a reciprocidade é um vício.
eu te amei na noite passada mesmo sabendo que você não me amava na mesma intensidade.
ou melhor, não sei se você me ama na mesma proporção. e isso me importa em qual momento? em qual momento eu coloco uma balança nisso que chamo de relação e começo a medir trocas por meio do amor?
semana passada você me fez um misto-quente em plena quarta-feira de sol com um sorriso lindo e por um momento eu me entristeci pois pensei que nunca havia feito nada parecido.
o ato, em si, não pedia reciprocidade. ou melhor: o que era recíproco, ali, era minha vontade de estar.
por vezes, reciprocidade tem a ver com disposição.
"eu estou disposto a ir fundo nisso? a estar aqui? o dar o meu melhor?"
uma vez eu ouvi que "tudo bem você não concordar com tudo aquilo que eu te dou. mas se eu dou meu melhor, pelo menos isso espero que você reconheça".
o problema é que você dá e espera que te deem da mesma maneira. mas você não é diferente dele?
ele gosta de melancia, você detesta melancia.
você nunca viajou pra fora do estado. ele já aprendeu quatro idiomas. percebe?
relações são sobre distinções que decidiram coexistir.
reciprocidade tem a ver com o quanto você esta disposto a entender que alguns dias serão mais amenos do que outros.
que alguns movimentos te trarão frustração porque não sairão como você espera, mas que, caramba, é preciso saber lidar.
se você não lida, a insegurança aumenta. e tudo, consequentemente, vira motivo pra querer cair fora. reciprocidade é uma balança.
você entregará mais presença em determinados dias. ele te doará mais carinho e temperança em outros.
em alguns dias, ela vai querer estar sozinha no quarto onde vocês dois compunham discussões sobre as próximas férias. noutros, ela vai querer dormir no seu pescoço e fará uma rede entre uma orelha e outra.
reciprocidade é isso: você saber que ele tem se esforçado e tem entregado o que pode.
se é insuficiente, você também pode abdicar e dizer que não serve.
mas, caramba, não é bom tentar? às vezes é sim.
reciprocidade é energia. é a mão em cima da outra. é o olho confortável dentro do olho do outro. mas não menos que isso.
menos que isso não queira.
mas também nao dê amor ja esperando recebê-lo de volta na mesma intensidade, tempo e espaço.
pode acontecer depois, pode acontecer amanhã, pode acontecer semana que vem.
quem sabe na semana que vem eu não faça um café da manhã também? não por obrigação ou peso na consciência ou porque estou atolado no conceito de reciprocidade. mas porque decidi ficar e é bom estar com você.
porque você se entrega pra mim diariamente e eu também. porque eu prefiro literatura russa e você, alemã. porque suas músicas não tocariam numa playlist minha e, mesmo assim, conseguimos depositar-nos um sobre o outro quando todo o mundo faz questão de partir e abandonar.
reciprocidade é sobre entender demandas, mas entender que o amor preenche tudo, no seu tempo - e enquanto isso seres humanos diferentes, a seu modo.
- textos cruéis demais para serem lidos rapidamente