A OUTRA MÁQUINA, capítulo 1
A Outra Máquina é minha novela de prosa sobre um Cientista abandonado pela esposa que viaja no tempo (e com o Tempo) para superar a dor de cotovelo. Outro dia fiz uma leitura do primeiro capítulo no Instagram e esta é a versão impressa.
Edição de Anna Martino e preparação de texto de Sol Coelho. Sem mais delongas...
1.
O Cientista não percebeu de imediato quando sua esposa foi embora. Naquele dia, pendurou o jaleco no armário do laboratório e foi para casa, com a cabeça rodeada de equações de segundo e terceiro graus. Comeu o jantar do forno, como de costume, tomou banho, feito todo dia, e se deitou para dormir, desejando boa noite para ninguém. Só na manhã seguinte, mal o sol raiava, compreendeu que ela se fora.
Sem abrir os olhos, sentiu o frio do outro lado da cama, a ausência dos cabelos entrando em seu nariz. Adicionou os fatores numa conta simples, então esticou o braço para verificar seus cálculos. Em teoria, ela não dormira em casa. O guarda-roupas vazio, a garrafa de café vazia e um vazio algo imensurável que tomava a casa inteira. O elemento esposa estava ausente no conjunto casal.
Sem saber o que acontecia, foi para o laboratório como se nada houvesse acontecido. Devia ser uma anomalia isolada, decerto ela estaria de volta no fim do dia. Era improvável que Carolina fosse embora assim, sem um bilhetinho na geladeira que fosse. Logo ela, tão razoável. Ainda assim, naquela tarde, ele perdeu o passo e várias casas decimais.
Quando não encontrou a mulher em casa no fim do dia, identificou um padrão. Mesmo com uma amostragem tão pequena, havia pouco espaço para conjecturas: de Carolina, só restava ausência. O Cientista sentiu, então, a dor mais doída de toda sua vida. Tentou se desesperar, mas não sabia como; era um homem equilibrado, e como havia de sofrer equilibradamente? Ao invés disso, registrou uma série de fenômenos fisiológicos incomuns: seu coração batia como se quisesse derrubar a porta, o ar fugiu não sei para onde e o chão, de repente, era composto tão somente por paredes.
Tomou um remédio para pressão, só para garantir.
Tentou ligar para a esposa, que não atendia, depois para a mãe de sua esposa, que disse que ela não queria atender e depois para sua própria mãe, que não disse nada por um longo tempo.
— Mãe? A senhora ainda está aí?
— Meu filho — ela respondeu finalmente —, o casamento é como uma dança, veja bem.
— Mainha, a situação já está bem ruim sem nenhuma metáfora…
— Presta atenção, menino. São duas pessoas em parceria, bailando vida afora. Ele tem ritmo, tem confiança, um jeito de conduzir e de se entregar.
— Mas é difícil dançar sozinho — ele replicou. Junto também, completou em sua cabeça. O Cientista pisava muito nos pés de Carolina.
— É, meu filho, mas todo baile segue um pé depois do outro.
— Mas, mãe…
— Escute a música, Crisântemo — o nome do Cientista era Crisântemo — Dê espaço pra Carolina, sua esposa precisa de tempo.
Espaço. Tempo. O Cientista entendia os conceitos, as implicações físicas, mas custava compreender que tudo o que podia fazer era justamente nada. Seu trabalho era criar soluções, testar os limites do possível. Será que não poderia conversar com Carolina, inquirir suas motivações, tabular suas tristezas, cruzar os dados em busca do que havia se perdido? E ele? Era apenas um observador neutro? Não era ele também um ator participante do casamento?
Ele, o Cientista que se dedicava a responder às maiores questões do universo: o motivo das quinas, a linguagem das nuvens, a árvore genealógica dos números primos, ele, Crisântemo, que só pensava em por quês e entretantos, ele, logo ele, não conseguia dar razão à maior questão de todas: por que, Carolina? 1
Sem respostas, quatro dias ficou entregue à inércia, meditabundo na escuridão do laboratório. Aconteceu alguma coisa, Doutor?, perguntavam seus assistentes. Bobagem, ele respondia, apenas um problema de mecânica quântica que o preocupava. Mentia, mas não completamente. Carolina era uma partícula incerta, ocupando todos os espaços de sua mente ao mesmo tempo.
Sua dor só arrumou outra ocupação que não doer no fim do quinto dia, quando resolveu iniciar um novo experimento. Havia uma teoria pouco acreditada, publicada em 1637 por um físico holandês, segundo a qual o Tempo seria capaz de curar todas as dores. Era apenas uma conjectura, pois a banca avaliadora do trabalho considerou que três meses bebendo vinho e ouvindo baladas não valiam como método científico. Ainda assim, era uma esperança. E, se isso fosse mesmo verdade, por que esperar? Ele mesmo poderia colocar essa teoria à prova e construir um dispositivo tal que acelerasse seu processo de cura.
Imbuído de novo ânimo, o Cientista lançou-se então ao trabalho, dia e noite, noite e dia. Cada volta de parafuso era uma volta a menos que a lembrança de Carolina dava ao redor de sua cabeça. Acostumou-se a dormir numa cama de armar no laboratório, esquentando café nos bicos de Bunsen e tomando banho no chuveiro de descontaminação. Naqueles dias, desmontou e remontou a si mesmo tantas vezes que ficou com um punhado de peças sobrando, sem lugar, num canto da sala.
Até que, numa tarde de quinta-feira, o Cientista encontrou a solução. Com um pincel, escreveu no quadro negro uma equação, 14 linhas de cálculo em caligrafia elegante. Sem surpresa, percebeu que compunham um soneto. A fórmula para a primeira Máquina do Tempo.
Decomposto, exausto e faminto, deu três passos para trás para apreciar sua obra. O aparelho consistia em duas partes independentes, ligadas por um fio em espiral. A peça menor era como uma barra com as pontas dobradas para dentro, cada extremidade terminando em um círculo permeado por diversos furos minúsculos. Encaixava-se perfeitamente no topo da segunda peça. Esta possuía uma base, cujo topo era equipado com dois ganchos que conectavam ao componente menor. No centro do aparelho, havia um grande disco branco, rodeado por dez buracos. Em cada buraco, podia-se ver um algarismo, do 0 ao 9.
Quem passasse por ali diria, talvez um pouco decepcionado, que a Máquina do Tempo parecia muito com um telefone de disco. Ao que o Cientista responderia que, claro, a Máquina era exatamente isso. Como você esperaria falar com o Tempo? Por Correio?
O truque, ele pensou, era saber qual número discar.
E o Tempo, veja você, demorou um bocado para atender. O coração do Cientista batia com força, confundindo-se ao pulso do telefone.
— Oi, Crisântemo, desculpe o atraso — disse o Tempo. — Andei meio ocupado.
O Cientista se virou devagar, ainda com o fone à altura da orelha. Então desligou.
— O senhor… — Ele hesitou por um momento, mas, afinal, para que servia um pós-doutorado senão para falar de igual para igual com o Tempo? — Você não atendeu.
— O Tempo está em todo lugar, então não precisava. E, pra ser bem sincero, prefiro mensagem de texto.
O Cientista considerou a informação, então continuou.
— Como eu vou saber se você é quem diz que é?
— Eu não digo nada, só passo por aí e as pessoas apontam, “vê lá, o Tempo correndo”.
— Mas preciso verificar, você entende. Só algumas perguntas.
Ao que o Tempo assentiu, com ares de profissional:
— Um homem do método.
Tomando a prancheta, o Cientista escolheu o formulário que havia preparado especialmente para aquela ocasião.
— Essa é a primeira questão: são sete e são irmãos, cinco vão à feira e só dois é que não vão?
O Tempo respondeu sem hesitar:
— Os dias da semana.
— Segundo questionamento: todo mundo faz, o tempo todo e ao mesmo tempo, seja velha ou seja nova, pai de família ou rebento?
— Envelhecer — respondeu o Tempo.
— E o fim das três questões: como se chamam os filhos que nascem antes da mãe?
— São os minutos!
O único som que se ouviu foi o PLAC da prancheta caindo no chão.
— Então eu consegui? — O Cientista disse baixinho, quase para si mesmo. Tamanho era seu assombro que esquecera até de marcar a terceira resposta. — Eu inventei uma máquina do tempo…
— Inventar, não inventou. Mas construiu, o que dá até mais trabalho. Agora me diga, Crisântemo, que invencionice foi essa que te fez criar esse dispositivo?
O Cientista olhou para o Tempo como se o visse pela primeira vez. Tinha tantas questões: como ele se sentia quando queriam matá-lo? Ele era mesmo dinheiro e, caso fosse, qual era a taxa de câmbio do minuto para o real? Porém, de repente, tudo aquilo perdia importância. Tudo o que havia enterrado no trabalho teimava em cavar o caminho de volta pelo peito. Ele disse numa voz miúda:
— Eu preciso saber se é verdade. Se o Tempo realmente cura tudo.
— Ah, você leu o livro de Hans? — O Tempo se animou. — Gente boa, mas quando bebe aumenta muito. Eu curo uma variedade de males, é verdade, mas minha especialidade são dores de natureza subjetiva.
— Então preciso que você me ajude.
— Você quer dizer, precisa que eu te faça esquecer Carolina.
O Cientista queria dizer exatamente isso, mas não com essas palavras. Ele queria contar que ficava acordado à noite, com medo que a fome em seu coração crescesse tanto a ponto de comê-lo por dentro feito gastrite. Que Carolina era como o Hidrogênio, como a eva mitocondrial, como o caldo primordial de seu mundo particular. Que, longe dela, ele não era melhor que o gato de Schrodinger, sem ter certeza de estar vivo ou morto e isso, ele suspeitava, era o mais próximo que um ser vivente jamais chegaria de se tornar um fantasma enquanto respirasse. Era tanto amor que doía e ele não sabia quanto mais conseguiria suportar.
Então, logicamente, o que ele respondeu foi:
— É.
— Crisântemo, eu te conheço desde que você nasceu e vou reconhecê-lo na porta de saída — disse o Tempo, olhando em seus olhos. O Cientista percebeu que eram antigos como um par de estrelas e igualmente ardentes. — Eu sei.
O Cientista deixou cair os ombros e suspirou, sentindo-se de repente vários anos mais velho, o que poderia ser efeito de passar tempo demais com o Tempo ou tempo de menos com ela.
— Eu não sei mais o que fazer…
— Na verdade, tenho acompanhado seu problema bem de perto — o Tempo revelou. — É um caso muito singular. Você e Carolina são atados como nó cego. Um enlinhado que minha equipe inteira de relojoeiros e clarividentes não conseguiu desenredar.
— Como… uma espécie de entrelaçamento quântico?
— Quem me dera — respondeu o Tempo, retirando do bolso um novelo de linhas enrolado como um punho de rede velho. Elas brilhavam com um pálido viés dourado. — Mecânica quântica tem oficina. Isso aqui é um ninho de rato com as linhas do destino.
— Mas deve haver um jeito! Você é o Tempo, deve ter acesso a tecnologias mais avançadas, novos desenvolvimentos na ciência da predestinação.
— Ora, Crisântemo, você sabe que não estamos num conto de ficção científica. O movimento dos corpos celestes, o fluxo das marés, a reprodução dos seres vivos… Essa é a tecnologia mais avançada que existe, um upgrade ou outro, e ela está aí há milhões de anos.
— Mas então… o que…
— Calma, que talvez eu tenha uma solução. Vim ter com você porque proponho um experimento que nenhum mortal jamais tentou.
— Um experimento?
— Sim, algo que vai testar os limites do possível.
— Claro! — respondeu o Cientista, reacendendo como se o Tempo soprasse o carvão de sua curiosidade. — Claro que aceito! O primeiro ser humano… Não, o primeiro PhD a desbravar o desconhecido da quarta dimensão…
Imediatamente, ele começou a andar em círculos pelo laboratório, buscando prancheta e lápis.
— Precisamos escrever um projeto. Um ou dois bolsistas, o que acha? Um ofício para a pró-reitoria com cronograma… Acho que você pode cuidar dessa parte? Talvez um computador novo, o do laboratório…
Porém, antes que o Cientista abrisse a primeira planilha, o Tempo segurou o novelo de destinos e puxou a ponta do fio.
1 Nota da Edição: se você acha que a estrutura da frase lembra Adriana Falcão, você acertou — e tem bom gosto em suas leituras.
CONTINUA...
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