DATA: 12/10/20;
LOCAL: Castelo de Atlantis; quarto real.
A conversa que teve com Auriel no outro dia havia o tirado do sério. Não era apenas pela provocação, mas sim também pelo fato de envolver diretamente Beelzetho e um assunto delicado, além do fato de não poder respondê-lo como queria, já que não havia mais voz para isso. Já tinha tantas coisas para se preocupar, que aquele parecia o estopim para que o tritão caísse em vários pensamentos sombrios sobre o seu futuro com o orcus.
Entretanto, as criaturas que o acompanhavam pareciam ao menos ter atendido seu pedido de silêncio, deixando o rei de Atlantis com um pouco de paz em seu quarto, mesmo que os monstros ainda permanecessem nos cantos do lugar.
Disse uma das criaturas, chamando a atenção de Aphelios, levantando sua cabeça para encarar a origem da voz, permanecendo inexpressivo.
Respondeu rispidamente com os movimentos de mão, voltando a abraçar suas pernas enquanto permanecia sentado. O tritão respirou fundo antes de continuar.
“Os boatos sobre homofobia parecem estar aumentando mais ultimamente, principalmente em Morgge...”
“Oque você quer dizer com isso, Aphelios?”
Outra criatura perguntou, se aproximando da ponta da cama, onde permaneceu de pé encarando o tritão, que mais uma vez estava com a expressão triste enquanto pensava.
“Minha vida e felicidade giram em torno de alguém que não posso me envolver publicamente, e agora nem sei se posso continuar o vendo, levando em contra minhas responsabilidades com o reino...”
Aphelios encarava os próprios pés, sentindo seu interior se agitar em ansiedade com todos os pensamentos que vinham a sua cabeça. Parecia uma maldição sua vida ser tão entrelaçada com a de Beelzetho, e ultimamente esse peso parecia pior em seu coração; havia conseguido oque queria, que era ser correspondido, mas ainda sim era tão complicado...
“Eu deveria renunciar o trono...?”
Gesticulou em libras, levantando o rosto para encarar as criaturas no quarto, vendo-as reagir com espanto e preocupação, todas respondendo juntos um “não” bem audível para o tritão, que acabou o fazendo soltar uma risada baixa.
“Atlantis precisa de você! É a pessoa mais capacitada ultimamente para governar esse reino, e acredite, eu sei muito bem do que estou falando! Você ainda pode dar um jeito de fazer essas leis estúpidas sumirem para ser feliz...”
“Claro... Atlantis precisa de mim.”
Suspirou fundo mais uma vez, voltando a abraçar as próprias pernas, deixando que os pensamentos invadissem sua cabeça novamente. Acabou por inconscientemente tentar falar algumas palavras, sua boca apenas mexendo sem emitir mais nenhum som. Mas as criaturas entenderam bem oque ele queria dizer.
“Um tritão não é nada sem sua voz, mas eu não sei como iria viver sem enxergar a única pessoa que amo... Não sei mais se fiz a escolha certa, se tinha algum outro jeito, mas... Me sinto mal com tudo isso, de alguma forma...”
Um silêncio incômodo se fez presente, e as criaturas passaram a se encarar entristecidas. Não sabiam ao certo como ajudar, mas no momento sabiam que deveriam deixar o tritão a sós pelo menos por um tempo.