Te amo, vô!
As vezes eu gosto de pensar que eu e você temos alma de cão, mas teve um erro na hora que a gente veio pro mundo, e a gente teve que lidar com isso sendo os malucos da família, cada um a sua maneira. Você sendo o mais divertido e palhaço, e eu sendo a mais destrambelhada e aleatória. Mas você era a minha matilha vô. E agora? Tô rodando em volta do rabo de ansiedade e perdida na vida.
Bom, mas ainda sei da sorte que foi por ter vivido num período que me possibilitou ter você pra construir minha personalidade junto, sendo a minha fortaleza, meu suporte e minha referência.
Sinto muito que quando você era novo, não teve a mesma sorte, mas é visível que quis que seus netos tivessem realidades diferentes.
O quanto você se dedicou a mim, vô. Juro que ainda consigo sentir tua presença.
Juro que sinto falta das tuas implicâncias, tuas gracinhas, de roubar meu pão, de reclamar do tanto que eu me atraso, e dos ciúmes que sentia, reclamando que só me envolvo com amigo "que não presta". Ah, tu sempre foi mesmo o amigo certo. Se eu soubesse, vô, tinha dedicado minha juventude a aproveitar mais você. Muito mais. Pena que eu era idiota. Adolescente né, queria fazer amigos que eu não ia levar pra vida, não porque eram pessoas ruins, mas porque eu nunca fui importante pra eles, e eles foram deixando também de ser pra mim.
Eu lembro, vô. Lembro que deitado na cama do hospital, você segurou forte a minha mão e disse, praticamente na primeira vez que te vi chorando, que estava com medo de morrer. Eu lembro, vô. Logo você que zoava tanto com a morte, sempre disse que não tinha medo dela, e que ela tava até que demorando. Que coragem, vô, de demonstrar pra mim sua fraqueza, e me fazer sentir tão importante, por você ter até medo de algo que sempre falou rindo, por perder as pessoas que ama. Só que já viu cachorro viver bem sem a matilha, vô? Acho que tu levou uma parte grandona de mim, e eu tô a viver tentando ser pros outros o que tu foi pra mim, mas ao mesmo tempo não quero que se apeguem tanto porque se eu faltar, ninguém perde matilha mais. Será que isso tá errado? Tô ficando louca né? Acho que sim, vô.
Ah, que na minha filha o seu DNA siga brilhando, porque eu vou saber que não tem como dar errado, e que ela vai saber viver. Você ia amar conhecê-la, ela é o máximo. Mas tudo bem, eu falo de você pra ela sempre, em toda oportunidade.
Só queria acreditar que você tá em algum lugar, sabendo de tudo que tô sentindo, e que eu não tô digitando em vão. Só que não é o que eu acredito, infelizmente. Então vou parar por aqui.
Mas te amo, vô. Pra sempre.










