Augusto observou a mudança no comportamento da garota na primeira frase que ele tinha dito, olhando para ela com um sorriso cínico nos lábios sem se importar com aquilo, até gostando. Sentiu a aproximação dela ouvindo a frase em seguida em um tom sério, o que fez ele sorrir ainda mais. Sabia que muitas vezes as pessoas só aparentavam ser um livro aberto ou despreocupadas, e que na verdade para muitas coisas não eram nem perto disso. Ele sabia, afinal ele era uma dessa pessoas muitas vezes. Deu de ombros cruzando os braços - Relaxa, loirinha. Seu segredo está seguro comigo. - sorriu de lado passando a garrafa de bebida próxima a ela e dando mais um gole da vodka. - E não sou de ficar vasculhando vida de ninguém. Não me interessa. - falou mas ainda com seu sorriso debochado no rosto. Vinicius era desorganizado em todos os lugares menos na cozinha, separava tudo antecipadamente na ordem e medidas adequadas para o prato final. Lavou as mãos, modelando a carne para o formato do hambúrguer e o recheando quando viu pelo canto do olho ela roubar um pedaço do queijo o fazendo suspirar baixo. Não era algo que o irritava normalmente, porém Analu tinha o pego num dia e hora especial. - Vai ficar menos para o hambúrguer. Não vá reclamar. - falou com um tom irônico mas já acrescentando as fatias que ela tinha roubado no montinho. - Analu mesmo? Ou Ana Luíza? - olhou para ela ao seu lado curioso, porém mal se importando, pois sabia que iria esquecer em alguns minutos. - Meu nome é Augusto, guria. - falou imitando seu sotaque na última palavra. Já tinha o hambúrguer na chapa enquanto fazia o molho no fogão do lado, se movimentando com destreza pela cozinha. Ele deu um leve riso - Melhor, por que eu nem sou um bom professor, nem teria paciência para passar mais tempo nessa cozinha que o necessário…. Pelo menos não cozinhando. - Tinha prazer em fazer aquilo , por mais que agora fosse hora extra, combinava tudo sabendo exatamente o sabor que aquilo proporcionaria ao paladar, por mais que soubesse que com a fome que a mulher tinha qualquer coisa seria bom. Enquanto ainda preparava o hambúrguer, começava a falar para passar o tempo. -E então, como a loirinha conhece o meu chefe? - perguntou, mas já jogando opções- Talvez já tenha transado com ele, ou amigos de infância. Se bem que você não parece carioca. Ou amiga da Gi? - sorriu de lado olhando para ela - Se for, a Giovanna deveria começar a me apresentar as amigas dela.-
A personalidade de Analu agora variava muito de acordo com a droga que estaria a circular pelo seu corpo em diversos momentos. A maconha tratava de fazê-la suspirar levemente de forma despreocupada e alegre, mas o desconhecido estava fazendo o exato efeito oposto do da droga. - Ô meu anjo - ironizou, com um toque até mesmo de pena no seu tom de voz ao curvar a cabeça e encará-lo como se fosse uma criança. - Eu odeio segredos - foi tudo que disse, pois a forma que ele estava a tratando, como se soubesse de tudo, apenas a deixava mais irritada. Deixou que uma risada forçada saísse do fundo de sua garganta ao ouvir a fala seguinte, ainda de forma a desaprovar como ele agia consigo. - Sério? - Fingiu uma dúvida claramente falsa. - Nem parece ó, nesse caso eu acho que cê devia falar menos e trabalhar mais - esbanjou um sorriso rápido e cheio de sarcasmo em seguida fechou a cara novamente. Passados alguns segundos em silêncio, a droga retomou o controle e Analu se aproximou, de volta a naturalidade em que colocava nos gestos aleatórios. Deu de ombros diante da reclamação dele. - Só Analu mesmo - respondeu secamente por já conhecer a pergunta de praxe que a faziam. - Prazer - sorriu sem mostrar os dentes, ainda com um tom de ironia. - Top, acho que temos um objetivo em comum então, sair daqui o mais rápido possível - encarou Augusto fixamente ao colocar o que decidiu ser o último pedaço de queijo na boca e se afastar. Caminhando lentamente pela cozinha enquanto deixava que o rapaz preparasse o hambúrguer sozinho, Analu começou a explorar o local, abrindo gavetas e armários na tentativa de curar sua inquietação. Ao ouvir a voz de Augusto quebrar o silêncio, os olhos azuis voltaram a encará-lo com certa ferocidade e passou alguns segundos assim, ouvindo-o e apenas olhando enquanto pensava numa resposta que não soasse tão grossa quanto impulsivamente as vezes era. - Ué, nera tu que não era de “ficar vasculhando vida de ninguém.”? “Não me interessa.” - fez as aspas com os dedos, reproduzindo exatamente o que ele falara mais cedo num tom de voz grosso, em puro deboche e divertimento ao tentar imitá-lo. - Segundo... Eu realmente espero que essa tua mania de colocar adjetivo no diminutivo seja por ser acostumado com o teu pau, porque nesse caso seria hilário... - Esboçou um sorriso. - Do contrário é apenas desnecessário e degradante - fechou a cara, deixando óbvio os limites que Augusto - claramente - não tinha. - E meu deus - pareceu verdadeiramente espantada com a última frase. Analu voltou a se impulsionar para cima de uma das bancadas, mas dessa vez um pouco mais distante do rapaz. - Será que você não sabe mesmo a hora de parar, guri? - Dessa vez seu tom era mais leve, quase como se brincasse ao receber a tentativa de cantada. Respirou fundo, encarando-o como se pensasse se deverei responder ou não. - Conheci ele na faculdade, tem uns três, quatro anos já, sei lá, mas sou amiga da Gió sim.