[montanilhelm]  lonely water, won’t you let us wander, let us hold each other? / klaus’ pov.
O suor parecia ter tomado conta de si, transformando cada centĂmetro de sua pele em água pura, que escorria e fazia impossĂvel com que qualquer coisa se mantivesse presa em seu corpo. Roupas, cheiros. Uma mĂŁo que aos poucos escapava da sua.
O mundo tremia Ă sua volta, a neve caĂa como se nĂŁo houvesse fim, e uma cratera se abria no chĂŁo enquanto Nikolaus gritava contra Deus e o universo, e as lágrimas escapavam amargas, salgadas e doloridas de seus olhos Ă medida que tentava segurar a mĂŁo da garota contra a sua, sentindo os dĂgitos menores escaparem assim como suas esperanças se esvaiam pouco a pouco.
– NĂŁo! Eu nĂŁo vou te soltar! Eu nĂŁo vou perder vocĂŞ pra esse lugar! – A voz gritava. Forte, com raiva. O misto de indignação, medo e dor fazendo com que a garganta doesse como cada palavra. E enxergar era difĂcil, mas mesmo sobre as lágrimas Klaus podia ver o brilho escapar aos poucos dos olhos marrons Ă sua frente, o sorriso leve nos lábios de Antonella parecendo muito mais uma cruz dolorosa Ă carregar do que uma lembrança feliz em particular.
– Está tudo bem, Klaus… Tudo bem… – A voz fraca lhe respondia, os dedos dela escapando, mas nunca deixando os seus de vez pois Klaus a puxava de volta, tentando trazer o corpo da melhor amiga para cima, enquanto o buraco engolia tudo para baixo. – Não! Não está tudo bem, eu não vou perder você… – …De novo. A voz morreu na garganta do rapaz, e a dor inundou seu corpo. Havia uma mão segurando a de Antonella, e a outra segurando o pedaço final de uma corda, presa à um carvalho à alguns metros daquela cratera.
Se ele ao menos tivesse sido mais rápido… Quando o mundo começara a despencar naquele lugar, Klaus e Ella saĂram para ajudar as pessoas. Desesperados, ajudaram famĂlias cujas casas eram soterradas pela neve, pelos terremotos, pela avalanche apocaliptica que caĂa naquele lugar. Aquele lugar outrora tĂŁo utĂłpico… Eles haviam ajudado todos que podiam, mas quando o choro de uma criança soou ao longe, a ajuda em time virou individual. Antonella desvencilhou-se e correu para acolher aquele choro infantil, enquanto Klaus ficara para trás, cuidando dos machucados de um senhor apĂłs colocá-lo em um lugar mais seguro.
Só notara a falta de Ella quando os gritos vieram. Desesperado, Klaus saiu para fora, para o centro das confusões. Os pais da criança gritavam, choravam. O filho preso nos braços, são e salvo, enquanto a garota afundava no buraco que se abria; a perna quebrada impedindo-a de subir de volta.
Wilhelm sentiu seu universo despencar. O colapso lhe afogou. Após tantas vidas que salvara, ali estava a única pela qual trocaria a própria, escapando de seus olhos e de suas mãos. Escapando de existir em sua vida. O alemão correra, conseguira uma corda, amarrra-na em uma árvore firme e pedira que todos fossem para abrigos enquanto ele salvava Antonella.
Mas agora o próprio chão cedia sobre seus pés e havia sangue na mão que segurava a corda. E a garota… A garota lhe olhava com os olhos em paz, os lábios em um meio sorriso. E a voz calma, quase um sopro, em contraste evidente contra a dor e culpa máxima da sua.
– It’s okay, it’s okay… – Montanez dizia, mas Nikolaus não podia acreditar. Ele queria puxá-la, segurá-la em seus braços. Se não podia salvá-la, queria então pelo menos ir com ela. Mas o alemão não podia fazer nada, nada além de fitar a vida deixá-la aos poucos, levando cada batimento de seu coração junto.
– Fuck, Antonella! Don’t let go of my hand, I can’t lose you! – Os gritos já perdiam a força e foi quando a mĂŁo dela escorregou da sua que Klaus esqueceu de si prĂłprio. Ela escorreu e o rapaz simplesmente parou de pensar; largou a corda e se jogou ao chĂŁo, metade do corpo para fora, metade para agarrar o torso dela e puxá-la. Mas o peso da gravidade era maior que sua prĂłpria força, e sĂł pudera trazer Antonella o suficiente para que seus olhos encontrassem os dela e seu rosto estivesse Ă um milĂmetro do prĂłprio.
Haviam lágrimas em seus olhos, mas podia enxergá-la.
– Stay with me, don’t fucking go. – Desta vez, nĂŁo gritou. A voz embargada implorou e Ella lhe cedeu outro sorriso. Sabia que nĂŁo tinha muito tempo, que nĂŁo conseguiria mantĂŞ-la naquela posição por muito mais, e que, se ali ficasse, o chĂŁo terminaria de ceder e ele caĂria junto. Mas nada naquele momento lhe importava, alĂ©m das palavras que saĂram num sussurro dos lábios cortados dela.
– Look at me… Klaus, look. – E ele olhou. As Ăris vermelhas pela dor e choro. – You saved me more than once, you made my life extraordinary. It’s okay if I go now, I’m okay… – Por um segundo, os olhos dela entrara em foco. A dor deixou de existir. O tempo congelou. E tudo o que existiam eram os olhos dela nos dele, os ele no dela. – You stay. You keep on saving lives, you keep on living, and one day we’ll meet again. But please stay and save yourself, because then I’ll live with you until you’re ready to go. But not now, the world still needs you…
As palavras dela lhe acertaram mais forte do que qualquer coisa fĂsica havia feito atĂ© entĂŁo. A neve caĂa ao redor deles, seu corpo congelava aos poucos e o mundo nĂŁo parava de tremer. Mas as palavras dela haviam lhe acertado, e mesmo sem querer, mesmo nĂŁo desejando nada daquilo, Klaus concordou.
Em um último esforço, puxou-a para perto, na tentativa desesperada e falha de abraçá-la. O que lhe restava de forças seria o suficiente para sair dali, mas não para levá-la junto. – Weißt du nicht über mich zu vergessen. – O pedido saiu trêmulo, fraco no idioma materno. E, mais uma vez, ela sorriu. Wilhelm pôde sentir a curva do sorriso d’Ella em seu rosto, antes que as próprias mãos pequenas se desvencilhassem de seu abraço e, um último olhar, aquele que dizia tudo, Montanez escapasse do seu alcance para cair no buraco infinito que a terra abria. E, através da névoa, sumir.
Com um baque forte, Klaus caiu no chão. Os lençois se amontoaram em seu corpo e o rapaz se sentiu sufocado, imediatamente sentando-se no piso e arremessando tudo para longe em um ato de raiva assim que abriu os olhos e respirou. Seu peito quis explodir com a golfada violenta de ar e o mundo girou ao seu redor como se tivesse recebido uma marreta na cabeça naquele instante.
Zonzo, perdido e enjoado, Klaus virou para o lado e vomitou. Passando uma mão trêmula nos fios enquanto a outra puxava a camiseta para limpar os lábios. Wilhelm abriu os olhos, mas não entendeu. A sensação do pesadelo lhe deixou pregado no chão e, se aquilo fosse morrer, de certo o alemão achava que sua hora chegara. As pálpebras foram cerradas e imediatamente a imagem de Antonella desaparecendo em uma cratera, o sorriso nos lábios, irrompeu em sua mente, e Nikolaus levantou-se desesperado para sumir com aquilo.
Em passos trêmulos, correu para a janela e só então, ao escancarar os vidros com força, respirou direito. O ar inundou seus pulmões e ele respirou de novo. E ali, novamente, respirou até se acalmar, até que seus batimentos batessem em sincronia e houvesse oxigênio em seu cérebro. Até que pudesse pensar.
Faziam meses desde que vira Antonella pela Ăşltima vez e Nikolaus nĂŁo sabia o que fazer. A falta dela, e o medo do que poderia ter acontecido quando haviam se separado naquela confusĂŁo, ganhava vida em pesadelos. Mas aquele havia sido o pior. Wilhelm permaneceu na janela, respirando e tentando clarear sua mente, por um bom tempo. Somente quando sentiu que poderia andar sem vomitar novamente, foi que virou-se. E a viu.
A porta vermelha jazia no lugar da porta do proprio quarto. Tão real quanto fora da primeira vez. Os olhos amendoados fitaram a madeira na cor vibrante por alguns segundos, e então foram para a escrivaninha. A foto de Antonella continuava ali. Sem pensar duas vezes, Klaus correu para o armário. Tirou de lá a mochila e enfiou apressado as roupas ali dentro, assim como os pertences que haviam lhe tirado do inferno atrás daquela porta uma vez, e sem os quais não voltaria para lá de novo.
A água da garrafa da escrivaninha fora jogado em seu rosto e lábios, mas, mesmo ao olhar novamente para a porta, ainda a via nitidamente lá. Ela era real. De novo. Wilhelm sabia que a impulsividade nunca fora sua melhor amiga, mas Ella fora. E, se desejava vê-la outra vez, o mundo atrás daquela porta teria as respostas.
Calçando os sapatos e jogando um casaco sobre o corpo, o alemĂŁo pegou a mochila e a Ăşltima coisa do quarto antes de andar firme atĂ© a porta e, sem nem mesmo respirar daquela vez, abrĂ-la. Ele iria atrás de Montanez e nada iria lhe impedir de achá-la. Daquela vez, por tudo que era mais sagrado, nĂŁo a deixaria ir.
Quando atravessou a porta, fechando-a atrás de si, ainda tinha a foto da garota em suas mãos.