happiness is a butterfly.
21 de novembro de 2020 — encontro com Ares.
Deu uma última olhada no próprio reflexo no espelho do retrovisor da moto, arrumando os fios de cabelo bagunçados por causa do capacete. Checou se as botas pretas estavam com os laços do cadarço bem firmes antes de trilhar o caminho que a levaria ao encontro de Ares, e não demorou muito para que encontrasse-o na beira do rio. Os braços cruzados sobre o peito e os olhos encarando algo distante — provavelmente o nada, mas sabia que muita coisa se passava na mente dele naquele momento. Não sobre a filha e o que viria a ser discutido entre eles, mas sobre qualquer assunto interessante o suficiente para um senhorio da guerra. Ela parou em alguns metros de distância, mantendo o silêncio enquanto, assim como o pai, observava uma imagem distante além daquele rio.
— Você ainda não me disse o que quer, Elizabeth. — Ares apontou, mas ele sabia, sim. Ele estava esperando por esse momento desde do instante em que tirou a mulher do seu estado de frenesi um ano atrás. Esteve esperando pelo pedido dela em todos os encontros que tiveram desde então, mas a filha nunca tocou no assunto. Até agora.
— Eu quero… de volta. — ela disse, dando um longo suspiro — Eu sei que seria melhor manter as coisas como estão, como tem sido esses anos todos. É o que estou acostumada a ser, mas não quero mais viver assim.
Ares a interrompeu, lembrando que são quase quinze anos sem sentir absolutamente nada real.
— Eu poderia viver o resto dos meus dias dessa forma, mas tenho consciência de que não me restam muitos. Sei que estou segura em Nemeton, ou deveria estar, porém você sabe que não é a isso que me refiro. Esperei anos e anos pelo momento em que ia finalmente descansar e deixar tudo aquilo para trás, mas eu sinto falta. — um riso baixo escapou dos lábios, e ela passou as mãos no cabelo para afastar os fios que caíram no rosto. — Se eu voltar à isso, não me restará muita coisa. E eu estive pensando que terminar assim é muito… deprimente. Eu não me importo de ser assim, não tenho como me importar, mas quero as coisas diferentes dessa vez.
Ares se aproximou da semideusa, seus olhos escarlates refletidos nos olhos dela. A mão repousou no ombro da mulher e após um breve silêncio, ele disse: — E se você se machucar mais do que pode aguentar? Você ficará mais frágil, mais fácil de quebrar…
Elizabeth o interrompeu. — Eu já estou quebrada, pai. Em incontáveis pedaços, um para cada vez que eu quebrei ao longo da minha vida. Um pedaço a mais não vai fazer diferença. Eu posso aguentar, eu fui ensinada a aguentar. — memórias de tudo o que passou para se tornar o que é vieram à tona, todas as torturas físicas e psicológicas impostas por Hyeri para que a sua filha se tornasse tão cruel e fria como ela mesma. No final, a matriarca fez o que fez por puro orgulho, ela não precisava ter arrancado os sentimentos de Elizabeth quando ela já estava mais do que controlada. A semideusa encarou o pai, mostrando um sorriso presunçoso. — Eu não guardo rancor por você não ter feito nada enquanto eu me perdia aos poucos dentro daquelas salas, enquanto eu chorava e implorava para ser tirada de lá. Eventualmente eu parei de chorar, não é? Parei de me importar, me acostumei com a dor. Me tornei forte, como ela dizia. Me tornei o que vocês dois queriam, então tanto faz o que passou.
Por fim, a coreana desviou o olhar. Mirou as árvores do outro lado do rio, as trilhas, os arbustos, os animais caminhando pacificamente de um lado para o outro.
— É cansativo como não posso sentir coisas simples, não consigo dizer honestamente que gosto de algo ou de alguém, que desgosto, que estou com raiva, ou que estou feliz, triste, angustiada… Mas mentir para as outras pessoas não é um problema, o ponto sou eu. Não quero mais esse vazio. — ela suspirou, estalando os dedos da mão. — Sabe quais são os únicos momentos em que eu não me sinto tão… eu? — Ares maneou a cabeça em negação, e então ela continuou. — Com quantidades absurdas de álcool no meu organismo e maços de cigarro, me sinto menos robótica. Quando eu deixo minha imaginação fluir e rabisco o que vier pela mente, mas isso já está perdendo efeito. E… — fez uma pausa, dando mais uma rápida olhada para o Deus. — quando estou com ele. Tudo puramente carnal, mas ele me faz quase sentir algo. São apenas sensações, eu sei… mas ainda assim é algo diferente e que me agrada.
— Eu não preciso entender os seus motivos. Foi uma parte sua tirada de você sem a sua permissão, então você tem todo o direito de exigi-los de volta. Eu tive ajuda… — de Afrodite, ela pensou. — mas não posso devolvê-los totalmente. O que seu avô fez só pode ser desfeito por ele, porém, isso vai permitir que você sinta novamente, mesmo que de forma parcial. Beba quando estiver pronta e aos poucos as coisas irão mudar para você. — Ares a entregou um frasco pequeno que coube perfeitamente na palma da mão dela. Era uma poção. — Mas a sua alma...
— Eu sei, é de Tânatos. — infelizmente prometida ao Deus da Morte. Elizabeth analisou o frasco, os olhos quase hipnotizados pelo líquido arroxeado e cintilante; parecia denso, gelatinoso… mas nada disso importava. Ela o olhou, um sorriso curto curvando os cantos da boca. — Obrigada.









