freewillyf:
- Wee man! Duncan… - o nome escapou de seus lábios como um resmungo, como sempre acontecia quando se referia a um Mackenzie. - … não mentiu, você é própria enciclopédia escocesa. Eu não lembrava disso. Ou não sabia. Minha memória nunca foi das melhores e desde minha última temporada na Escócia existem alguns lapsos. - encolheu os ombros como quem se desculpava por apesar de também corvino não possuir nem mesmo um por cento da sabedoria da mais velha. - Mas fico aliviado em saber que não preciso me preocupar também com fadas. - disse embora a única referência de fadas que conseguia lembrar naquele instante eram as infernais mordentes. Mais uma vez, involuntariamente, seu olhar voltou-se para o que havia para além do vidro. Claire dormia, aparentemente em uma paz que ele não conseguiria sentir até que ela pudesse ir para casa. - Aye! Querendo sair desse hospital o mais brevemente possível. - respondeu um pouco surpreso que a irmã questionasse sobre sua namorada. A relação pregressa de ambas era péssima, com direito a briga física, no bom e velho estilo Fraser x Mackenzie, mas, aparentemente, os anos, os acontecimentos, a maturidade, trataria de transformar aquelas relações em o mais cordiais possíveis - um tanto similar ao próprio comportamento dele ao redor de Prudence, quem acreditava piamente que o detestava. - Já que vamos ficar por aqui até que a bebê receba alta, o pai de Fallon conseguiu convencer Georgia a fazer alguns exames rotineiros do pós gravidez. Caso contrário ela estaria com a cara enfiada nesse vidro também. - e ele estaria tentando persuadia-la para voltar para o quarto já que o pós-parto, mesmo normal, exigia algum repouso. - Em resumo: ela está segurando a barra, mas só estará bem quando a criança estiver fora daquele troço. Um sentimento que compartilhamos. - informou com um ligeiro suspiro antes de virar-se novamente para encarar a mais velha e receber dela a cesta com as ervas. Abriu a tampa para sentir o cheiro das ervas, que normalmente acalmavam, enquanto ouvia com o máximo de atenção o que a ex-corvina dizia. Não o surpreendeu o fato dela não conseguir dizer o nome da bebê que remetia ao nome de uma figura materna de quem Margaret, ao contrário dele, não tinha boas lembranças. - Aye! Para o desgosto de Jude ela tem como segundo nome Eleanor, para seguir a tradição da família Triggs em que todos têm nomes que remetem aos Beatles. - uma breve careta formou-se em sua expressão porque mesmo com os meses de convivência ainda não entendia aquela tradição esquisita. Logo sua expressão suavizou-se para que pudesse encarar a irmã. Margaret era extremamente parecida com Claire I, mesma altura, mesmo tom e comprimento de cabelo, formato do rosto, beleza, se perguntava se era difícil para ela se olhar no espelho como era para ele que sempre enxergava os traços de Joseph. - Uill, sestra, chame-a assim se te deixa mais confortável. - disse, simplesmente, sem mais perguntas, sem entrar no mérito de uma questão que não podia reverter. As mágoas de Margaret com a mãe, fossem quais fossem, eram tão válidas quanto as dele com o pai e não cabia a ele contestá-las. - A caixinha com berloques serve para o que exatamente? Você sabe que sou totalmente uma negação quando o assunto são tradições e superstições. O universo fez apenas um de nós super inteligente e claramente não sou eu. - disse, com um humor muito sutil, mas que não anulava a verdade em suas palavras, Margaret era a inteligente entre eles, além de melhor em muitos outros aspectos, e nem mesmo a opressão dentro de um sistema machista de clã a fez desaparecer. Uma leve ruga formou-se entre suas sobrancelhas no instante em que pegou a bolsinha de camurça e a colocou de forma segura no bolso de seu casaco. - Em que momento exatamente preciso fazer esse teste? Wee man, tem nem como trapacear num troço desses. - disse se perguntando se na infância tinha segurado a moeda ou a deixado cair, a segunda opção parecia a mais provável. - Aye! Você sabe que vou esquecer metade do que me explicou porque meu cérebro simplesmente se recusa a reter informações, então
espere mensagens minhas, ou será que você escreveu instruções? Aposto que escreveu! - um assobio baixinho escapou por seus lábios a lembrança de que Margaret sempre deixava notas com instruções para ele desde a infância, era uma das muitas maneiras que ela demonstrava cuidado desde sempre. - Ia oferecer a casa se não tivesse onde ficar. Mas é claro que você tem. Se tiver um tempo livre me leve pra jantar. - com um leve tom jocoso subiu e desceu as sobrancelhas, apenas no intuito de pentelhar a mais velha como era seu dever como irmão caçula. - Wee man! Algum dia consegui mentir para você? Tirando o fato que sou um péssimo mentiroso. - apesar do afastamento dos últimos anos, e de todos os acontecimentos que desenvolveram defensivas mais extensas em ambos, era óbvio que Margaret ainda o conhecia melhor que qualquer outra pessoa, apenas Georgia se assimilava a ela. - Aye! Tenho pensando no falecido esses dias, em como ele é a única referência de paternidade que tenho, e não quero replicar com a minha filha o que ele fez com nós dois. Mas e se eu não conseguir? E se eu for realmente tão merda quanto qualquer sujeito de clã? - disse externalizando aquele receio que vinha consumindo-o há meses; o receio de cometer erros grandes demais a ponto de traumatizar a pequena pessoa sob sua responsabilidade. Respirou fundo, o cansaço se apresentando fortemente em suas feições. - Então, basicamente estou preocupado porque minha filha nasceu antes que deveria, porque minha namorada só vai ter paz de espírito quando tiver a filha no colo, e porque tenho receio de falhar com as duas. Eu sei lá, as vezes é exagero porque estou pensando demais e dormindo de menos. Ou estou sendo dramático, você sempre me achou emocionado, e não nego que sou. Queria que as coisas fossem simples, para variar. Enfim, foi mal, não quero encher seu saco também.
Por exercício de tamanha sabedoria, Margaret se referia a uma lista eterna de tudo que se tratava aos comportamentos do irmão mais novo, bons e ruins, e que a ajudaria a anunciar os mais assertivos para determinada situação. Raramente falhava, acertando-o nos nervos que proporcionariam automaticamente um mal-estar entre ambos. Não sentiu como uma grande estúpida pela resposta dele, mas sim como se ele tivesse acessado às suas memórias ao ter refletido minimamente sobre os pais que não estavam mais vivos. O que começara com Claire parecia ter findado com a partida para o além de Joseph e ela sentia muitíssimo alívio com aquilo. Não pelo fato de que agora assumia o clã dos Fraser, mas porque os episódios traumatizantes que ainda arranhavam a parte mais funda do seu cérebro, comprimidos por uma série de outros traumas que tratara de tomar as próprias providências, justamente por ter um orgulho maior que qualquer parte da Escócia, moviam uma raiva silente. E aquela raiva a impedia de aceitar ficar por baixo, principalmente na estrutura de clãs. Miseravelmente, acabara provocando muito contra ela mesma, devido ao defeito soberbo de querer ser melhor que todos e de querer provar pontos. Um bico desconfortável moldou seus lábios, seguido de um estalido da língua de insatisfação, apenas pela lembrança ter se tornado um tantinho mais corpórea. Pela lógica, achou mais sensato focar no desabafo atropelado de William, enquanto observava a movimentação de enfermeiras, checando as incubadoras. Seu olhar já sabia localizar perfeitamente a sobrinha, que continuava quietinha, sem saber que do outro lado do vidro residia uma crise sobre sua existência. - Não digo mentir, mas omitir, sim. - confessou Margaret. Seria surreal se concordasse com aquele ponto para alimentar seu ego, mas viveram nos Fraser. Compartilharam uma dinâmica que os obrigara a criar defesas. Automaticamente, criar os próprios macetes que funcionavam sob estado de sigilo. - Podemos começar com seu relacionamento com Georgia, o que não nos traz lembranças admiráveis. Eu tive que ir a fundo para saber o que o deixava tão inquieto, de um jeito diferente da dita cuja que não deve ser nomeada. Quando soube onde você estava no Natal em que acabou expulso de casa, bom, me admira que nenhum Mackenzie tivesse descoberto antes. - Margaret não entraria em detalhes sobre ter perseguido o rastro de William para saber onde ele se metera naquela noite caótica. Desde aquela época, tinha suas fontes, que se tornaram imprescindíveis para assumir o posto atual. Era quase como se compartilhasse a mesma agenda de mercenários de Malcolm, resolvendo o mistério em curto espaço de tempo e que ainda pulsava como a referência sobre como passara a ser tratada por Joseph nos dias, semanas e meses posteriores da debandada do favorito. Criando uma ferida de mágoa profunda pelo rapaz ao seu lado. Ela deslizou os dedos pela franja, como se não se importasse com o viés da conversa em torno do "falecido". - Há uma palavra mágica nessa sentença e ela é referência. Pela falta de uma boa, você precisa encontrar seu próprio modelo. Ou criar um. Basicamente a regra de uma mãe tendo que se espelhar em outras mães boas para conseguir ser uma mãe melhor que a que teve. Parece uma explicação esdrúxula, mas é a única coisa que você pode começar a fazer. - ela explanou, virando-se minimamente para ele de novo. - Pelo que vi no chá de bebê, a quantidade de homens ao redor deve servir de alguma coisa. Quem sabe, você precisa começar do zero. Imagino que seja impossível se desvencilhar, parece normal ter essa primeira aflição que move um ponto sensível, mas, William, se você fosse um fio de Joseph, Georgia já teria te enviado a dez palmos da terra. - e dizia aquilo por ter tido um preview dos ânimos da namorada do seu irmão. Era um ânimo Mackenzie, que poderia se tornar ainda pior se tivesse sido moldado dentro do cerne familiar. Claro que se dissesse aquilo soaria ofensivo, não tinha como, mas considerando que Nicholas Mackenzie dividia o mesmo DNA que Georgia, aquele clã só não contara com dois malucos por falta de
oportunidade. - Sim, você sempre foi emocionado. E sempre encheu o saco de uma maneira peculiar, elevando as coisas a uma altura desnecessária! Ser negativo não vai trazer conforto. - ela murmurou a última frase, como se tivesse intenção de poupar a audição do ex-corvino. Sorriu, com diminuto deleite do esculhambamento do Fraser. - Queria ter um emocional maior que uma colher de chá para confortá-lo como claramente precisa, mas meu lado cirúrgico diz que você precisa descansar e esperar. Nada vai acontecer com a sua filha. Ela tem sangue escocês. Vai resistir! - ao contrário de William, Margaret ainda permanecia enraizada dos pés à cabeça com sua adoração pela Escócia. O que a fez rir minimamente à menção de Duncan Mackenzie, um aliado do pior jeito difamatório possível. Ainda tinha emoções mistas pelos clãs, mas poderia ser mais deselegante em dizer que Claire tinha no DNA dois tipos de sangue de barata. - Ela já tem segundo nome de Ministra. Eleanor. Muito mais bonito que Claire. - ela disse de pirraça e realmente para o bel-prazer de desprezar o nome da progenitora. - Para se sentir útil, cuide dos presentes que dei. Obviamente que coloquei as instruções, pois sei que você não assimilou nem metade do que eu disse. - e por nunca ter sabido das condições do irmão, ela se irritava o tempo todo de ter que repetir as coisas. Conforme entendia, nos tempos que ainda era capaz de ouvir Claire, conseguia ser mais delicada, mais atenciosa. Uma versão sua que parecia uma espécie de delírio. Tudo que ficara era a mesma sensação que compartilhava sobre a mãe e o pai: que William nunca se importara com o que ela tinha a dizer. - Mas funciona se você acredita. E o teste da moeda pode ser feito quando Eleanor estiver bem e saudável. Não me vá já descer e enfiar a moeda na mão da menina. - ela revirou os olhos, como se pudesse vê-lo fazer realmente aquilo. - A sua querida mãe disse que eu deixei a moeda cair. Eu não estava quando foi sua vez. - ela contou, com um breve sorriso desgostoso. - Deve ter sido aí que o falecido resolveu me tratar como uma espécie de sinistro, mas já era assim por eu ter nascido mulher. Capaz que você tenha segurado a moeda firme, apenas para alimentar falsas esperanças. - ela deu de ombros, pois, de fato, o lance da moeda não importava mais para medir a miséria que os Fraser, de maneira geral, se entregaram com o passar dos séculos. Sem nenhuma administração adequada, o que a deixava com um tanto de indignação por saber o quanto os Mackenzie, e até mesmo os Munro, eram impecáveis naquele quesito. - Se vale de algo também, vamos pensar que Georgia passa bem. Está confortável. O que deveria influenciar em você se dar um pouco de desconto e não acreditar que pode ultrapassar o vidro. - ela o empurrou delicadamente para trás, pois parecia que o objetivo dele era testar se era o homem invisível. - Aliás, você sabe que eu jamais ficaria na sua casa. Questão de princípios. No entanto, se você quiser jantar, eu posso cumprir esse gesto de caridade. Pela necessidade de te tirar daqui. - ela tirou as luvas e as colocou dentro do bolso do casaco. - Mas, antes, o que realmente te incomoda sobre a ideia de espelhar Joseph? Sei que há assuntos geracionais, que podem ser capturados com períodos de terapia, mas sério que esse é seu medo irracional? Sei que soo mesquinha, mas você nunca teve nada a ver com ele. Você foi criado pela mãe. O que me faz dizer que você tem energia feminina e imagino que vá me devolver a carta dos seus rompantes de raiva, mas isso foi resultado do falecido. O resultados podem ser alterados, como um tratamento, que imagino que faça. O que já te tira dessa ilusão ordinária.













