a água do desespero entrar em meus pulmões, me afogando e me matando lentamente, enquanto observava você se afastar.
Isso aqui não é para te cobrar responsabilidade emocional por que eu sei que você nunca teve, mas sim para por pra fora os resíduos de água salgada, daquele oceano de decepção, que restaram em mim.
Eu não vou te desejar o mal, não mesmo. Eu te desejo tudo que há de melhor existente sob o sol. Desejo que você se cure de tudo aquilo que sofre e não conta pra ninguém. Desejo ainda, que encontre dentro de si mesmo a vontade de lutar pela vida. E quem sabe, lutar por nós.
Ah, esse nós está redundante. Me despeço dele antes que vire um balde de água e caia sobre mim.
Mas, por fim, se você não demorar, ainda estarei aqui no cais, esperando você voltar. Inteiro, quebrado, desfeito ou incompleto, espero você voltar.
Se cuida, tá legal? Mas é só enquanto eu não posso cuidar de você.