Antonella nasceu em Madrid, mas com poucos dias de vida se mudou para Sevilha. Filha indesejada de Amina, uma adolescente madrilena, foi colocada para adoção antes mesmo de nascer. Quando tinha apenas 16 anos, Amina ficou grávida de seu namorado que era apenas um ano mais velho, jovens demais e sem nenhuma vontade de ficar com a criança, os pais da jovem convenceram-na de que colocar a criança pra adoção seria uma opção bem melhor do que abortar. Constance e Federico Montanez, um casal jovem de Sevilha, se interessou por Antonella antes mesmo dela nascer. Eles já vinham procurando por um bebê para adoção e cada vez as coisas ficavam mais complicadas, a lista de espera era enorme e a vontade de serem pais era muito grande, mas Constance não podia dar filhos ao casal. Mesmo sendo de um lugar distante, assim que uma amiga em comum dos pais de Amina e do casal Montanez entrou em contato com eles, não mediram esforços para conseguir o bebê que a adolescente gerava.
Ella foi criada com muito amor e carinho pelo casal que nunca lhe contou sobre a sua verdadeira origem, achando que era apenas um drama desnecessário pra vida da garota. O casal sempre cuidou muito dela, lhe tratava como se fosse realmente deles. Por ser bem parecida com Constance, a morena nunca desconfiou que pudesse ter sido adotada, até que uma sequência de fatos fizeram com que a dúvida aparecesse. Quando Antonella completou 18 anos e terminou o ensino médio, precisava de algumas documentações para dar entrada na faculdade de gastronomia. Com pressa de encontrar os documentos, não esperou que seus pais procurassem por eles, pegando então a caixa onde continham as papeladas. No meio dos papeis que ela precisava, bem no fundo da caixa, havia o documento da adoção. Assim que a garota leu o que continha ali entrou em estado de choque, aquilo nunca havia passado pela cabeça dela. Tinha sido enganada por 18 anos, sem ter noção de quem eram seus verdadeiros pais ou de sua origem. Achando que aquilo poderia ser um engano, a garota entrou em estado de negação e a medida que ia juntando outros fatos e nada mais fazia sentido. Aquilo explicava o porque dela não ter o mesmo tipo sanguíneo dos pais ou até mesmo porque Constance não tinha fotos da época da gravidez.
Não pretendia confrontar os pais ou brigar com eles, calmamente a garota pediu explicações para eles. Constance não conseguia falar sobre o assunto, deixando que Federico tomasse as rédeas da situação e contasse toda a história. O único desejo de Ella era conhecer os pais verdadeiros, mas ela guardou isso apenas para si com medo de que isso magoasse os pais adotivos que tinham feito de tudo para que ela fosse criada da melhor forma possível. Com ajuda de uma amiga, a garota pegou as informações que tinha no documento e escondido dos pais resolveu procurar pela sua mãe biológica. Não foi fácil encontrar o paradeiro da mulher e a pesquisa demorou mais tempo do que ela planejava, assim quase um ano depois conseguiu localiza-la. Ainda sem forças pra o tal encontro, Ella esperou juntar um pouco de dinheiro para viajar até Madrid, adiando a viagem até completar 20 anos. Quando finalmente tomou coragem, a morena foi de encontro a sua mãe e o as coisas mais uma vez não saíram como ela havia planejado. Amina havia se tornado uma mulher fria e sem escrúpulos, tratando a menina como se ela fosse uma ninguém. Dava graças a Deus por Ella ter sido adotada e levada pra longe, assim ninguém nunca havia descoberto seu segredo e não se arrependia nem um pouco do que tinha feito. Para Amina, Ella não passava de uma desconhecida que ela não tinha o menor interesse em conhecer e deixou isso bem claro para a morena, tratando-a muito mal e a expulsando assim que teve a primeira oportunidade.
As falas e o tom frio de Amina faziam com que a cabeça de Antonella girasse, junto com a dor de ser rejeitada. Ela não queria estabelecer uma relação de mãe e filha com Amina, apenas queria conhecê-la, saber como ela era, perguntar os motivos, nada mais do que isso. Se senti estupida por ter perdido muito tempo procurando a mulher, só queria voltar para casa e reencontrar seus pais, seus verdadeiros pais, aqueles que tinham lhe acolhido e lhe dado amor. Mas assim que voltou para o hotel para pegar suas coisas e voltar para Sevilha, sem nem notar que a porta do quarto havia mudado de preto para vermelho por conta das lagrimas que insistiam em cair, a garota passou pela porta. Uma sensação esquisita tomou conta de Ella e ao invés dela encontrar o quarto de hotel com seus pertences, ela havia ido parar em um lugar totalmente desconhecido.
Primeira coisa que Montanez fez ao notar que não estava no quarto e sim em um lugar completamente diferente foi tentar voltar pela porta que entrou, tinha alguma coisa errada ali. Mas a porta avermelhada não estava mais por ali, a garota se viu totalmente sozinha e desamparada. Não muito para que começasse a conhecer o local e ao mesmo tempo conhecer pessoas que já estavam ali há mais tempo e outras que assim como ela não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Foi assim que Ella conheceu Klaus, um alemão com quem logo fez uma amizade e juntos os dois exploraram Gael sempre um aparando o outro quando algum deles entrava em estado de fraqueza, mesmo que na maior parte do tempo ela fosse quem entrava nesse estado. Não era fácil pra ela sair de casa com um plano em mente e tudo mudar completamente. Federico e Constance não faziam ideia de onde ela estava e o medo que eles tivessem pensado que mesmo depois de anos ela estivesse chateada com eles, fazia com que a culpa só aumentasse. Os primeiros meses foram difíceis pra ela, sem Klaus ao seu lado provavelmente ela teria definhado no lugar mesmo que eles tivessem tudo praticamente em mãos.
Assim que veio o inverno rigoroso e Antonella e Klaus descobriram toda a história verdadeira sobre a cidade, eles viram a chance de voltar para casa e a esperança de que enfim ela pudesse reever os pais e lhe explicar tudo, fez com que ela por um momento esquecesse que voltaria para a Espanha e Klaus para Alemanha, separando-a da pessoa com quem ela tinha uma ligação quase psíquica. Quando Ella se viu de volta ao seu país, praticamente em casa, a felicidade tomou conta da garota. Poderia enfim se explicar e pedir desculpas aos seus verdadeiros pais por ter feito as coisas escondido deles.
Mas em poucos meses em casa, a felicidade foi tomada pela angustia em seu coração. Ela estava ali com sua família, mas faltava alguma coisa, faltava seu amigo e se sentia culpada por ter ficado mais preocupada em voltar pra casa do que arrumar um jeito de se comunicar com Nikolaus, a medida que os meses foram passando ela já não conseguia seguir aquela vida que tinha antes de passar pela porta, tudo era diferente, ela era diferente. Resolveu fazer outro curso e por isso escolheu enfermagem. Sentia que talvez ajudando a curar as feridas de outras pessoas, conseguisse curar suas próprias, mesmo que essas fossem emocionais.
Quando as coisas começaram a serem colocadas nos eixos novamente, Ella começou a ter pesadelos com Klaus, trazendo toda aquela angustia de volta. Os pesadelos não faziam sentido, ela não sabia se ele estava bem, se precisava de ajuda. Não tinha ideia do motivo dos pesadelos, se aquilo estava relacionado com a ligação que eles tinham ou se era só a culpa tomando conta do seu inconsciente. Foram praticamente dois anos sem nenhuma noticia de Nikolaus, mesmo que ela tivesse tentado de todas as formas possíveis encontra-lo. Aqueles pesadelos incomodaram Antonella por meses, mas o que acontecia uma vez por mês, começou a acontecer mais frenquentemente, assim que os pesadelos passaram a se tornar rotina, Ella parecia transtornada demais e seus pais começaram a ficar preocupada com a saúde mental da filha, chegando a pensar que a filha precisava de terapia e se sentindo culpados por não ter pensado nisso logo que ela voltou de Gael. E foi quando Antonella estava tendo uma pequena crise de choro em seu quarto e o medo de que algo ruim estivesse acontecendo com o rapaz, que a porta vermelha apareceu pela segunda vez na vida dela. Tentava controlar as lágrimas quando olhou para a porta do seu quarto e essa havia mudado a coloração de branca para avermelhada. A morena não pensou duas vezes e levantou da cama correndo na direção da porta, precisava encontrar seu amigo e saber como ele estava. Se pra isso ela tivesse que voltar pra Gael e ficar mais uma vez presa por lá, ela faria isso, se arriscaria. E foi assim que Antonella fora sugada pela porta pela segunda vez.