Hyun nunca foi a pessoa mais extrovertida, preferindo frequentemente a companhia de seus livros do que de pessoas. Uma das poucas exceções era Theodore Fawcett, de quem havia ficado amiga já no começo de seu tempo em Hogwarts. Era um tipo de amizade singular, onde muitas vezes os dois pareciam opostos. Onde o grifano era um turbilhão de energia, a ravina era um riacho calmo, e o segredo da amizade durar tanto tempo provavelmente estava aí. As casas diferentes e o fato de não dividirem muitas aulas juntos, em especial naquele último ano, pareciam não ter qualquer efeito que diminuísse a amizade deles. Assim, mesmo com todos os trabalhos, estudos, e por algum tempo, Libby, a jovem sempre encontrava algum tempo para passar com o amigo. Frequentemente esse tempo que passavam juntos envolvia poções, a paixão dela era algo nem um pouco compartilhado por Theo, mas ele parecia apreciar aquele tempo juntos. A última novidade de quando se encontravam era a curiosidade do grifano sobre a língua coreana. Apesar de ter sido criada na Inglaterra, costumava ir visitar os avós paternos na Coréia com certa frequência, e como essa era a língua nativa do pai, aprendeu desde cedo. Tinha algum sotaque quanto falava a língua, mas falava bem o bastante para que os avós ficassem satisfeitos. Conseguia andar sozinha pelas ruas coreanas com tranquilidade, embora a ideia não agradasse em nada seu pai, que dizia que era inadequado que uma jovem Min perambulasse sem companhia por aí. Com frequência simplesmente ignorava o conselho, e conseguia aprender novas palavras assim.
Naquele dia estavam sentados lado a lado, a garoa debruçada sobre seu caldeirão, como se pudesse encontrar algumas respostas no fundo dele. Aquele ano letivo havia trazido muitas perguntas, e poucas respostas. Quando achava que havia encontrado as respostas, rapidamente quebrava a cara. Ter Theo ao lado era de certa forma um alívio, a tagarelice dele ajudava bastante a tirar pensamentos indesejados de sua mente. Prestou bastante atenção quando o grifano começou a falar. “Caldeirão é sot, asfódelos, bem não sei. Deve ser asfódelos mesmo, sei que é assim em algumas outras línguas.” Respondeu, voltando o olhar para o amigo, e deixando as poções de lado por um tempo. A série de perguntas feitas pelo colega podia desorientar alguns, mas a jovem já havia se acostumado, achava adorável, na verdade. “Posso te ensinar muitas coisas, Theo, mas eu absolutamente não posso ser responsável por você aprender novos xingamentos.” Conseguiu dizer, após superar sua crise de risos. “Sério, eu mal uso xingamentos em inglês, quem dirá em coreano.” Completou, uma parte de si se sentindo mal por recusar o pedido do amigo. “Você pode chamar ele de babo, é como se fosse idiota, e não é exatamente um palavrão.” Disse, após ter dedicado alguns momentos para pensar mais a fundo sobre o pedido.
Theodore nunca fora muito inteligente ou estudioso, era verdade. Mas ele compensava sua falta de jeito com as disciplinas sendo esperto o suficiente para conseguir a média em suas avaliações e não ter problemas em suas notas finais. Além disso, também sabia ser um belíssimo puxa-saco dos professores certos - mesmo que esse fosse um detalhe que ele não costumava expor, afinal, não era algo que lhe trazia muito orgulho. Mesmo não sendo muito esforçado, Theo apreciava conquistar as coisas por conta própria. Mas isso também não lhe fazia ficar sentado esperando que o destino lhe desse uma mãozinha para compensar seu baixo QI. De qualquer forma, era por conta de sua inteligência abaixo da média e seu comportamento hiperativo que ele se questionava a razão pela qual sua amizade com Hyun se mantinha intacta desde o seu terceiro ano em Hogwarts. Eles eram totalmente opostos, até mesmo nas casas que frequentavam, mas ainda assim, ali estavam os dois, pessoas que ninguém poderia dizer que virariam amigos, sentados à bancada de uma sala não utilizada do castelo, testando poções - ou melhor, enquanto Hyun testava poções e Theodore ficava a sua volta, incomodando com bobagens, como sempre.
“Sot, sot, sot, sot, sot... S-o-t. Sot.” Theodore repetiu incontáveis vezes a palavra recém aprendida, tentando reproduzir o som que Hyun fizera para a pronúncia ficar igual. Repetiu tantas vezes que o som começou até a ficar esquisito em seus ouvidos. Ele riu e emitiu a pronúncia novamente, fazendo um biquinho para imitar a garota, balançando a cabeça daquele jeito que ela fazia quando achava algo engraçado. Nunca se empolgara para aprender outras línguas, mas era divertido tentar entender algumas palavras coreanas para se sentir mais próximo da amiga. “Bem, asfódelos continua sendo uma palavra engraçada, mesmo não tendo tradução.” Deu de ombros, compreensivo. Talvez asfódelos fosse uma palavra que apenas os doidos ingleses utilizassem mesmo. “Oh, come on, Hyun! Palavrões são apenas palavras normais, mas utilizadas para ofender alguém. Não tem nada de super horrível neles. E eu nem contaria a ninguém que foi você que me ensinou.” Seu tom de voz era reclamão, como uma criança fazendo birra por não ganhar o que queria. “Tudo bem, eu aceito isso. Mas você vai ter que conviver para o resto da vida com o fato de que vai me fazer perder uma discussão com o Pacey porque não tenho palavrões suficientes para usar contra ele.” Concluiu, cruzando seus braços depois de se empoleirar no banco alto para enxergar melhor o que Hyun colocava dentro do caldeirão que fumegava. “E isso que você está fazendo aí, para o que serve? O cheiro não é nada agradável.”