Mallory podia não ser a pessoa que melhor conhecia Marilyn, mas de tudo que já havia visto da irmã, jamais fora capaz de imaginá-la tão fora da casinha como naquela situação. Infelizmente, foi o pior momento para mostrar à mais nova aquele lado, já que tudo o que ela precisava era o completo oposto. Mais do que desabar no choro, Mallory queria sumir dali a cada palavra bradada pela mais velha, que só a fazia se sentir pior, derrubando um a um os tijolinhos da parede de sua auto-confiança que a ajudavam a manter as coisas em pé em sua vida. Mas Mallory também não era de se intimidar fácil e encolher-se ouvindo, bradar raivosamente era a forma de defesa que parecia correr no sangue da família Kingston, já que Andrew, pai das garotas, era o único naquela família que não fazia o mesmo ― afinal, não era louco, sabia que não estaria vivo se aderisse àquela forma de enfrentamento. Mais magoada do que irritada, levantou-se repentinamente, não querendo olhar a irmã por baixo por sentir que aquilo poderia dar um falso ar de inferioridade “Pois você quer saber, Marilyn?! Eu não acho, eu tenho certeza! Você odiaria mais do que tudo perder um décimo da sua fama de filhinha perfeita para os nossos pais, e para isso você sacrificaria até algo que me colocasse em uma puta encrenca! Você fazia isso quando eramos crianças, Marilyn, então por que diabretes não faria isso nos dias de hoje? Você diz que amadureceu, mas eu não vi diferença nenhuma!” deixou sua fúria falar mais alto, tão acuada que seu instinto de auto-proteção a fez passar por cima do filtro do que poderia magoar a irmã. Não que algum dia Mal fosse querer o mal de Mary, porém naquele momento, queria sim que ela se ofendesse para que baixasse sua dominância na discussão, a fazendo sentir-se como a única errada na história.
“Cuidar de mim?! Me poupe, Marilyn! Eu vivi mais de dez anos sem você, então nem venha achando que eu não sei viver sem ter você como babá, porque nós duas sabemos que não é assim!” retrucou, e sentiu-se ofendida pela irmã querer dizer-se tão importante tão repentinamente. Não que tivesse precisado dela, mas onde estava todos os outros anos?! Ela não podia simplesmente chegar de para-quedas na vida da mais nova e querer assumir as rédeas! “Pois eu acho bom que você não rele em mim, Marilyn, e não se preocupe, não é como se ele precisasse ter você como tia! Se você for se comportar assim com ele, então é melhor que ele sequer saiba da sua existência! Pronto, aí acaba todo o seu envolvimento no problema!” falou com amargura, apesar de não deixar transparecer em seu olhar vidrado em lágrimas que não vencia limpar com as mangas da camiseta.
Se as Clarke tinham de fato algo inegável em comum era a risada sarcástica que causava até um frio na espinha de quem não estivesse acostumado. Soltando o mesmo som que a irmã e com o mesmo nível de indignação, ela retrucou, interrompendo-a “E quem você acha que é pra dizer o que eu vou ou não fazer? Se liga, Marilyn, se nem a mamãe e o papai mandam mais em mim, imagine você!” suas palavras saíram cuspidas ao que a morena indicava com a mão a mais velha como se indicasse a ela para procurar sua importância. “Você pode até achar que sabe alguma coisa da vida, ou da minha vida, mas está enganada. Não consegue dar um passo fora da linha, mas eu consigo.” declarou, erguendo as sobrancelhas de modo a demonstrar que falava sério, e que sua fala tinha potencial, não sendo mais uma mera ameaça adolescente. Novamente, a risada sarcástica ecoou pelo banheiro na voz de Mallory “Por favor, Marilyn, deixe de ser ridícula! Cuide da sua vida, que da minha eu cuido! E boa sorte perguntando para cada ser de Hogwarts e do Instituto com um pênis sobre as minhas transas com eles.” ela abriu um sorriso irônico que exalava raiva e maldade, só por saber que a irmã sentiria-se mais do que desconfortável em ouvir isso vindo de sua irmãzinha mais nova. Infelizmente, todo aquele estresse estava a fazendo mal, e a morena precisou novamente agachar-se para que não caísse. Sua visão estava turva e sua pressão sanguínea parecia estar alterada, mas ela era orgulhosa demais e jamais daria à mais velha o prazer de vencer ao pedir a ajuda dela, não em momentos de briga como aquele. Ao contrário dos membros de sua família, Mallory não perdoava fácil e guardava rancor, tanto que sequer considerou amenizar a irritação ou perdoar a irmã, até mesmo quando ela postou-se diante de si, amenizando o tom de voz. Seus olhos estavam inchados pelo choro, porém seu olhar fuzilante de tanta raiva ainda era explícito ao olhar para a irmã. “Surprise, bitch, parece que dessa vez a situação não está sob seu controle.” cuspiu as palavras com a intenção de machucar a irmã mesmo, controlando-se para não sacar a varinha ali mesmo e estuporá-la, tamanho era seu furacão de sentimentos ruins, que faria bastante estrago se não saíssem de perto. “Vá à merda, Marilyn! Suas atuaçõezinhas não funcionam comigo, e é óbvio que tinha outras mil maneiras melhores de reagir! Mas, não, você explodiu e, como sempre, só pensou na parte que te atinge do problema, mesmo que seja existente só na sua cabeça de bonequinha do mundo perfeito!” ralhou, levantando o corpo com algum esforço necessário, e olhando para baixo, querendo emanar superioridade, apontou furiosa a porta com a varinha em mãos “Saia daqui antes que eu resolva te estuporar e apagar a sua memória sobre isso. Eu não quero mais olhar na sua cara, Marilyn. Minha vida estava bem melhor antes de você chegar, então não venha se achando imprescindível, porque você não é!” bradou em ultimato, e seu olhar que parecia lançar fogo a qualquer momento mostrava o quão sério estava falando, avisando que qualquer um que resolvesse desafiá-la naquele momento poderia ser considerado louco e sem amor à vida.
Ela ouviu palavra por palavra, sem abrir a boca. A raiva poderia estar crescendo desenfreada dentro de si, mas por fora o seu semblante era sereno e estranhamente venenoso. Estava magoada, obviamente. Não ficara surpresa com tudo o que Mallory havia falado, porém isso não significava que deixava de ser doloroso. Doía demais ouvir aquilo de sua própria irmã, doía tanto que no final ela até mesmo ficou sem palavras pra responder. Seu cérebro ainda raciocinava todos os insultos que lhe foram oferecidos, e lentamente ela se levantou do chão, nada intimidada com a varinha apontada em sua direção.
Antes daquilo, antes de surtar, ela até havia pensado em contar a maior vergonha da sua vida que aconteceu em Beauxbatons, o real motivo de ela ter se afastado de lá por um tempo. Tinha a certeza de que a mais nova havia pensado que fora apenas mais um capricho, um sonho de princesinha se tornando realidade quando na verdade ela estava fugindo. Mas é claro, os pais pagaram uma fortuna pra esconder o acontecido da mídia e pra calar a boca de vários estudantes. Mary apenas havia esquecido que o esforço foi o bastante para que ela esquecesse de contar à irmã.
Toda a confiança que tinha nela, toda a esperança que havia colocado em um novo relacionamento das duas de repente desapareceu, e novamente a outra fora colocada como oponente. Se Mallory pretendia que ela saísse dali sem dizer nada, estava muito enganada. Agora sua figura se projetava muito acima da garota, sem dar um passo sequer pra trás, não era medrosa. Não haveria arrependimentos, ela iria falar e sair dali como se nada tivesse acontecido.
— Você me conhece tão bem, não é? Eu realmente sou a princesinha, a que odeia ser rejeitada, boa tacada. Mas pelo menos eu tenho auto-controle, aprendi a ter, diferente de você. Isso inclui manter a boceta dentro das calças e ter o mínimo de responsabilidade, se você não sabe. — Sua voz nunca fora tão calma e lenta, e ela conseguia ver a fúria nos olhos da irmã. Mal poderia a estuporar a qualquer momento, mas Mary iria terminar o que havia começado. Àquele ponto estava machucada demais pra se preocupar com os machucados alheios. — Sempre agiu como a adolescente revoltada, a ovelha negra da família quando nós duas sabemos que você tem a exata porcentagem de veneno que uma Kingston Clarke deveria ter. Mas isso... — apontou pra barriga dela. — indica que seu tempo acabou. Agora me dê licença e pare com esse showzinho de bruxa descontrolada, está me entediando. — Sorriu ironicamente, virando às costas pra sair dali. A varinha rapidamente estava em suas mãos, desbloqueando a saída. — E fique longe do meu apartamento. Uma ótima opção se não quer mais olhar na minha cara. — Disse enquanto saía do banheiro. Respirou fundo ao chegar no corredor, ainda firme nos saltos. Mallory queria que ela fosse a vilã, então ela seria a vilã.