por favor, pare de dizer que sou corajosa
Eu te entendo, juro. Tu me fala da minha coragem e da minha força de pegar um avião. Eu sei, não é pra todo mundo, tu diz. Talvez não seja mesmo, eu não sei. Mas para de me dizer, por favor. Parem.
Eu não quero ter coragem. Eu não seria assim, se pudesse. Eu fico olhando essas pessoas que são completamente felizes juntas, acomodadas nas suas bolhas (de sabão), vivendo essas vidas de trabalho, casa, casamento, filhos, às vezes eu invejo essa coragem. Eu queria saber ser assim, eu juro.
Eu queria saber como é morar em um lugar e nunca mais querer sair. Estar em uma relação sem nunca pensar no “e se?”. Como é a vida sem o “e se?”, alguém sabe? Pode me explicar? Como é a vida satisfeit@ com todos os dias ir pro mesmo emprego, viver na mesma cidade, ter a mesma pessoa do lado, criar uma criança sem pensar em fazer as malas? Eu não sei como é essa vida. Eu não sei ser assim. A vida de vocês que é corajosa, fazendo acontecer com amor a cada dia, sem jamais querer pegar um avião.
Avião. Acho que se tem um amor que sempre me dá vontade de encontrar, que jamais me faz pensar duas vezes antes de dizer sim é um avião. Avião é a minha droga, é a minha cocaína, fico ligada cada vez que compro uma passagem, eu preciso disso pra viver. E a cada dose, parece que a coisa toda meio que piora, porque a cada viagem, meu coração se quebra por dentro e deixa uma parte de si onde quer que eu vá. Eu prometo que volto sempre, mas eu sei que a gente acaba nunca voltando mesmo, mesmo que volte. Porque os lugares nunca são iguais, as circunstâncias mudam, as pessoas também. Lugares são pessoas pra mim? Eu não sei.
Eu tenho um sonho lindo, nesse meu coração de menina que nunca cresce, mesmo que a vida dê um milhão de voltas, de casar com alguém que também seja viciado em avião. A pessoa do vamo? Sim. Mil vezes a pessoa do sim.
A pessoa que vai se jogar comigo e com quem talvez eu tenha um filho num avião.
Alguém que tenha uma bússola no lugar de um coração.
Eu falo tudo isso, porque hoje, aleatoriamente, eu despertei de um sono tranquilo e me vi acordando toda machucada. A sensação de acordar um dia num cárcere privado e descobrir que vem apanhando há uma caralhada de tempo sem nem perceber (quanto tempo faz que eu me debato nessas grades? - nem eu sei). Eu sabia que tava doendo, mas não sabia o quanto. Desconhecia completamente a profundidade dos meus hematomas, a minha dificuldade de reconhecer que síndrome de Estocolmo nunca foi amor. É difícil se olhar e ficar se achando vítima. Se alguém ficou, fui eu. E esse papo de procurar culpados e de dizer que não é amor ou que é amor doente ou que é o que for, aah, sabe? Cansa.
E aí eu olhei meus machucados todos e pensei comigo: tá doendo muito. E, pela primeira vez, a vontade de fazer parar de doer foi mais forte que a vontade de ficar. A vontade essa de não se mexer, porque se mexer significa parar de fingir que sou normal, como as pessoas que lêem jornal e levam os filhos na escolha e vivem casamentos falidos, mas que são funcionais. Deosdocéu, que preço que eu paguei pra ser “funcional”. Eu só queria funcionar na vida. Três anos e meio ouvindo um monte de desfuncionalidades e tentando me encaixar. Faz quase quatro anos que eu desconheço aquele riso solto. Na verdade, ainda hoje é difícil me olhar no espelho.
Vocês ficam me chamando de corajosa, mas eu sei que sou só uma boa farsante. Corajosa é quem segue o coração, quem vai atrás do que quer. Eu sou uma dessas mulheres que vocês escutam falar e que dizem não conseguir entender como aguentam e como se submetem. Dessas mulheres que ouvem que estão gordas, que sabem que estão sendo traídas e que se encolhem e aceitam migalhas de amor.
Corajosa? Não, mentirosa.
Dessas mulheres que abortam porque o namorado não quer o filho. E que repetem o erro. Que aceitam tanta coisa, tanta violência, que são violentas também, que ficam em ciclos tóxicos, em relacionamentos tóxicos, que submetem a serem menos do que são, que querem brilhar menos pro parceiro ficar sozinho no holofote e pedem desculpa por serem como são.
E que, mesmo depois de tanta humilhação, sempre pensam na possibilidade de voltar. Porque precisam agradar alguém que nem sabem que é, que diz que eles precisam dessa vida de playmobil. Essa vida doente, que adoece.
Então parem de me chamar de corajosa.
Quem tem coragem, age com coração e sai fora.
Até agora eu só fui covarde e tive medo do meu coração.
E fui responsável por tudo isso que deixei acontecer. Que ninguém faça ninguém de demônios ou vítimas nessa equação. Só estou falando de tudo porque meu coração já tá tão lotado dessas obscenidades que eu só quero limpeza, espaço, vazio.
E foi o que eu falei hoje de tarde. I want out. Algo como eu quero estar fora. Quero uma saída.
E eu não quero só saída da relação não. Eu quero saída de toda essa vida. De tudo o que isso significa. Eu quero ir embora. E, pela primeira vez, ir embora é diferente de querer voltar pra casa (morrer). É querer ir pra vida.
Em três meses, parece que passei por um resgate da Swat. Três meses que parecem três anos. Na verdade, esses três meses começaram em dezembro de 2019. As pessoas reclamam sem cessar do covid, de 2020, mas vocês não sabem o quanto eu precisava parar. Eu ia me matar.
Corona foi a minha coroa. A minha chance de voltar a ser rainha. Corona me trouxe de volta pra casa, pra vida, pro mundo. Eu não sei como é a vida de vocês. Eu não sei como está a vida de vocês.
A quarentena me trouxe de volta pra uma vida em que eu sou um ser humano. Eu tenho valor. Eu até consigo me olhar no espelho de novo.
Não sei qual o nome que tem quando você volta a respirar depois de quase morrer. Ironicamente, no meio da “pandemia” em que as pessoas param de respirar, eu reaprendi a viver. A respirar. A vida tem dessas coisas, né? Nunca vou entender direito como isso funciona.
E agora a vida me pede pra ser corajosa, pra confiar - e eu sei que posso confiar e eu sei que confio - e nada disso parece mudar o que já temos por aqui. Mas hoje eu acordei de um sono muito profundo. Como disse antes, finalmente todos os machucados puderam ser vistos e sentidos. De repente, parece que começo a respirar.
Talvez todos esses problemas sejam bobagem - e são mesmo, quando colocamos em perspectiva. Eu só posso falar da experiência que eu tenho, que eu vivo, que habita em mim. Às vezes, o fato de existirem problemas maiores no mundo faz a gente se sentir com uma mordaça, impedido de desabafar o que sente onde quer que seja.
Eu não sei qual o nome que tem quando a gente se esvazia tanto, emocionalmente falando. Parece que hoje, simplesmente desaguei como um grande rio, sem começo ou fim. Parece que tudo de dentro de mim foi fluindo pelo olhos e desafogando meu peito de tudo que eu estava guardando durante tanto tempo - e eu nem sei precisar quando foi que comecei a guardar. Eu nem sem o porquê eu guardei - por que a gente guarda as coisas que não usa mais no peito ao invés de colocar a energia para circular? Eu também não sei.
Não sei também o porquê de tudo isso desaguar hoje e não ontem ou anteontem ou mês passado. Parece que tem ciclos e ondas que fogem completamente da nossa capacidade de prever o futuro.
Particularmente, me encontrei entendendo meus movimentos que começaram em fevereiro e só agora se completaram. E de repente começo a acordar, como um elefante que descobre que está amarrado só por uma cordinha a uma cadeira de plástico. Ninguém mais está te segurando, querida, o que você vai fazer com essa informação? E, de repente, todos os futuros possíveis parecem se misturar e se colorir e parece que nada mais faz sentido mesmo.
Eu não sei qual o nome que tem quando tu tens tanto e nada ao mesmo tempo.
De repente, parece que está se construindo alguma coisa muito maior do que eu, que nem tenho consciência mais do que está acontecendo - e eu nem quero controlar mais nada, nem ninguém, nem ser controlada.
E, ao mesmo tempo, bate um medinho de ser enganada de novo por mim mesma, de de novo colocar todas as energias e forças em entrar em movimento e ser novamente decepcionada. Por outro lado, sabe o que parece? Que nem é mais escolha com esforço, sabe? Da mesma forma que, quando vi, estava dizendo as palavras guardadas de “I want out” sem nem refletir, sem nem pensar, sem nem duvidar. Os dedos escreveram, enquanto minha mente assistia a tudo, apatetada. Como se de repente minha alma tomasse controle. Como se uma parte muito maior em mim passasse a dirigir o volante.
A minha mente não deu um pio, exceto para dar uns poucos suspiros de medo.
E, de repente, ficou tudo tão misturado no meu peito, tão cheio de coisas distintas e juntas, misturadas, incomodando, que pareceu que é impossível voltar para a vida antiga. Ou melhor, até se pode, mas não tem nem mais como pagar o preço.
De repente, não tem mais nada acontecendo, nem mesmo a vida antiga.
De repente, o precipício se torna a única escolha. De repente, eu sei que vou voar. A única espera agora é o quando, mas a certeza é do voo, seja ele como for. Quando for. Da maneira como for. Porque os machucados saram. Do chão ninguém passa - e a vida é queda livre mesmo.
Nada como a importância de não fugir dos processos.
Admito, tem um pouco de coragem nesse movimento. Tem um pouco do coração, da alma, da vida, da inquietude guidando meus passos.
Tem dias em que estar vivo já não é mais nem uma escolha. E acho que é esse movimento que tem guiado meus passos, minha vida, meus dias. O movimento de não-ação. Como se pudesse ficar sempre esperando o momento em que a vida vem e me empurra três passos pra frente sem que eu tenha nem mesmo tempo de tropeçar. A vida é louca. E maravilhosa.