Imaginando um novo presente
O trecho a seguir é parte do capítulo 7 do livro Tecnofeudalismo de Yanis Varoufakis.
Imaginar um novo presente
Uma razão por que nós, a esquerda, estamos chafurdando na derrota perpétua é nosso insucesso em responder à dura pergunta que em uma ocasião me fez um autointitulado “apoiador cockney do partido Tory”,* que tinha ouvido que havia um socialista no recinto: “Se você não gosta do que nós temos, pelo que você substituiria? Como isso funcionaria? Sou todo ouvidos. Me convença!”. Eu nem tentei. Não apenas por causa do barulho no pub lotado, o que significava que eu mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos, mas sobretudo porque me faltava uma resposta convincente.
Meu consolo foi que eu estava em excelente companhia. Karl Marx, não exatamente um homem que carecia de autoconfiança ou imaginação, se recusou a ir além de referências vagas ao socialismo ou ao comunismo que ele previa e queria que substituísse o Império do Capital. Por quê? A própria desculpa de Marx para não oferecer um projeto socialista era inteligente: está além das capacidades dos intelectuais de classe média trabalhando na sala de leitura da British Library ou conversando em suas salas de estar finas. É na verdade o proletariado que, ao buscar seus interesses coletivos, deveria e irá criar o socialismo à medida que avança – ou ao menos foi o que Marx disse. Hoje, nós sabemos pelas experiências soviética e da Europa Ocidental com a social-democracia que isso era idealismo: um projeto socialista começado pelas bases simplesmente não ocorreu, em lugar nenhum. Mas qual foi a minha desculpa? Tentar conjurar o projeto para uma utopia realista é difícil para burro, para não dizer arriscado. Só que sem uma resposta convincente para essa difícil pergunta, a perspectiva de recrutar pessoas para a causa da recuperação de nossas mentes, corpos e meio ambiente continuará perdida.
Algumas semanas depois daquele encontro no pub, eu me deparei com uma resenha de um livro que eu tinha escrito, aquele destinado à sua neta, sobre como o capitalismo funciona.16 Era de autoria de um adversário político, o ministro da Fazenda irlandês da época. Ele me surpreendeu com algumas palavras gentis sobre o livro, mas, como era de se esperar, foi contundente em relação a meu apelo por mudança sistêmica: “Uma exortação pela criação de uma ‘democracia autêntica’ e pela propriedade coletiva da tecnologia e dos meios de produção”, ele escreveu, “fica muito indigesta ao lado de seu apresso pelo empreendedorismo e pela iniciativa individual”. Opa, eu pensei, o cara está certo. Tinha chegado a hora de parar de inventar desculpas e elaborar um projeto para um sistema alternativo convincente – que combinasse propriedade coletiva dos meios de produção, liberdade pessoal, espaço para reflexão inovadora e progresso tecnológico e, sim, democracia autêntica.
A tarefa era clara e intimidadora: eu tinha que explicar como a produção, a distribuição, a inovação, o uso da terra, a habitação, o dinheiro, os preços e um bando de outras coisas funcionariam numa sociedade que socializou a terra e o capital, incluindo sua variedade algorítmica baseada nas nuvens, alimentada por IA. Eu teria que explicar como o comércio internacional e os fluxos de dinheiro funcionariam. O que a democracia significaria e como ela funcionaria. Cá entre nós, nada menos do que pânico descreve meu estado de espírito ao me sentar para escrever um livro que parecia um dever que beirava o purgatório.
Levei um dia ou dois para chegar a um beco sem saída. Toda ideia que eu tinha para como as empresas seriam administradas ou como o dinheiro seria emitido imediatamente se espatifava contra os montes das minhas próprias objeções. O progresso era impossível. Então, eu tive uma epifania. O que faz um autor quando discorda de tudo o que ele mesmo escreve? Minha resposta foi escrever um romance povoado com personagens que representavam, cada uma, uma das diversas perspectivas que se acotovelavam por influência na minha cabeça.
Por fim, consegui reduzi-los a três personagens: Eva, uma ex-banqueira de Wall Street, manteria sob controle meu projeto de um ponto de vista liberal e tecnocrata (um que o já mencionado ministro da Fazenda irlandês deve apreciar). Iris, uma antropóloga aposentada, levaria para o romance uma perspectiva feminista-marxista que você iria adorar. E Costa, um brilhante tecnólogo desiludido por suas experiências profissionais na Big Tech, lançaria luz sobre o papel do capital-nuvem. Só que mais uma questão precisava ser resolvida.
O sujeito do pub queria saber de que maneira sua vida seria diferente sob meu sistema no aqui e agora, com as tecnologias atualmente à disposição, com nossa reserva humana existente, imperfeições e tudo. Eu não podia, em outras palavras, projetar um futuro tecnologicamente mais avançado. Nem povoar meu sistema alternativo com pessoas melhores, mais inteligentes ou mais bondosas do que as que encontramos no pub ou diante do espelho do banheiro. Para resumir, meu projeto teria que ser escrito como se já tivesse sido implementado. Só que, como a história tem importância, e tudo o que fazemos depende de como chegamos até lá, seria insensato descrever meu sistema como se ele existisse em 2020 – o ano em que o livro seria publicado – sem explicar como ele tinha surgido. Em outras palavras, eu precisava de uma história alternativa crível de uma revolução política e social que teria ocorrido em algum ponto do passado. Para esse fim, eu escolhi o ano de 2008 como o ponto em que essa história alternativa divergia da nossa própria. Na minha história, eu imaginei o que poderia ter acontecido se os protestos e rebeliões que surgiram na esteira do crash – concentrações como o Occupy Wall Street, os indignados da Espanha, e os protestos em Atenas na praça Sintagma – tivessem de fato sido bem-sucedidos.
E, no entanto, me parecia importante que meus três personagens de algum modo mantivessem um pé no lado do leitor da história – nossa falha realidade tecnofeudal – a partir do qual avaliar e criticar o sistema alternativo que eu estava conjurando. Como isso poderia funcionar? Mentes não contaminadas pela ficção científica podem achar isso absurdo, mas tendo esbanjado – como você bem sabe – parte da minha juventude mergulhado na ficção científica, onde universos paralelos e buracos de minhoca são corriqueiros, a sorte estava lançada: eu imaginaria duas realidades paralelas. Uma, a nossa própria, na qual o leitor, eu, Eva, Iris e Costa vivemos. E outra em que versões alternativas de nós mesmos habitam um mundo em que o tecnofeudalismo foi substituído por um socialismo de base tecnológica. (No livro, ele é chamado de anarcossindicalismo – mas um termo mais simples seria tecnodemocracia.) A trama seria desencadeada quando uma invenção de Costa abrisse um portal para correspondências escritas entre as duas realidades, permitindo que as personagens oferecessem umas às outras descrições de seus mundos alternativos.
Minha resposta para o sujeito do pub, para o ministro da Fazenda irlandês, para qualquer um que deseje saber qual é a alternativa ao tecnofeudalismo que estou propondo, pode ser encontrada nas páginas do livro resultante: Another Now: Dispatches from an alternative present.17 A seguir está um resumo dele, sem as diversas perspectivas, objeções e debates de minhas três personagens, mas compactado de maneira simples em breves vislumbres da minha alternativa ao tecnofeudalismo. Pronto para imaginar Outro Agora?
Imagine uma empresa em que cada funcionário tem uma única ação, que recebe quando é contratado, do jeito que um estudante retira um cartão da biblioteca quando se matricula na universidade. Essa ação, que não pode ser vendida ou alugada, concede um voto a cada funcionário. Todas as decisões – contratações, promoções, pesquisas, desenvolvimento de produtos, precificação, estratégia – são tomadas coletivamente, com cada funcionário efetuando seu voto por meio da intranet da empresa, que assim funciona como uma assembleia permanente dos acionistas. Só que propriedade igualitária não significa pagamento igualitário.
O pagamento é determinado por um processo democrático que divide a receita da empresa após os impostos em quatro fatias: uma para cobrir os custos fixos da empresa (como equipamentos, licenças, contas de serviços, aluguel e pagamento de juros), outra reservada para pesquisa e desenvolvimento, uma fatia com a qual são feitos os pagamentos básicos da equipe e, por último, uma fatia para bônus. Mais uma vez, a distribuição entre essas quatro fatias é decidida coletivamente, com base em um voto por pessoa.
Qualquer proposta para aumentar uma fatia deve ser acompanhada por uma proposta para reduzir o dispêndio em uma ou mais das outras fatias. Propostas concorrentes são levadas a uma votação na qual os funcionários-acionistas classificam cada proposta em ordem de preferência por meio de uma cédula eletrônica. Se nenhum plano ganhar uma maioria absoluta das primeiras opções, acontece um processo de eliminação. O plano com menos primeiras opções é eliminado e seus votos como primeira opção são realocados para a segunda opção do eleitor. Esse processo algorítmico simples é repetido até que um plano de negócios tenha obtido mais da metade dos votos.
Depois de determinar a quantidade de dinheiro que a empresa irá despender nas diversas fatias, a fatia dos pagamentos básicos é então dividida igualmente entre todos os funcionários – de pessoas recentemente contratadas como secretárias ou na limpeza até os projetistas ou engenheiros mais estrelados da empresa. O que deixa uma importante pergunta sem resposta: como eles decidem a distribuição da fatia do bônus entre a equipe? A resposta é por meio de uma variante do sistema de votação que o Eurovision Song Contest tornou famoso, no qual cada país participante recebe um número de pontos que pode alocar para as canções de cada um dos outros países. Nesse espírito, uma vez por ano, os funcionários recebem cem fichas digitais para distribuir entre seus colegas. A ideia é simples: você destina essas fichas aos colegas que acredita terem contribuído mais durante o ano anterior. Depois de distribuídas as fichas, a fatia total de bônus é alocada proporcionalmente ao número de fichas que cada funcionário recebeu dos colegas.
O impacto de legislar um sistema de governança corporativa desse tipo seria o equivalente a um enorme cometa caindo no leito rochoso do tecnofeudalismo. No nível mais superficial, libertaria os empregados da tirania de gerentes egoístas, mas em um nível estrutural faria muito mais. Primeiro, eliminaria a distinção entre salários e lucros; assim temos propriedade coletiva e eliminamos a divisão de classe fundamental entre aqueles que são proprietários e que recolhem lucros ou rendas e aqueles que alugam seu tempo por um salário. Também abolimos o mercado de ações – apenas um funcionário pode ser dono de uma ação de uma empresa, e apenas de uma ação que não pode ser vendida ou alugada – cortando assim o cordão umbilical que liga as finanças à especulação do mercado de ações. Em uma tacada, acabamos com a financeirização e destruímos as participações privadas. Também, provavelmente, acabamos com a necessidade de reguladores cujo trabalho é desmembrar grandes corporações antes de elas estabelecerem monopólios. Como a tomada de decisões coletivas se torna difícil para além de determinado tamanho – digamos, 500 pessoas –, parece muito provável que os funcionários-acionistas não formariam conglomerados e, no caso daqueles já formados, os desmembrariam em empresas menores.
A maioria das pessoas que conheço, incluindo gerações de estudantes para os quais lecionei, presumem que capitalismo é equivalente a mercados. Que o socialismo deve significar o fim dos preços como sinais para os produtores e os consumidores. Nada poderia estar mais longe da verdade. As empresas capitalistas são zonas livres de mercado em que um processo não mercadológico extrai dos funcionários o mais-valor, que então toma a forma de renda, lucro e juros. Quanto maior a empresa, e quanto mais capital-nuvem ela emprega, maiores as rendas que ela extrai de uma sociedade cujos mercados, como resultado, funcionam mal.
Em contrapartida, as empresas democratizadas que proponho aqui, e em Another Now, são mais consistentes com mercados competitivos e funcionais em que os preços – livres do flagelo da renda e do poder de mercado concentrado – são formados. Em outras palavras, eliminar as empresas capitalistas, por meio da dissolução dos mercados de ações e de mão de obra, abre caminho para mercados de produtos verdadeiramente competitivos e para um processo de formação de preços que aciona o grande o motor do empreendedorismo e da inovação que o pensamento convencional, erroneamente, associa ao capitalismo.18
O que tudo isso significaria para os capitalistas-nuvem? Os vários Bezos, Zuckerbergs e Musks acordariam e descobririam que detêm uma única ação de “suas” empresas, que lhes renderia um único voto. Em cada um dos itens da agenda de tempo contínuo do processo de tomada de decisões da Amazon, do Facebook, do Twitter ou da Tesla, eles teriam que convencer uma maioria de seus companheiros funcionários-acionistas igualmente empoderados. O controle sobre o capital-nuvem da empresa, incluindo os onipotentes algoritmos em seu cerne, seria democratizado, pelo menos dentro dos limites da empresa. Ainda assim, a potência do capital-nuvem não seria menor – sua natureza como um meio de modificação de comportamento produzido continuaria inalterada –, e então a boa sociedade precisaria de mais proteções contra ela.
Uma proteção desse tipo seria uma Lei de Responsabilidade Social estipulando que cada empresa fosse classificada de acordo com um índice de mérito social, a ser compilado por painéis de cidadãos selecionados aleatoriamente, equivalentes a jurados, escolhidos a partir de um grupo diverso de partes interessadas: os clientes da empresa, os membros das comunidades que ela afeta e assim por diante. Se a classificação de uma empresa ficar consistentemente abaixo de determinado limiar, uma consulta pública pode resultar na dissolução da empresa. Uma segunda e ainda mais pertinente proteção social é proporcionada pela interrupção dos serviços “gratuitos”.
Aprendemos por mal o que acontece quando os serviços são financiados pela venda da atenção dos usuários a terceiros. Isso transforma os usuários em servos das nuvens, cujo trabalho aumenta e reproduz o capital-nuvem, estreitando ainda mais seu controle sobre nossas mentes e comportamento. Para substituir a ilusão de serviços gratuitos, nossa realidade alternativa apresenta uma plataforma de micropagamentos, que vamos chamar de “Um tostão por seus pensamentos”. Ela funciona mais ou menos como o modelo de assinatura da Netflix, mas combinado com o princípio de provisão universal do Sistema Nacional de Saúde britânico. Desenvolvedores de aplicativos que precisem de nossos dados precisam pagar para obtê-los de usuários que deem seu consentimento, protegidos por uma Lei de Direitos Digitais que nos garanta todo o direito de escolher que dados desejamos vender e para quem. A combinação da plataforma de micropagamentos com a Lei de Direitos Digitais elimina, na prática, o modelo atual do mercado de captura de atenção. Ao mesmo tempo, qualquer pessoa que use um app paga ao desenvolvedor pelo acesso a ele. As somas envolvidas são pequenas para os indivíduos, mas para um app com um grande conjunto de usuários, elas se acumulam. Isso não impediria algumas pessoas de conseguir arcar com os serviços digitais de que precisam? Não, por causa do modo como o dinheiro funciona nesse sistema alternativo.
Imagine que o banco central forneceu a todos uma carteira digital gratuita, efetivamente uma conta bancária gratuita. Para atrair pessoas para usá-la, um estipêndio (ou dividendo básico) é creditado mensalmente em cada conta, tornando a renda básica universal uma realidade. Dando um passo além, o banco central paga juros àqueles que transferem suas importâncias de suas poupanças em bancos comerciais para suas novas carteiras digitais. Com o tempo, se seguiria um êxodo massivo, se não total, à medida que as pessoas transferissem suas economias dos bancos privados para esse novo sistema de pagamentos e poupanças público e digital. Isso não exigiria que o banco central emitisse uma imensa quantidade de moeda?
Sim, o dinheiro dos estipêndios terá de ser emitido, ainda que não a uma taxa superior às quantidades que os bancos centrais vêm emitindo desde 2008 para reforçar bancos privados permanentemente instáveis.19 Quanto ao resto do dinheiro, ele já foi emitido pelos bancos privados. Tudo o que acontece aqui é que ele migra dos livros-razão arriscados dos bancos privados para o livro-razão seguro do banco central. Quando as pessoas e as empresas começarem a fazer pagamentos umas às outras usando esse sistema, todo o dinheiro permanecerá no livro-razão do banco central, indo de uma parte dele para outra a cada transação, em vez de ficar disponível para os banqueiros e seus acionistas apostarem com ele.
Isso transforma os bancos centrais de servos complacentes dos banqueiros privados em algo parecido com um commons monetário. Para supervisionar suas operações, incluindo a quantidade de dinheiro no sistema e a privacidade das transações de cada pessoa, o banco central responde a um Júri de Supervisão Monetária, que também o monitora e é constituído de cidadãos selecionados aleatoriamente e de especialistas de uma ampla gama de profissões.
E quanto aos investimentos? Nesse sistema, você pode emprestar suas economias para uma start-up ou uma empresa madura, mas não pode comprar um quinhão de empresa nenhuma – já que as ações são distribuídas apenas na base de uma ação por funcionário. Em vez disso, você pode emprestar sua poupança diretamente, ou usando a carteira digital do banco central ou por meio de um intermediário –, mas com esta estipulação crucial: esse intermediário não pode emitir moeda do nada, como os bancos hoje fazem sempre que concedem um empréstimo, e sim devem negociar com fundos já existentes de poupadores de fato existentes.
E quanto à taxação? Lembre-se de que há três tipos de rendimentos. Primeiro, os dividendos básicos creditados nas carteiras digitais dos cidadãos pelo banco central. Segundo, ganhos do trabalho nas empresas democratizadas, compostos de salários básicos mais os bônus. Terceiro, os juros pagos aos poupadores pelo banco central ou por intermediários privados. Nenhum desses rendimentos é taxado. Assim como não há impostos sobre vendas, IVA ou qualquer coisa do tipo. Então quem financia o Estado? Cada empresa o faz, por meio de um imposto fixo sobre todas as receitas, por exemplo, 5%. Perceba que essa é uma porção fixa da receita total, não dos lucros, o que impede o escopo infinito de truques de contabilidade que disfarçam despesas como custos para diminuir os rendimentos taxáveis. Os únicos outros impostos recaem sobre terras e edifícios comerciais, discutidos mais adiante.
Quando se trata de comércio e pagamentos internacionais, um novo sistema financeiro internacional garante transferências de riqueza contínuas para o Sul Global, restringindo, ao mesmo tempo, os desequilíbrios comerciais e financeiros do tipo que infla bolhas e provoca crashes financeiros. A ideia é que todo o comércio e toda a movimentação financeira entre jurisdições monetárias diferentes – como Reino Unido, Alemanha, China e Estados Unidos – estejam denominados em uma unidade contábil internacional digital que eu chamo de Kosmos. Se o valor em Kosmos das importações de um país excede o de suas exportações, é cobrado do país um tributo sobre o desequilíbrio, proporcional a seu déficit comercial. Do mesmo modo, se as exportações de um país excederem suas importações, também é cobrado o mesmo tributo proporcional a seu superávit comercial. Isso acaba com a motivação mercantilista para um país extrair persistentemente valor de outro país vendendo-lhe mercadorias de maior valor do que aquelas que importa dele, e, subsequentemente, para lhe emprestar dinheiro para continuar comprando – uma forma de financiamento pelo fornecedor que coloca o país mais fraco em uma eterna servidão por dívida.
Enquanto isso, um segundo tributo sobre alta é cobrado da conta Kosmos de um país sempre que dinheiro demais é movimentado saindo ou entrando do país rápido demais. Por décadas, países em desenvolvimento foram prejudicados sempre que o “smart” money, percebendo crescimento econômico futuro (por exemplo, Coreia do Sul, Tailândia, alguns países africanos), se precipitava para comprar terras e empresas antes que seus preços subissem. À medida que os influxos de dinheiro aumentavam, os preços das terras e das empresas disparavam, e expectativas falsas a respeito do nível de crescimento se firmavam, inflando assim as bolhas. Assim que as bolhas estouravam, como sempre estouram, o “smart” money saía correndo do país mais rápido do que tinha entrado, deixando apenas vidas e economias arruinadas para trás. O propósito, portanto, do tributo sobre alta é taxar essas movimentações especulativas de dinheiro para deter o dano desnecessário aos países mais frágeis.20 O produto desses dois tributos é então usado para financiar investimentos sustentáveis diretos no Sul Global.
O sistema de uma ação por funcionário tem efeitos revolucionários: ele coloca um ponto-final nos mercados de ações e de mão de obra e no Império do Capital, democratiza os locais de trabalho e diminui organicamente o tamanho dos conglomerados. A reconfiguração do livro-razão do banco central como um sistema de pagamentos e poupança gratuitos tem efeitos igualmente revolucionários: sem banir de fato os bancos privados, ela puxa seu tapete ao nos livrar de nossa dependência deles para realizar pagamentos ou guardar nossas economias. Além do mais, a provisão de dividendo básico revoluciona o nosso modo de pensar o trabalho, o tempo e o valor, nos livrando da opressiva equação moral da labuta e da virtude remuneradas. Por fim, o sistema Kosmos equilibra o fluxo e o refluxo internacional de bens e dinheiro, impedindo a exploração de economias mais frágeis pelas mais poderosas e financiando investimentos sustentáveis nas partes do mundo onde eles são mais necessários.
Esses são os pilares fundamentais de uma economia livre da tirania do capital e, assim, nega-se ao tecnofeudalismo a base de que ele precisa para nos controlar. A pergunta agora surge: como exatamente livramos nossas sociedades da tirania da renda – o velho tipo de renda da terra, que sobreviveu à derrota do feudalismo pelo capitalismo, e das rendas das nuvens de que agora o tecnofeudalismo depende?
As nuvens e a terra como bens comuns
O café está quase pronto. Seu laptop está inicializando. Pouco depois, com a caneca de café na mão, você está lendo atentamente o feed de notícias da manhã de um site de mídia operado pela biblioteca do seu bairro. O primeiro item das notícias trata de um referendo local iminente, o segundo fala do esforço brasileiro para compensar seus povos originários por décadas de extração de madeira ilegal, o terceiro relata um debate entre os membros atuais do Júri de Supervisão Monetária sobre se o banco central deve baixar a taxa de juros que os poupadores recebem ou, alternativamente, aumentar o dividendo básico de todos. O noticiário está um pouco árido para o seu gosto, então, cuidadosamente evitando as páginas de esportes, você clica na sua seção favorita dedicada à arqueologia, que é constantemente atualizada por pesquisadores do mundo todo. Ah, sim, isso, sim, faz seu coração bater mais rápido!
Seu feed de notícias e as seções que o acompanham são compilados por um algoritmo calibrado e mantido pelo centro de mídia público local, que, por sua vez, é de propriedade de seu município, mas é controlado por pessoas locais selecionadas por meio de uma combinação de sorteios e votações. Às vezes, você fica entediado com o feed de notícias deles e se volta para um mapa mundial digital cheio de pontos, cada um representando outros centros de mídia públicos digitais cujos feeds de notícias você consegue acessar com um único clique.
Sempre que você visita um centro de mídia de fora da sua área, um pagamento ínfimo deixa sua conta no banco central e ajuda a financiar as boas pessoas que lhe oferecem uma janela para o mundo delas. Não há anúncios, não há algoritmos de modificação comportamental. Quanto a esses pagamentos ínfimos, eles são insignificantes se comparados ao dividendo básico que lhe é pago mensalmente pelo banco central. Além disso, pagá-los faz você se sentir bem. Eles lhe rendem – e a todas as outras pessoas – civilização. Eles lhe oferecem uma vitrine para o mundo, para centros de mídia colaborativa espalhados por todo o planeta, procurando ao máximo oferecer “informação boa, diversa e empolgante, conhecimento e um toque de sabedoria” – como seu portal de mídia local anuncia seus artigos.
Com sua caneca de café vazia, é hora de ir trabalhar. Você clica no app de transporte do seu telefone, também oferecido por seu município, e então clica de novo em “trabalho”. Aparece uma lista de tarifas oferecidas por diversas cooperativas de motoristas, junto com a informação de onde e quando você pode pegar o ônibus ou trem mais próximo. Você se lembra com um breve calafrio da época da Uber e da Lyft, aqueles feudos das nuvens que exploravam o trabalho dos motoristas, transformando-os em proletários das nuvens, e os dados dos passageiros, transformando-os em servos das nuvens. A lembrança ruim se dissipa quando você se lembra de que, hoje em dia, os proprietários-motoristas e os funcionários do transporte público controlam os algoritmos – não o contrário. E você parte com um impulso no passo, agora que já não é empregado por uma empresa capitalista, de propriedade de obscuras empresas de fachada, que o tratavam como uma mistura de robô e forragem humana. A vida ainda é um campo minado de preocupações, sobretudo porque talvez tenhamos arruinado o clima irreparavelmente, mas pelo menos o trabalho não é sistematicamente devastador para a alma.
No trabalho, você tem um app no seu telefone que lhe dá acesso a todos os tipos de cédulas de votação para acionistas-funcionários, em algumas das quais você vota – e algumas que você opta por pular. Se tem uma ideia para um novo modo de fazer as coisas ou um novo produto, você a posta no Quadro de Ideias da empresa e espera para ver quem, entre seus colegas, quer trabalhar com você para desenvolvê-la. Se ninguém quiser, você ainda pode seguir em frente e voltar a postar a ideia quando ela estiver mais madura. As coisas não são perfeitas. A natureza humana sempre encontra maneiras de arruinar as coisas mesmo no melhor dos sistemas. Seus colegas, se formarem maioria, podem votar para você ser demitido. Mas a atmosfera no trabalho é agora de responsabilidade compartilhada, o que reduz o estresse e cria um ambiente no qual o respeito mútuo tem mais chance de florescer.
No seu caminho para casa, quando seu táxi deixa a área comercial, você se lembra da época triste em que, para ter um lugar para morar, as pessoas tinham que optar entre a servidão por dívida de hipoteca e o aluguel; entre uma vida como cativo de um banqueiro ou de um senhorio; entre taxas de hipoteca predatórias e aluguéis rapinantes. Agora, cada região é administrada por uma Associação Distrital que supervisa a divisão de terras entre regiões comerciais e sociais, de modo que os aluguéis recolhidos do primeiro financiam a provisão de habitação social do segundo. Como é de praxe, as pessoas que presidem a Associação Distrital são selecionadas aleatoriamente – com a ajuda de um algoritmo que garante a representação justa dos diversos grupos e comunidades de um distrito. A moradia já não é uma fonte constante de ansiedade, e, sim, um lugar em que você se sente capaz de criar raízes no longo prazo.
Deixarei você imaginar o restante da sua vida nesse presente alternativo, enquanto explico um pouco mais sobre seu aspecto mais crucial: a posse da terra e da propriedade, a mais antiga das fundações dos sistemas feudal e capitalista, e a partilha de poder.
O segredo do sistema de cobrança de aluguéis na região comercial é um Programa Permanente de Sublocação em Leilão (PPSL), um mecanismo projetado para garantir que as comunidades possam extrair o máximo de renda de suas regiões comerciais para investir em suas regiões sociais. O PPSL funciona mais ou menos como aquele truque famoso para dividir um bolo de maneira justa entre duas pessoas: uma corta, a outra escolhe. No mesmo espírito, o PPSL cria um leilão permanente que opõe os atuais ocupantes de um espaço comercial aos ocupantes em potencial.
Uma vez por ano, na condição de ocupante atual da região comercial, você deve visitar o PPSL e submeter a valoração da sua propriedade baseada em duas regras. Primeiro, o PPSL irá computar seu aluguel mensal como uma porção fixa de seu valor de mercado autodeclarado – sem auditorias, sem burocracia, sem pechincha, sem corretores imobiliários. Ótimo, não é? Mas aqui vem a segunda regra: qualquer um pode, a qualquer altura no futuro, ir ao PPSL e oferecer uma valoração mais alta, em cujo caso você está fora, e essa pessoa, dentro, no prazo de seis meses. Essa segunda regra garante que você tenha um incentivo para declarar sua valoração tão fiel e precisamente quanto puder. Se você exagerar na sua verdadeira valoração, vai acabar pagando um aluguel mais caro do que ele vale. E se você subvalorar, aumenta as chances de se arrepender de sua valoração – assim que alguém oferecer um valor mais alto, mais próximo da verdadeira valoração, e ao fazer isso o colocar para fora.
A beleza do PPSL é que a Associação Distrital não tem que fixar aluguéis na região comercial. Na primeira instância, seu trabalho é simplesmente decidir quais terras e prédios designar às regiões comerciais e quais às regiões sociais. Se reservarem terras demais para as regiões sociais, terão menos dinheiro para investir nelas. Em contrapartida, expandir as regiões comerciais deixa menos espaço para habitação social e empreendimentos sociais. Uma vez que a Associação Distrital tiver decidido como resolver esse equilíbrio, sua segunda e mais difícil tarefa a aguarda: definir o critério de acordo com o qual as habitações sociais – sobretudo as casas mais desejadas – serão distribuídas. Esse é o problema mais difícil de resolver. Então, quem está na Associação Distrital é crucial.
Uma Associação Distrital eleita substituiria a tirania da posse da terra pela tirania dos sistemas eleitorais, que têm uma propensão inerente para gerar hierarquias poderosas. Sabendo disso, os antigos democratas atenienses se opuseram às eleições e as substituíram por sorteios – a ideia que está na raiz dos sistemas de júris ocidentais. Se existe alguma coisa capaz de recriar um commons da terra numa sociedade tecnologicamente avançada, essa coisa é sem dúvida sua Associação Distrital, composta de moradores selecionados aleatoriamente.
O mesmo princípio se estende para além das regiões e dos distritos, até a governança da nação como um todo, que acontece com a ajuda de uma Assembleia de Cidadãos nacional. Composta de cidadãos selecionados aleatoriamente de todo o território, ela funciona como uma área de testes de ideias, políticas e legislação. A deliberação pelos membros do seu júri ajuda a dar forma às leis que o Parlamento posteriormente irá debater e aprovar.21 O demos, finalmente, foi recolocado na democracia.
Uma rebelião das nuvens para derrubar o tecnofeudalismo
Ao longo deste livro, esbocei o sistema que passei a acreditar que está substituindo, e que em muitos contextos já substituiu, o capitalismo: o sistema que chamo de tecnofeudalismo. Sempre que apresentei esse argumento no passado, ele foi invariavelmente recebido com consternação e até ira entre pessoas da esquerda. É compreensível: qualquer um que encontre conforto, como você encontrava, pai, na esperança de que o capitalismo está destinado a ser substituído pelo socialismo, como Marx previu que seria, está fadado a se sentir desenganado e desalentado com o fato de que o pós-capitalismo chegou, mas não o socialismo – aliás, com o fato de que o sistema que o substituiu é ainda pior. Só que há outra razão ainda mais perturbadora para a reação deles.
Um ativista marxista uma vez me explicou isso esplendidamente: “Yanis, se você estiver certo de que a exploração acontece para além dos limites das empresas capitalistas”, ele disse, com uma honestidade desconcertante, “então organizar o proletariado nunca vai ser o bastante!”. Esse é exatamente o meu argumento. Não estou sugerindo que organizar operários, condutores de trem, professores e enfermeiros não é mais necessário. O que estou dizendo é que isso está longe de ser suficiente. Em um mundo cada vez mais dominado pelo capital-nuvem, que é amplamente produzido pela mão de obra gratuita de servos das nuvens não remunerados, organizar o proletariado – e, aliás, o precariado – não vai bastar. Para termos qualquer chance de derrubar o tecnofeudalismo e devolver o demos à democracia, precisamos unir não apenas o proletariado tradicional e os proletários das nuvens, mas também os servos das nuvens e, na verdade, pelo menos parte dos capitalistas vassalos. Nada menos do que uma grande coalizão desse tipo, que inclua todos eles, pode abalar suficientemente o tecnofeudalismo.
Isso talvez soe como uma exigência enorme – e é. Mas a resistência ao poder exorbitante do capital sempre foi uma exigência enorme. Quando penso no que era necessário para organizar um sindicato no século XIX, eu estremeço. Operários, mineiros, estivadores, tosquiadores, costureiras encaravam as agressões da polícia montada e a violência de brutamontes a mando dos capitalistas. Sobretudo, eles encaravam perder o emprego, numa época em que renunciar a um salário de um dia significava que sua família passaria fome. Mesmo quando conseguiam levar a cabo uma greve com êxito, qualquer aumento de salário que obtinham era dividido com os não grevistas, piorando um cálculo que já pesava muito contra a mobilização. E ainda assim eles se mobilizavam. Eles o faziam na contramão das probabilidades, esperando prejuízos pessoais imensos e certos em troca de alguns poucos e incertos benefícios compartilhados.
O tecnofeudalismo ergue uma nova e grande barreira à mobilização contra ele. Mas também atribui um grande novo poder aos que ousam sonhar com uma coalizão para derrubá-lo. A nova e grande barreira é o isolamento físico entre os servos das nuvens e os proletariados das nuvens. Nós interagimos com o capital-nuvem e estamos sujeitos a ele através de nossas telas individuais, através de nosso celular pessoal, através dos aparelhos digitais que monitoram e administram os funcionários dos depósitos da Amazon. A ação coletiva fica ainda mais difícil quando as pessoas têm menos oportunidades de se reunir. Mas aqui reside o grande poder que o capital-nuvem apresenta aos seus rebelados em potencial: uma capacidade de construir coalizões, se organizar e agir através das nuvens.
Em seus primeiros tempos, essa era uma das promessas do Twitter, é claro: que ele poderia possibilitar a mobilização das massas. Da Primavera Árabe ao Black Lives Matter, vimos até que ponto essa promessa foi concretizada e até que ponto não foi. Mas não estou falando apenas sobre uma mobilização através das nuvens, e sim sobre ações que poderiam de fato acontecer usando os sistemas e as tecnologias da nuvem. Em Another Now eu imaginei uma ação global visando uma empresa capitalista-nuvem de cada vez – a começar pela Amazon. Imagine uma coalizão internacional de sindicatos conclamando os funcionários dos depósitos da Amazon no mundo todo a não comparecerem por um dia.22 Sozinha, uma ação dessas é frágil. Mas não se uma campanha mais ampla convencesse suficientes usuários e clientes no mundo todo a não entrar no site da Amazon apenas por aquele um dia, para resistir ao seu status de servos ou vassalos naquela pequena janela de tempo. A inconveniência pessoal envolvida seria trivial, mas seus efeitos cumulativos seriam impressionantes. Mesmo que essa ação fosse apenas moderadamente bem-sucedida, provocando, digamos, uma queda de 10% nas receitas habituais da Amazon, enquanto a greve nos depósitos tumultuasse as entregas por vinte e quatro horas, tal ação poderia se provar o suficiente para baixar o preço das ações da Amazon de maneiras que nenhuma ação trabalhista tradicional poderia lograr. É assim que os proletários das nuvens e os servos das nuvens podem se unir de modo efetivo. É isso que chamo de mobilização nas nuvens.
A beleza da mobilização nas nuvens é que ela coloca em xeque o cálculo convencional da ação coletiva. Em vez de um sacrifício pessoal máximo para um ganho coletivo mínimo, agora temos o contrário: sacrifício pessoal mínimo gerando grandes ganhos pessoais e coletivos.23 Essa inversão tem o potencial de abrir caminho para uma coalizão de servos das nuvens e proletários das nuvens ampla o bastante para abalar o controle dos capitalistas-nuvem sobre bilhões de pessoas.
Naturalmente, ações desse tipo contra uma ou até várias grandes empresas capitalistas-nuvem não serão o bastante. A rebelião das nuvens que visualizo terá de recrutar para sua causa muitas bases diferentes – incluindo, por exemplo, qualquer um que perca o sono quando chega sua conta de luz ou de água. Habilmente calculadas, greves de pagamento direcionadas poderiam ser usadas para provocar uma queda equivalente nos preços de ações e derivativos de empresas privadas de serviços públicos. Se levadas a cabo na hora certa, essas greves pacíficas de guerrilha poderiam fazer muito para prejudicar a influência política e econômica de conglomerados cujos destinos estão cada vez mais misturados com o das finanças das nuvens. A rebelião poderia angariar apoio internacional também se lançasse mão, digamos, de um boicote de consumidores nos Estados Unidos para atingir especificamente uma empresa por sua opressão de trabalhadores na Nigéria ou pela destruição de reservas naturais no Congo.
Outra campanha poderia envolver solicitar indicações de pessoas do mundo todo para empresas com os piores históricos de contratos de zero horas ou baixos salários, com as maiores pegadas de carbono ou más condições de trabalho, ou as que têm o costume de “enxugar os negócios” para impulsionar o valor das ações – e então organizar uma retenção maciça de contribuições para fundos de pensão que detêm ações nessas empresas. Tão somente anunciar ter um fundo de pensão como alvo seria o bastante para fazer suas ações despencarem e provocar um êxodo de investidores preocupados de fundos de investimentos relacionados a ele.
Inspirado pelo Wikileaks, eu imaginei em Another Now um grupo de rebeldes escrevendo e fazendo o upload de vírus digitais cujo propósito seria simplesmente a transparência: rastrear e revelar para o mundo as conexões digitais ocultas entre capitalistas-nuvem, agências governamentais e atores nocivos, como empresas de combustível fóssil. Como e se isso é possível eu não sei, mas estou convencido de que, se por quaisquer meios essas instituições soubessem que tinham bilhões de olhos treinados observando suas ações, ficariam paralisadas – e conforme as vendas caíssem desses bilhões de olhos, a coalizão ganharia ainda mais aliados e apoio.
Nada disso é fácil ou inevitável. Mas é mais difícil ou menos provável do que aquilo que os mineiros, as costureiras e os estivadores idealizaram e sacrificaram suas vidas para conquistar no século XIX? A nuvem tira – mas a nuvem também dá àqueles que desejam recobrar liberdade e democracia. Cabe a eles, a nós, decidir e provar qual desses dois é maior.