Ela tinha coxas exuberantes.
Estava parada próximo ao ponto de táxi, com um cigarro entre os dedos. Após tragar, fazia um circulo com os lábios e soltava a fumaça. Usava um vestido preto e botas que iam até os joelhos. Sua boca foi colorida de vermelho-sangue. Não conseguia ver seus olhos, estavam escondidos sob sua franja. Seus cabelos castanhos caiam em ondas sobre os ombros amostra. A pele era pálida, fazendo contraste com a noite.
Quando terminou seu cigarro, maneou a cabeça e levantou-a. Olhou diretamente em meus olhos. Seu olhar cor de mel foi invadido pela breve luz da lua, e ela me encarou. Mantinha uma expressão extremamente inquisitória.
Seu corpo exalava boemia.
As pessoas passavam ao seu lado com pressa, e nem sequer paravam para admirar aquela bela criatura. Grandes brutamontes. Mortal pecado.
Já eu não conseguia desviar meus pensamentos e meu olhar. Era como se ela irradiasse magnetismo. Precisava sentir seu perfume.
Me aproximei apenas alguns metros, afinal não queria assustá-la. Queria apenas observá-la mais de perto, minha intenção era de todas a mais inocente. Desejava fotografar aquela imagem e pendurá-la em minha memória.
Ela era exatamente como as garotas que nos apaixonamos já sabendo como tudo acaba. Um sumiço e um coração partido. Cinzas na janela e uma marca de batom no lençol que nunca teremos coragem de lavar. Um perfume que ficará eternizado em nossos travesseiros. Noites que jamais esqueceremos. Arrependimento? Nenhum.
Gostaria de falar com ela, mas não consigo dar mais nenhum passo. Apenas a visão já me consome por inteiro.
Ela não desvia o olhar em nenhum momento e posso ver todas as minhas inseguranças e incertezas em seus olhos. Imperativo.
Já que não me mexo, ela vem até mim. Alcança seu maço e puxa outro cigarro. Coloca em seus lábios. A imagem é hipnotizadora.
Justo naquela noite saí de casa sem nada, apenas para aproveitar o ar noturno.
"Tudo bem. Vou para casa buscar um isqueiro. Anda comigo?"
Ela não esperou a resposta, afinal sabia que eu a seguiria. Segui ao seu lado até uma casa pequena e simples. Entramos e ela me ofereceu uma dose de whiskey. Bebemos metade da garrafa e trepamos a noite inteira.
Nunca mais trocamos qualquer outra palavra. Sempre paro naquele mesmo ponto de táxi, todas as noites e espero por ela. Ando até a minúscula casa azul e olho pela janela. Está sempre escura. Aquela é a única prova de que não foi um devaneio. Uma miragem.
Sei que nunca mais a verei. Mesmo assim espero.