e o coração, como anda?
Batendo, né. O sangue continua sendo bombeado, ainda tô viva e o calor do meu corpo tá muito bem preservado, então acho que os batimentos tão O.K.
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@ambermargaery
e o coração, como anda?
Batendo, né. O sangue continua sendo bombeado, ainda tô viva e o calor do meu corpo tá muito bem preservado, então acho que os batimentos tão O.K.
Vc sofre muito preconceito por ser mestiça na sonserina?
Olha... Já foi pior, nos primeiros anos. Acho que pararam de tentar depois que perceberam que eu não estou nem aí pro que falam. Não tem graça chutar um cachorro que ri da sua cara, então depois de um tempo me deixaram em paz.
quais são seus planos para depois de hogwarts?
Entrar na W.A.D.A se Merlin quiser. Dançar é a única coisa que consigo me ver fazendo.
fale um pouco sobre sua família
Bom, mamãe ainda é a mesma né. Meio chata daquele jeito, adora pegar no meu pé e me questionar, mas tá lá. Jake ainda é bem parecido com ela nisso de pegar no meu pé, e Timmy é o único que realmente me entende. Mas ultimamente esses dois decidiram me esquecer, então ou estão felizes por não precisarmos mais conviver, ou estão aprontando alguma coisa.
theofawcett:
É claro que sou eu. Quem mais é tão estúpido a ponto de chegar perto de você assim?
Ah, seu maior entretenimento com certeza é olhar para o meu rostinho bonito todos os dias. Quer coisa melhor do que isso? Mas não, eu também vim falar sobre aquele trabalho de Defesa Contra as Artes das Trevas que temos para terminar. Não é incrível como até mesmo os professores estão trabalhando para nos colocarem juntos?
Realmente, ninguém. Já virei pronta pra descer a mão na cara do sujeito. Na verdade ainda estou considerando.
Meu maior entretenimento na verdade é assistir o papel de trouxa que você se presta a fazer, mas acredite no que quiser. Ah sim, claro. Até eles estão trabalhando é para a minha tortura, você quer dizer. Mas vamos falar disso logo, quanto mais rápido terminarmos melhor.
@ambermargaery
Olha só se não é a garota mais bonita de toda Hogwarts. Você não se importa se eu sentar aqui, certo?
É claro que não.
Mas o q- ah, é você. Eu devia ter imaginado. Bom, já sentou né. E então, como veio entreter a minha presença hoje?
“we take the deal. and i stay behind. it has to be me. i’ll take her place and then you can be set free.”
[Plot Twist] Everyone gets a miracle. | Theo & Amber
Tudo bem, até Theodore mesmo admitia que, quando queria de verdade, ele conseguia ser um grande irritante, então, de certa forma, ele conseguia entender os motivos pelos quais Amber se estressava tanto quando os dois estavam juntos. A forma como ele insistia, como falava com a garota, as brincadeiras sem a menor graça; tudo isso apenas contribuía para quê as coisas entre eles estivessem sempre a ponto de explodir. Theo poderia pensar em uma piada sobre aquele pensamento, mas era melhor deixar aquilo quieto, ou então poderia acabar se arrependendo daquilo mais tarde. “Isso poderia muito bem virar uma apostar, Amber. É só me permitir conviver mais com você, que eu posso facilmente provar que aguento a sua personalidade melhor do que qualquer outra pessoa na sua vida. Não é difícil, aposto.” O sorriso travesso em seu rosto era praticamente incontrolável. Quando se dava por conta, suas feições se modificavam para sustentar um sorriso bobo ou coisa parecida enquanto fitava Amber, independente de ela estar lhe olhando de volta ou não. Era automático. Sabia que aquela proposta de uma aposta entre eles poderia tirá-la do sério, mas também não se conteve. Era sempre assim entre os dois, sempre haveria uma resposta afiada, rápida, que poderia levá-los a ficar conversando por horas, até terminar com uma Amber irritada, falando algo bastante ofensivo para o garoto, que apenas dava de ombros, sem se importar muito com os comentários.
“Pode até não ser, mas não pode fingir que não gosta dessa ideia de ser admirada.” Ele riu, aproveitando que a garota ainda não havia realmente perdido a paciência e partido para alguma agressão física. A situação ali estava razoavelmente tranquila, poderia assim dizer. Ele achava que poderia ter algo a ver com o clima do Festival, que parecia tão alegre que estava afetando até mesmo a garota, mas também, não falara nenhuma mentira, ela realmente parecia gostar da atenção que recebia por parte dos garotos, algo que, pessoalmente, incomodava Theodore.
Apesar da decepção que sentira ao vê-la se afastando, foi fácil retornar ao seu estado de animação quando a viu olhar para trás e aprovar que ele a seguisse. Foi como um estalo. Com certeza nada além de ter Amber lhe chamando poderia motivá-lo mais. E melhor ainda: ela parecia estar apreciando de verdade sua companhia. Não que a garota demonstrasse aquilo com toda a clareza do mundo, mas havia algo em seus olhos, a forma como rira, e como se colocara para andar ao lado de Theo, e não a sua frente… Tudo aquilo fazia o garoto perceber que as coisas que ele fazia valiam a pena, que havia uma ínfima e minúscula chance de conquistá-la, era verdade, mas que não poderia perder a sua enorme esperança de cor verde berrante de que aquilo poderia acontecer. Sentia que ninguém no mundo estaria tão disposto a fazer algo por aquela garota da mesma forma como ele estava. Poderia parecer loucura se falasse em voz alta, mas era verdade. Não havia nada que estivesse a seu alcance e que ele não faria por ela. “Eu te disse, minha insistência um dia serviria para alguma coisa. E como você está me dando uma chance, prometo me esforçar totalmente para manter uma conversa interes-”. No entanto, a pergunta seguinte de Amber cortou a sua frase, e a voz dela parecia tensa, o que fez com que Theo parasse também, um passo apenas de distância dela, e escutasse com mais atenção o que estava ao seu redor. No momento em que olhou para trás, procurando a origem do grito que ouvira, uma explosão ocorrera num beco poucos metros distante deles, e seus nervos simplesmente entraram em completo alerta com o susto que levara.
Depois daquilo, nuvens de fumaça negra começaram a se espalhar por todos os cantos, subindo ao céu de forma assustadora. Explosões ocorriam aqui e ali, mas o mais apavorante eram os gritos, cortando o ar, enchendo seus ouvidos, ecoando nas paredes dos estabelecimentos antigos do vilarejo de Hogsmeade. O pânico se instaurou, as pessoas começando a correr de um lado para o outro, apavoradas, e a primeira reação de Theodore fora agarrar firmemente a mão de Amber para que os dois pudessem sair dali juntos. Jamais a deixaria para trás. Não sabia como ela reagiria, mas tampouco era algo com o que ele iria se preocupar no momento. Quando seus dedos se entrelaçaram, os dois trocaram um olhar, pela primeira vez de forma séria, em todos aqueles anos, e o garoto gritou, tentando se fazer ouvir em meio ao caos ao seu redor: “Let’s get out of here!”
Amber sempre se considerara uma garota corajosa. Nunca fugira de uma briga quando era preciso brigar, sempre gostara de enfrentar seus medos e os de outras pessoas, sempre tivera uma inclinação a fazer coisas que poderiam ser consideradas estúpidas apenas para provar, acima de tudo para se mesma, que não tinha medo de nada. Era uma de suas características mais fortes, aquela vontade de se provar, de ser alguém digna de admiração, mas durante os dezesseis anos de sua curta vida aquele tipo de comportamento apenas lhe rendera olhares incrédulos e muitos machucados por todo o corpo. Mas ela não pretendia e nem se sentia inclinada a mudar essa forma de agir, e depois de tantos anos se comportando daquela forma acabara acreditando que realmente não tinha medo de nada, que poderia enfrentar qualquer coisa. Afinal, não era qualquer um que andava tranquilamente pela Floresta Proibida ou pela Casa dos Gritos sem se preocupar em esbarrar com alguma criatura mágica bizarra ou um fantasma assustador. Ela sempre se considerara especial por isso, mas naquele momento percebia que seus mais profundos esforços de nada adiantaram para que ela se tornasse completamente imune às garras do medo. Na verdade, talvez eles apenas a tivessem enfraquecido, visto que se ela se tivesse permitido sentir medo como qualquer pessoa normal, talvez soubesse ou entendesse como alguém reagia em uma situação de medo. Era a lei do correr ou lutar, mas naquele momento ela ignorou qualquer uma dessas coisas para ficar completamente paralisada.
Ela não entendia como aquilo ousara acontecer. Se fosse perguntada sobre isso mais tarde, jamais se permitiria admitir, mas estava tendo uma tarde perfeita. Estava em um ótimo humor e, apesar de o Festival não oferecer nada que realmente a divertisse ou prendesse sua atenção, precisava admitir pelo menos para si mesma que a companhia de Theodore Price a estava divertindo de uma forma que jamais imaginara que aconteceria, e aquilo era facilmente notável nas respostas fáceis que ela lhe dava. – Se é uma aposta que você quer, então teremos uma. – brincara, descontraidamente. Não que nunca se divertisse nem um pouco na companhia do rapaz. Na verdade, divertia-se mais do que ousava admitir, porém na maior parte das vezes acabava por se irritar também. Mas naquele dia estava unicamente de bom humor, por isso não viu problemas em continuar falando com ele, mesmo que internamente temesse o que ele poderia entender disso. E por mais incrível que pudesse parecer, estava gostando daquele momento. Daquela conversa, de tudo. Estava realmente aproveitando a companhia de Theo de uma forma que jamais acreditara que viesse a fazer, e aquilo a deixava com um comichão que não fazia ideia de onde vinha. Era estranho e novo para ela aquele sentimento, mas ela não queria que parasse. Ele estava certo, afinal de contas. Ela gostava de ser admirada, nunca negara isso, mas havia algo em sua admiração em especial que a fazia se sentir estranhamente bem consigo mesma. Amber já era confiante de natureza, às vezes até de forma exagerada, mas aquela admiração que ele lhe dispensava mesmo conhecendo seu pior lado era notável, mesmo para ela, que estava acostumada a ser admirada.
Porém, nem mesmo aquele sentimento fora o suficiente para impedir que ela fosse dominada pelo medo ao ouvir aquela explosão. Todo o seu corpo adormeceu, e ela parecia estar observando tudo pelos olhos de outra pessoa. Os gritos, as nuvens de fumaça negra subindo para o céu, a correria das pessoas que tentavam correr do que quer que aquilo fosse, tudo era como se fosse um filme passando diante de seus olhos, um cenário que ela apenas assistia, não necessariamente participava. Mas aquilo não era verdade. A verdade era que a mais nova dos Kravitz estava ali, em carne e osso, mas era como se seu espírito corajoso tivesse deixado seu corpo no momento em que ela mais precisava dele ali.
Amber sempre se considerara uma garota corajosa, mas naquele momento ela estava completamente dominada pelo pânico.
Sabia que precisava se mover, sair dali como as outras pessoas faziam, mas não conseguia sequer encontrar suas pernas para fazê-las se moverem. Mais tarde sentiria muita vergonha de si mesma por ter paralisado daquela forma, mas naquele momento não conseguia pensar em absolutamente nada. A única coisa que foi capaz de acordá-la naquele momento foi a mão de Theodore na sua, fazendo com que ela desse um sobressalto ao entender o que ele fazia. Porém, estava apavorada demais para pensar naquilo, e sabia que ele podia ver aquilo em seus olhos. Ela nunca gostara que as pessoas soubessem de suas fraquezas, mas pela primeira vez não se importou. Deixou que os olhos verdes de Theo, mesmo também arregalados com o susto, a dissessem que ia ficar tudo bem. Deixou que ele a conduzisse pela mão para longe daquela confusão, pois sabia que sozinha não conseguiria. Deixou que o sentimento de que só estaria segura se ficasse ao lado dele a invadisse, mesmo sabendo que mais tarde se bateria por isso. Ela apenas deixou, pois não lhe restava muito mais a fazer.
Porém, ainda estava muito atordoada pelos sons que a cercavam, por isso acabou por tropeçar em uma falha no meio da rua. Involuntariamente soltou a mão de Theodore e caiu pesadamente no chão, sentindo o crack que indicava que seu pulso esquerdo recebera quase sozinho o impacto da queda. – Shit. – Olhou e percebeu ambos os joelhos arranhados, e tentou se levantar para voltar a correr, porém não conseguiu sequer sair do chão, pois ao tentar apoiar-se com o pulso quebrado enviou uma onda de dor por todo o seu braço que enviou estrelas para a sua visão. Não olhou para cima pra ver se Theodore já tinha conseguido chegar a algum lugar seguro, mas esperava que sim. Ele não precisava se machucar só porque ela era um completo desastre. Não era justo, pensou ela, enquanto tentava mais uma vez se levantar.
It was like a time bomb set into motion, we knew that we were destined to explode || Krice
Nunca fora fácil para Amber Kravitz admitir que estivera errada. Desde pequena a teimosia fora sua principal característica, e ela se orgulhava disso. Era simplesmente quem ela era. Jake era o inteligente, Timmy o charmoso, Amber a teimosa, sempre fora assim. Ela sabia que aquela característica tinha consequências boas e ruins, mas mantinha-se daquela forma até o fim e lidava com ambos os casos. Quando era pequena e inventara de aprender a andar de bicicleta, teimava em voltar para cima da bicicleta mesmo quando já tinha sofrido várias quedas e estava toda arranhada e sangrando. Quando brigava com a mãe por qualquer motivo besta, gritava e escandalizava para quem quisesse ouvir, sempre na crença de que estava certa, mesmo que no fundo soubesse não estar e mais tarde se sentisse arrependida por ter gritado. Aquela era quem era ela, e não se arrependia, afinal aquilo também era a mais pura forma de teimosia. Não mudaria quem era apenas porque as pessoas não se sentiam agradadas por aquele fato.
Porém, depois de dezesseis anos brigando contra Deus e o mundo apenas para não mudar uma única opinião, Amber finalmente se via diante de uma encruzilhada que não sabia como superar. Theodore Price era, com toda a certeza, a maior contradição de sua vida. Ela o conhecia desde que pisara em Hogwarts pela primeira vez. Fora a primeira pessoa com quem falara, antes mesmo de fazer amizade com Mina, e também a primeira pessoa que a irritara profundamente ali. Mas faziam uma boa dupla nas aulas, tinha que admitir. Sempre fizeram, mesmo que nunca o tivesse dito isso. Ele já era iludido por si só, se admitisse algo como aquilo ele nunca mais sairia de seu pé. Na verdade tinha a impressão de que ele não o faria mesmo sem isso. Por isso ela o afastava com vigor, por mais que tivesse curiosidade de conhecê-lo melhor às vezes, sabia que o estava conhecendo de qualquer forma. Mesmo quando não estava nem um pouco afim de falar com ele acabava o fazendo e assim podia dizer, para qualquer um que perguntasse, que o conhecia. Porém algo havia mudado naquele Festival. Sabia que havia se segurado a ele como se fosse seu único porto seguro e que, naquele momento ele fora mesmo, e aquilo a assustava muito. Mas ela precisava tomar uma atitude quanto a isso. Quando conversaram depois daquilo fora extremamente rude, e aquilo não fora justo com ele. Estava na hora de Amber Kravitz deixar de lado sua teimosia e admitir algumas coisas sobre si.
A primeira delas: ela era grata por tê-lo ao seu lado no momento mais assustador de sua vida. Se não fosse por Theo, não sabia o que teria feito naquele momento. Sempre se julgara corajosa, mas o pânico que sentira naquele momento o dissera o completo oposto, porém ter o Price com ela havia mudado completamente a perspectiva das coisas. A segunda: ela não fora justa com ele durante todos aqueles anos. Era rude e muitas vezes extremamente desagradável a preço de nada, simplesmente porque achava que era a coisa certa a se fazer, mesmo sabendo que não era. A terceira: ela estivera errada todo esse tempo. Acreditava em sentimentos, acreditava que uma pessoa podia gostar da outra assim como acreditava que o próprio Theo poderia sentir algo por ela, por mais chata e desagradável que ela tivesse sido com ele durante aqueles anos. Ela sempre acreditara, mas pensava que tratando-o mal acabaria mudando sua opinião, porém isso pareceu surtir o efeito contrário. A quarta: ela estava cansada de ficar apenas o afastando, essa sensação começara pouco antes do Festival e só aumentava, até chegar ao seu ápice naquele ataque. E é claro, a quinta e última coisa, que talvez fosse a mais difícil de se admitir: ela talvez também tivesse sentimentos por ele. Aquilo era difícil, e apenas dizer em seus pensamentos já era difícil, mas ela precisava dizê-lo. Se mantivesse dentro de si era capaz de explodir. Por isso ela o procurava por Hogwarts, mas sem pressa. Doía admitir, mas estava nervosa com aquele fato. E Amber nunca ficava nervosa. Com certeza devia estar ficando maluca.
Sofia Black-D'elia photographed by Tess Steinkolk (HQ)
Something has changed || Krice {SMALL PARA}
Theodore raramente perdia o seu bom humor. Algumas vezes já havia ouvido pessoas dizendo que ele era irresponsável, que deveria começar a levar as coisas mais sério e não sempre na brincadeira, como fazia, mas aquela era a sua forma de ver a vida e o garoto não conseguiria simplesmente mudar a forma como se portava assim. Sem falar que suas brincadeiras, mesmo que em horas inoportunas, não lhe impediam de ver os assuntos importantes com a seriedade que lhe era exigida. Theo sabia quando deveria se preocupar, quando deveria deixar sua imaturidade de lado e não fazer alguma piada de mal gosto com algum assunto que ele julgaria pouco interessante se fosse em qualquer outro momento. Apesar de tudo, o garoto não era totalmente irresponsável. Ele apenas achava que haviam momentos e momentos. Haviam os momentos que exigiam dele um pouco mais de leveza, uma risada aqui, outra ali, e haviam os momentos que exigiam sua concentração e seriedade, e ele não via aquilo como algo impossível, ao contrário do que as pessoas achavam.
Uma das coisas que ele tratava com a maior seriedade possível, era seus sentimentos por Amber Kravitz. Poderia não demonstrar o quanto levava aquilo a sério, ela poderia até mesmo achar que ele era apenas um garotinho ingênuo com pensamentos idiotas e que fazia tudo o que ele fazia apenas por diversão, mas não era bem assim. Em alguns momentos, mais especificamente em momentos como aquele, Theodore desejava que fosse assim tão simples. Desejava que uma brincadeira a parte resultasse em Amber sumindo de seus pensamentos de uma vez por todas, mas ele sabia que não funcionava daquela forma. Naquele dia, no entanto, o jovem Price estava tentando realmente manter-se calmo, mas seus pensamentos estavam a toda velocidade, enchendo sua mente de hipóteses, paranoias, coisas que o atormentavam. Quando ouviu a voz de Amber ao seu lado novamente, respirou fundo, largou a pena que utilizava em cima do pergaminho em que estava escrevendo, e se virou para a garota, devagar, em momento algum o sorriso costumeiro aparecendo em seu rosto. Ele estava, definitivamente, levando aquilo a sério. “Bem, essa é uma novidade. Geralmente sou eu o primeiro a puxar assunto com você. Como as coisas mudam de figura quando você está entediada, não é mesmo?” Retrucou, seu tom de voz alfinetando a garota enquanto falava. Detestava ser rude com ela, tanto é que raramente perdia sua paciência com Amber, mas naquele dia, toda vez que perdia a concentração, lembrava-se dela aos risos com seu ex-namorado mais cedo, e então uma estranha raiva preenchia seu peito. Era uma sensação desconfortável, para dizer o mínimo. “Ou poderiam deduzir que tive de aguentar seu mau humor por mais uma aula… Mas não teriam como dizer isso, já que hoje particularmente você parece estar bastante animada. Nunca pensei que fosse viver para ver o dia de hoje.” A ironia era totalmente óbvia, e por mais que aquilo incomodasse Theodore, ele não conseguia evitar.
Amber nunca admitiria, mas no fundo sabia que sua dificuldade em gostar das pessoas se dava por conta de seus pais. Mesmo que atualmente sua mãe tivesse encontrado um novo motivo para sorrir e parecesse estar particularmente feliz como estava, ela sabia que durante muito tempo a mulher havia sofrido por conta da partida do homem que um dia amara, e a menina não conseguia suportar sequer pensar naquilo. Ela sempre tivera plena certeza de que as pessoas decepcionavam umas as outras, quanto aquilo não tinha nenhuma dúvida. Ela mesma decepcionava a si mesma quando não era capaz de tirar uma nota alta o suficiente ou aprender determinada música no piano em um certo tempo estipulado por ela própria, então só poderia deduzir que a decepção causada por outras pessoas tendia a ser cada vez maior quanto mais se permitisse gostar delas, por isso tentava apenas não gostar, mantendo o máximo de distância possível delas. Porém, é claro, nem sempre aquilo era possível. Ela tinha suas amigas e adorava a companhia delas do fundo de seu coração, e também tivera dois namorados no passado, mas um deles apenas servira para fundamentar sua teoria: pessoas decepcionam umas as outras, e ela afastara o outro antes que ele também o fizesse, mesmo que tivessem mantido um relacionamento amigável a partir de então. Mas essas foram as poucas pessoas que ela deixara ver por detrás de suas paredes além de sua mãe e seus irmãos, e sabia que as chances de aquilo voltar eram quase nulas.
Por isso afastava Theodore com todas as suas forças. Sabia que ele era um bom garoto e jamais faria mal a uma mosca de propósito, mas ela não o conhecia bem o suficiente para ter certeza. Não podia negar que o garoto era bonito, e isso era sempre vira bastante claramente, desde seu sorriso brincalhão até os olhos azuis e a linha de seus ombros eram bonitos, e aquilo só tornava as coisas ainda mais difíceis porque Amber simplesmente não podia resistir a um rosto bonito, mas ela tinha que fazê-lo. Estava tudo bem ficar com alguns garotos de vez em quando, mas Theodore queria algo muito além do que ela podia oferecer, ele claramente era o tipo de menino que queria um relacionamento e uma garota inteira, e ela não era uma garota inteira. Ela era vários pedacinhos construindo uma única menina, porém com pedaços grandes e irremediáveis faltando, e um deles era a capacidade de gostar de alguém daquela forma. Não seria justo com ele se ela o desse uma chance para depois apenas o desprezar, assim como não seria justo consigo mesma mais uma vez acreditar que um garoto poderia fazê-la sentir alguma coisa e acabar se iludindo no final. Ela não queria aquilo, por isso não podia ceder, mas também não podia negar que achava divertidos os momentos que passavam juntos. Tudo bem que no final acabava por se irritar e dar-lhe respostas rudes, porém aquela era Amber Kravitz, mudava seu humor da água para o vinho em um piscar de olhos e nem sequer se dava conta disso, mas quando o dia acabava e ela se lembrava da conversa que tivera com Theodore naquele dia, sempre acabava por sorrir. Ele tinha o dom de dizer coisas estranhas que a tiravam do sério, mas seu humor não podia deixar de ser contagiante, mesmo ela sabendo que aquilo tudo não era sério. Ele sabia que a irritação dela não era pra valer e ela sabia que ele não falava sério quando dizia aquelas coisas de sentimentos. Apesar de não parecer, tudo aquilo não passava de uma espécie de brincadeira estranha e diária entre os dois, ou pelo menos era nisso que acreditava até aquele dia. – Eu não estou entediada, Theodore, eu só... É isso que... – “é isso que nós dois fazemos todos os dias, não é? Você vem com seu humor bacana, eu te dou umas patadas, e é assim, todos os dias.” ela quase disse, mas não continuou, chegando a conclusão de que aquilo não ajudaria em nada. Ela realmente não tinha palavras para responder àquela acusação, e não conseguia entender porque o tom do garoto a estava deixando tão incomodada e minando todo o seu bom humor justamente quando ela estava com uma grande reserva deste. Droga, Price, ela quase praguejou, mas aquilo apenas pioraria aquela situação que já estava além de esquisita. – Okay... What the fuck is going on here? – perguntou, a tensão daquele momento a matando por dentro. Realmente não estava nos seus planos se irritar naquele dia, mas Theodore Price conseguira com algumas palavras estragar o bom dia que ela estava tendo.
[Flashback] First fun. And then, who knows | Aloysius & Amber | January 77
Ser criado entre os De Fol’e havia afetado Aloysius e sua forma de pensar. Ele não era aficionado pela ideologia purista como seus demais colegas, mas tinha paixão pelo poder, independente de onde este viesse. O poder de sua família vinha pelo dinheiro. Eles não ligavam para seu status sanguíneo, porém, permaneciam sempre inseridos no meio das famílias tradicionais bruxas porque elas sabiam que os De Fol’e tinham muito a oferecer. No entanto, apesar de sua ideologia e de seus colegas ser diferente, todos eles tinham algo incomum: aquela sede descontrolada por poder e um convencimento de que eram melhores do que todos os outros alunos, do que as outras casas de Hogwarts, do que as outras famílias, do que as pessoas que não tinham a pureza no sangue, ou o cofre no Gringotes abarrotado de moedas de ouro que reluziam até mesmo no escuro.
Era assim que funcionava com a maioria de seus colegas quando chegara a Hogwarts, por isso a falta de confiança um no outro não poderia ser uma surpresa. Muitos já se detestavam desde muito cedo, por causa de encontros entre suas famílias, mas até que algumas alianças poderiam ser formadas naquela confusão toda. Fora o que acontecera com ele e Max Wilkes. Alo tinha objetivos traçados para o seu futuro e não media esforços para conseguir o que desejava. Max também compartilhava daquelas características, além de os dois terem um certo gosto por não seguirem regras, o que acabara por lhes aproximar, de certa forma. Aloysius apenas se deixava relaxar um pouco na presença do jovem Wilkes, com as outras pessoas ele costumava ter sempre um ou os dois pés atrás, desconfiado de qualquer passo, qualquer palavra, mesmo que não demonstrasse isso. E mesmo com as garotas com que se relacionava, o tratamento era o mesmo.
No entanto, sempre havia uma pessoa ou outra que acabava lhe surpreendendo. E fora exatamente aquilo que acontecera com Amber Kravitz. Desde que a garota entrara em Hogwarts, um ano depois dele, notara a personalidade diferente dela. Mesmo pequena, ela era cheia de si, fazendo com que poucos fossem os que não a observavam. Não costumava dar muita atenção aos garotos que se atiravam para cima dela e ainda assim sabia o quanto chamava a atenção, apesar de ter dois irmãos mais velhos que pareciam ser muito protetores em relação a garota, e isso Alo já percebera, mesmo que não fizesse a menor diferença para ele.
Max não se surpreendera quando Aloysius acabara por ir atrás de Amber. Há um tempo observava a garota e tentava se decidir se valeria a pena ou não se envolver com ela, se não seria uma simples perda de tempo e o que ele menos gostava era de perder tempo. Não sabia se a garota aceitaria bem aquela aproximação ou acharia que ele era apenas mais um garoto estúpido da Slytherin, e Alo realmente odiava ser comparado com qualquer pessoa, ainda mais com alguns colegas seus que não faziam absurdamente nenhuma diferença no mundo, mas, ainda assim, precisava arriscar. Não costumava desistir e nem ficar apenas no “e se?”.
Porém, quando chegou perto de Amber e a questionou, ele não sabia bem porquê, ela aceitou sair em um encontro com ele. Alo evitou se mostrar surpreso e esboçou apenas um sorriso de malícia depois de combinar de se encontrar com a garota no dia seguinte nos jardins de Hogwarts, para acompanharem o restante dos alunos em mais uma visita a Hogsmeade, a segunda daquele ano letivo Não era muito fã do vilarejo e nem de ter a companhia de muitas pessoas, mas sabia que poderia aproveitar algumas doses de firewhiskey no Três Vassouras ou até arriscar entrar na agora conhecida como Casa dos Gritos, que, nada mais era do que uma casa velha abandonada e que uns anos atrás passara a ser chamada daquela forma. Ele não sabia o motivo, mas achava uma grande bobagem, apesar de muitos alunos morrerem de medo de chegarem perto do local.
No dia seguinte, como combinado, seguira até os jardins, logo na saída do castelo, para esperar por Amber. Não estava nervoso e muito menos ansioso, a única coisa que realmente esperava era um pouco de diversão, algo que não estava tendo há algum tempo. Talvez a garota Kravitz fosse a sua maior chance nesses últimos dias.
O primeiro ano de Amber em Hogwarts não foi nada fácil. Ela era uma das poucas mestiças dentre uma casa baseada na dinastia puro-sangue, e não fora criada com base nas tradições bruxas. Na verdade, nem mesmo sabia da existência de magia até os seus dez anos, quando seus dois irmãos mais velhos receberam a carta da escola. A partir de então, fez de tudo para ir se habituando ao mundo bruxo, e isso só foi possível com a ajuda das corujas que trocava semanalmente com Jake. Ao ter o Chapéu Seletor sobre a sua cabeça, surpreendeu-se ao ouvir que, apesar de ter tantas personalidades em uma só, ela se encaixava mais na Sonserina que em todas as outras. Jake havia lhe dito que aquela era a casa dos malvados e Comensais da Morte, e ela não queria se tornar um. Mas, ao ter todos olhando diretamente para ela com um olhar que deixava claro que não entendiam sua presença ali, decidiu que iria honrar a decisão do Chapéu. Se ele a colocara ali era porque tinha um motivo muito forte para tal, e ela não se deixaria abalar pelas más línguas que diziam que não. Ela se levantou acima de todos – ou pelo menos, assim acreditava em seu consciente – e mostrou que podia ser tão ruim quanto aqueles mimados riquinhos de família purista, ou até pior. Xingou, azarou e até mesmo trocou socos com quem ousasse dizer qualquer coisa sobre ela, ao mesmo tempo em que tentava ser amigável e charmosa com todos, isso tudo sem jamais mudar um único traço de sua personalidade, e assim passou a ser respeitada.
Mas, é claro, havia um pequeno defeito em tudo aquilo. Ela ainda não conseguia se relacionar com garotos. Em partes por ter certo “trauma” por causa do relacionamento trágico de seus pais, que terminara com o homem abandonando a mulher e três filhos para trás, e em partes por ainda ser ligeiramente tímida por essas coisas. Aí estava talvez a única mentira que a garota contava sobre si mesma, ao afirmar que saía com quem quisesse na hora que quisesse, mas na verdade não ter lá muita coragem de fazê-lo. Ela estava com quinze anos e via todas as suas colegas saindo, namorando e dormindo com os garotos, e frustava-se consigo mesma por ser tão fraca. Sabia bem até demais que era muito bonita e poderia conseguir qualquer garoto que quisesse, até mesmo das outras casas. E é claro que os convites aconteciam, desde os mais infames até alguns bem doces, mas ela recusava a todos. É claro que aquilo contribuíra para mais uma fama que ela não planejara ter, heartbreaker, e Amber devia admitir que não era de todo ruim. Gostava que falassem dela, fosse bem ou mal, e era até interessante ver os garotos competindo para ver qual sera o primeiro a alcançar uma garota já considerada inalcançável.
É claro que ela não deixaria que fosse qualquer um. Ela não tinha muito a seu favor além de um respeito conquistado à força, por isso precisava de alguém com nome, para que todos se chocassem com a sua capacidade. E por isso foi deixando cada vez mais garotos de lado, até ter exatamente o que queria: Aloysius De Fol’e a convidara pra sair. O rapaz, além de ser filho de uma das famílias mais tradicionais do mundo bruxo, ainda era um dos mais bonitos da casa de Salazar. Tudo o que a Kravitz poderia procurar, e por isso disse sim sem pestanejar. Ela se lembrava de tudo isso com um sorriso ao mesmo tempo satisfeito e malicioso ao encaminhar-se para os jardins, onde o rapaz portador de um belo sorriso a esperaria. Estava propositalmente atrasada, apenas para se auto-proporcionar o prazer de saber que ele esperava por ela. Avistou-o antes mesmo de sair pela porta do castelo. Andou confiante até o mais velho e o cumprimentou de forma despreocupada, mesmo que por dentro seu estômago estivesse se contorcendo de ansiedade. Mais uma das qualidades em si mesma que Amber apreciava intensamente: Ela sabia esconder muito bem o que estava sentindo. - E então, vamos? - perguntou, com um sorriso de lado. Tentava conter o seu nervosismo a cada passo que dava, por isso tentaria manter uma conversa leve, para que não corresse o risco de parecer estar nervosa. - Você tem algum plano, ou vamos apenas andar sem rumo pelo vilarejo e ver onde paramos?
[Plot Twist] Everyone gets a miracle. | Theo & Amber
Theodore não era apenas um garotinho estúpido ou que não tinha nada decente na cabeça como muitas pessoas poderiam acabar pensando se olhassem para ele pela primeira vez ou ficassem sabendo de suas atitudes, muitas delas realmente consideradas infantis para sua idade. Ele também tinha a sua parcela de responsabilidade, tinha suas preocupações, ensinadas por sua mãe e seu pai que sempre se empenharam muito para que Theo crescesse na vida. Nenhum dos dois queria que o garoto passasse por dificuldades, queriam que ele pudesse fazer o que gostava, queriam que ele fosse feliz, e haviam se empenhado muito a vida toda para que aquilo se concretizasse. E a verdade era que Theo era um bom garoto. Ele tirava notas boas porque dias antes das provas finais passava horas na biblioteca estudando, mesmo que mais ninguém soubesse daquele fato. Ele tinha bons amigos e se importava com as pessoas a sua volta quase como se fossem de sua própria família. Ele tinha uma gata da raça Munchkin que ganhara de presente de seu pai certa vez, e que apelidara de Gamora, por ser fã de histórias em quadrinhos de super-heróis, o que trazia uma grande proximidade com seu pai. Theodore até mesmo seguia alguns aspectos da religião judaica da família de seu pai porque sabia que isso os agradava. No entanto, apesar de ser um garoto esperto, ele não conseguia se fazer afastar do que mais o fazia mal: Amber Kravitz.
Quer dizer, ele ainda tinha aquela coisa em mente de que Amber era muito mais do que gostava de demonstrar para as pessoas. Ela adorava se passar por malvada, tinha aquela imagem de destruidora de corações (e ela realmente destruía o coração de Theo, cada vez mais e mais, como se ele fosse meio que indestrutível), mas ele continuava a enxergando de outra forma, talvez uma forma que mais ninguém pudesse ser capaz de enxergar, uma forma que só Theo era capaz de ver e que Amber simplesmente não conseguia compreender. Era por aquele motivo que ele continuava insistindo. Não porque era estúpido, ingênuo ou infantil, não porque não tinha nada melhor para fazer do seu tempo livre ao invés de correr atrás de uma garota que só sabia pisar nele, mas sim porque ele amava aquela garota que insistia em exibir crueldade para todos os lados mesmo que, ele sabia, no fundo ela fosse diferente. Theo ainda via aquilo como uma arma, uma forma de ela não se machucar, e então insistia, porque queria mostrar a Amber que ele não era como os outros garotos, que ele faria absolutamente qualquer coisa por ela, que ele nunca iria magoá-la, de maneira nenhuma.
A verdade era que Theo mais parecia um planeta orbitando um Sol que se chamava Amber Kravitz e ele não via nenhum problema naquilo.
“Ah, eu definitivamente não me importo com o seu ego. Dizem que o que é bonito é para ser admirado, e não que eu goste que os outros te admirem da mesma forma que eu, mas bem, é inevitável, certo? Você chama atenção.” Ele deu de ombros, porque os dois sabiam que aquela era a verdade, não adiantava negar. Theo via outros garotos admirando Amber e mesmo que isso lhe tirasse do sério muitas vezes porque nenhum deles a admirava da forma como ele o fazia, não adiantava muito ficar irritado sabendo que aquilo não iria parar. O que ele deveria mesmo fazer era mostrar a ela que era melhor do que os outros, e isso ele já tentava fazer desde as primeiras conversas entre os dois. “E não sei porque seu amigo reclama tanto do seu ego, eu acho bem fácil de aguentar. Ou é como dizem, quando você gosta de uma pessoa, você acaba suportando essas pequenas coisas.” Brincou, piscando para a garota enquanto sorria. Ela não gostava de quando ele falava aquele tipo de coisa, mas Theo nunca conseguia se impedir. Quando percebia, as palavras já haviam escapado de sua boca e não havia mais como voltar atrás. No entanto, preferiu evitar de comentar que ela ficava uma gracinha quando estava sendo irônica com ele, porque sabia que aquilo sim iria irritá-la, e Amber parecia particularmente de bom humor naquele dia, era preferível mantê-la assim. Quando Amber colocou as mãos em seus ombros e se aproximou dele, dizendo seu nome, instintivamente o garoto se inclinou para frente também, e eles estavam tão próximos que podia sentir a respiração dela, que poderia simplesmente selar seus lábios aos dela ali mesmo, no meio daquela multidão toda… Mas Amber se afastou, retomando a caminhada e deixando um Theodore decepcionado parado no meio da estrada principal de Hogsmeade e com o coração surpreendentemente acelerado. Damn it, ele amava aquela garota. “Eu te seguiria para o outro lado do mundo se precisasse, Kravitz.” Disse ao se recompor do choque e voltar a segui-la pelo vilarejo, afinal, nunca que a deixaria escapar. “O que acha de uma cerveja amanteigada no Três Vassouras?”
Amber já estava se cansando daquela andança sem rumo. Sabia que uma hora aquilo viria acontecer, era sempre assim que acabava. Ela andava, andava, andava e andava até se cansar, e quando isso acontecia, ela simplesmente se sentava onde estava. Porém, aquilo geralmente acontecia com ela em forma de raposa. No meio da noite. Na Floresta Proibida. Sem outras pessoas por perto e, principalmente, sem Theodore Price em seu encalço tentando puxar assunto e flertando com ela a cada cinco segundos. Com o canto do olho, Amber se permitiu observá-lo enquanto ele parecia ligeiramente distraído, e de repente pôde ver claramente o garoto na Floresta Proibida, a lua empalidecendo ainda mais a sua pele clara e deixando um brilho ligeiramente macabro em seus olhos verdes. Ela podia até mesmo imaginá-lo olhando para ela com aquele mesmo olhar fascinado que parecia exibir toda vez que ela lhe dirigia a palavra, mas ao invés de estar olhando para a Amber de todos os dias – a adolescente despreocupada e ligeiramente rebelde com a vaidade elevada – ele estaria olhando para aquela que ela gostava de dizer ser a forma de sua alma, a pequena e esguia raposa avermelhada de pelo sedoso que pelo menos uma vez por semana corria pela floresta sem se preocupar com mais nada. Apenas Greta conhecia seu segredo, e apesar de confiar na amiga, Amber nunca planejara contá-la. Nunca planejara contar a ninguém. Porém, naquele momento, ela podia se imaginar não contando, mas mostrando a Theodore seu maior segredo. Talvez até seu único segredo de verdade. Ah Merlin, o que havia de errado com ela?
Ela precisava se concentrar em outra coisa. Precisava pensar em qualquer coisa que não fosse aquela imagem do rapaz iluminado pela luz da lua, e por isso inconscientemente aumentou a velocidade de seus passos enquanto andava. O que ela realmente queria era fugir dele, deixá-lo para trás e ir para longe dali sozinha, talvez até sua velha amiga Casa dos Gritos, ou até uma das cavernas nas montanhas ao redor do vilarejo. Porém ele não parecia disposto a ficar para trás, por maiores que fossem seus esforços para isso. Ela sabia que precisava dizer alguma coisa, algo ruim o suficiente para que ele a deixasse em paz. E o fato de saber exatamente o que dizer a deixava completamente convencida de que ela era uma pessoa horrível, por isso não conseguiu articular sua língua para dizer aquelas palavras cruéis. Era covardia, ela sabia disso, então se obrigou a calar a boca, mas logo voltou a abrir a boca, porém apenas para respondê-lo. – Você não se importa com o meu ego porque não me conhece, Theodore. Não sei se diria isso se convivesse comigo. – provocou, mas sabia que acabaria por ouvir o que não queria com aquilo. Não importava o que dissesse, o grifino sempre tinha um argumento em mãos, uma forma de rebatê-la e deixá-la sem palavras. Porém Amber era teimosa demais para admitir a derrota, mesmo em uma discussão, e continuava insistindo até que ele simplesmente não rebatesse mais. Não por ela ter ganhado a discussão, e sim por tê-lo cansado o suficiente para que ele não quisesse continuá-la. Porém ela sabia de sua própria derrota, e a verdade era que ela perdia noventa por cento das discussões com o menino, só não admitia isso nem sobre ameaça. – E eu não sou uma maldita modelo para ficar sendo admirada por você ou outros garotos, então pare de agir como se eu fosse. – disse, apenas em partes brincando.
Ela gostaria de dizer que não sentira aquilo, mas sentira. Sentira aquele momento em que colocara as mãos nos ombros de Theodore. Sentira que ele se inclinara na sua direção e sabia o que aquilo significava. Sabia que ele provavelmente a teria beijado naquele momento se ela tivesse deixado, e também sentira vontade de beijá-lo. Porém não era certo fazer aquilo com o menino, principalmente porque ela estava começando a perceber o quão legal ele era e o quanto merecia uma garota que fosse estar lá para ele o tempo todo, e claramente Amber Kravitz não era essa garota. Ela gostava de beijar, adorava, e não veria problemas em beijá-lo naquele momento, porém saber a diferença do quanto aquilo significaria para ele e o quanto significaria para ela a impedira de permitir que acontecesse. Apesar de tudo, ela tinha sentimentos, e machucar para valer o coração dele nunca estivera em seus planos. Por isso não podia se permitir fazer algo daquele gênero, por mais que seu corpo realmente desejasse. Porém, ela ainda era ela, e chegar àquela decisão não a impediu de se voltar para trás e começar a caminhar de costas para manter os olhos no do grifino. – Então siga-me se for capaz, meu fiel escudeiro Price. Tenho certeza de que está ansioso para desvendar comigo a emocionante aventura que é este vilarejo tão perigoso. – brincou, dando uma gostosa gargalhada antes de voltar a andar normalmente, desta vez ao lado dele ao invés de à frente. – Tudo bem, Theodore. Uma cerveja, porque você é muito insistente. E talvez uma segunda, se você souber manter uma conversa comigo sem se entediar ou me entediar. Eu diria até uma terceira, mas não sei se você tem tanto dinheiro assim, porque obviamente é você que vai pagar. – falou, olhando para ele com um meio sorriso. Porém, antes de começar a andar na direção do Três Vassouras ouviu algo estranho na direção do centro do vilarejo, e virou a cabeça rapidamente para ver se enxergava alguma coisa. – Isso foi... Um grito? – perguntou, torcendo com todos os seus nervos que ele simplesmente dissesse que não e que ela estava ficando louca. Amber podia perfeitamente lidar com o fato de estar ficando louca, mas a outra possibilidade fazia um arrepio percorrer sua espinha, quando mais um grito cortou a rua.