Acabou.
Se eu pudesse desejar apenas uma coisa para vocês nesse meu último texto, é que você sejam sempre pessoas incompletas.
Não pessoas tristes, vazias, ou coisa do tipo. Desejo apenas que sejam incompletas.
Quando comecei esse blog, me sentia incompleto. Tinha muitas confusões na cabeça, coisas que eu não entendia a explicação. Muitas foram respondidas cada vez que eu pesquisava para um texto. Outras eu sei que nunca vou entender, porque eu não sou mulher. Sei que nunca vou saber como uma mulher se sente a receber olhares de todos os lados a cada passo que dá pela rua.
Serei sempre incompleto em compreender. Em sentir. Em entender.
Eu não escrevi durante um ano para vocês que lêem. Sinto muito dizer isso só agora para vocês. Mas tudo que eu escrevi, escrevi para mim. Para eu pensar no assunto, para eu tentar ouvir, entender e reconhecer coisas que antes eu não ouvia, entendia ou reconhecia por ser de outro gênero.
Escrevi para tentar me tornar uma pessoa melhor para mim e para os outros. Mas o grande problema disso é que quando se termina um texto, você já não é a mesma pessoa, então seus conceitos mudam, suas percepções mudam, seu olhar pro mundo muda. Por isso esse sentimento de estar incompleto persiste. Quanto mais a gente sabe, mais a gente sabe que não sabe, sabe como é?
Então, não deixem de ser pessoas incompletas.
Fico feliz por poder me despedir de vocês. Muitas vezes, não temos essa oportunidade. Com muitas pessoas na minha vida eu não pude dizer um simples adeus. Algumas passaram tão rápido que, tão surpreendente quanto vê-las chegarem, foi triste vê-las partir.
São o tipo de pessoa que passam pela nossa vida para a gente saber que elas estão por aí, rodando pelo mundo, e a gente ficar feliz só em saber que essa pessoa existe.
Muitas das pessoas que citei nesse blog foram assim, outras, persistem até hoje. Outras surgiram em meio ao blog, só pra mostrar que a vida é realmente essa arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Agradeço ao Diogo do passado por ter se disposto a escrever durante 365 dias sobre esse tema específico. Mas o Diogo do presente está cansado. E eu me sinto culpado por estar cansado.
Porque amanhã, as mulheres continuarão a escrever sobre a opressão que sentem e como o mundo as tratam. Muitas vezes me senti frustrado, por saber que certas coisas eu não podia mudar. Mas depois de um tempo, aprendi que meu papel não era mudar o que as mulheres lutam para mudar. Mas mudar onde é mais fácil para mim ser ouvido que a uma mulher, até que suas vozes sejam tão fortes quanto a minha era nesse ambiente, simplesmente pelo meu gênero ser diferente. Não ser um porta-voz. Talvez, um alto-falante.
Muita gente me pergunta o que vou fazer agora, depois do blog. Bem, eu já estou fazendo (por isso no último mês a freqüência deu uma caída aqui no blog aliás. Me desculpem por isso). Eu tenho um grupo de amor-livre, que realiza reuniões de debate todos os meses aqui em São Paulo. Estamos trabalhando nas transformações desse lado também.
Aliás, o mais curioso sobre esses 365 dias do blog é que o meu texto mais compartilhado, não foi exatamente sobre feminismo. Mas sobre não-monogamia (e como ela me ajuda com o feminismo).
Eu e outras pessoas vimos então que há um público querendo discutir esse lado da sociedade. Então, vamos discutir e ver o que podemos fazer, da parte de cada um, para a vida das outras pessoas ficarem mais fáceis.
O blog acabou, é verdade, mas a página do facebook vai ficar no ar, compartilhando coisas que pessoas com muito mais credibilidade que eu tem para falar sobre tudo.
Quando comecei o blog, no dia 8 de março de 2013, é porque eu não queria dizer parabéns. A gente diz parabéns, mas podia dizer: desculpa.
Eu queria saber, como posso dar algo que não um flor, um tapinha nas costas. O que eu tinha para oferecer de relevante? Bem, eu escrevo. Foi isso que eu ofereci. E continuo a oferecer, sempre que necessário, seja no facebook do blog, no meu facebook pessoal.
Existe muita gente legal por aí e eu fico muito feliz de poder ter contato com todas essas pessoas maravilhosas, que buscam fazer diferente. Por exemplo, a Think Olga está convocando todo mundo para fazer com que as histórias das mulheres não sejam ainda mais apagadas.
E todas as outras que sempre serviram de apoio para o que eu tinha a escrever e me ensinaram muito mais do que eu imaginava aprender. Quanto mais aprendi, mais incompleto fiquei.
Ah, e claro, não podia faltar no último texto uma citação a docinho-de-pamonha-recheada-de-amor, Aline Valek, e seu comentário sobre o dia de hoje:
“(...) Acho engraçado como as pessoas parecem mais preocupadas em não serem “condenadas” com a homenagem errada do que darem atenção às questões que REALMENTE importam no Dia da Mulher. Como se fossem as feministas que tivessem criado um problema ao dizer que não queremos a rosa, mas sim acabar com um sistema que nos oprime, nos diminui, nos nega humanidade e nos mata.
Tenho que dizer que o problema não é rejeitar essas homenagens, o problema é o que essas homenagens estão tentando ocultar. E discutir que tipo de presente pode ou não pode, qual é o jeito “certo” de homenagear as mulheres nesse dia é continuar fugindo das questões que realmente deveriam ser discutidas nessa data.
A nossa luta não é para definir como “celebrar” o Dia da Mulher. A nossa luta é por direitos básicos e fundamentais, como a autonomia ao nosso próprio corpo que as leis (feitas por homens) nos negam historicamente, nos lançando para o risco de aborto ilegais que matam mulheres, especialmente mulheres negras e pobres. A nossa luta é por direitos trabalhistas, é pela presença da mulher na política, é pelo espaço público que também nos é negado quando somos acuadas por assédio disfarçado de “cantada”. A nossa luta é pelas mulheres trans* massacradas diariamente por uma sociedade transfóbica que lhes nega humanidade. A nossa luta é para quebrar o padrão de beleza que nos aprisiona, os papéis de gênero que nos limitam, os discursos onipresentes que validam a violência sobre nossos corpos.
O debate que queremos colocar na mesa para nós é uma questão de vida e morte, não um debate que se restringe ao “jeito certo de celebrar o Dia da Mulher”.”
Acho que é isso.
Já recolheram todas as suas coisas? Tenho que esvaziar aqui esse apartamento e entregar as chaves para a corretora.
Todo mundo já se despediu de cada cantinho?
Ok, não vou escrever mais aqui (por enquanto. Sabe-se lá o futuro, né?). Mas não ia deixar todo mundo ir embora assim sem um álbum de recordações desse ano que passamos juntos, ora bolas.
Nos próximos dias, vou fazer o último post aqui (esse é o último texto) com um pdf onde estarão os melhores textos que fiz nesse ano. Aí vocês podem guardar, mandar para alguém. Imprimir e dar para alguma pessoa que você acha que merece (ou não merece) ler. Enfim...
No mais, estarei logo ali nas redes sociais.
Aqui ta meu twitter: @diogobatalha Aqui a página do blog no facebook
Nos vemos em breve aí pelo mundo, em outros projetos e outros textos.
Até mais, pessoas incompletas :)












