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@avidadeumagorda
Acabei de ver uma publicação engraçada e pensei em te mandar, mas aí automaticamente pensei "pra quê" se a sua resposta seria um "kkk" desacompanhado de qualquer outra coisa.
Antes, quando eu te mandava algo, você se interessava em fazer daquele momento algo além de uma troca desinteressante de mensagens. Hoje, você se limita a responder como alguém que responde aquele parente chato que ninguém suporta, mas que as normas sociais te obrigam a conviver.
Hoje eu sou sua convenção social, enquanto você continua sendo o meu motivo, e é por isso que eu preciso lutar contra essa vontade incontrolável de participar da sua vida.
Se você não faz questão, vou fingir que também não faço, afinal, uma mentira contada milhares de vezes acaba se tornando uma verdade.
a linha tênue entre solitude e solidão pode ser muito cruel, ora você se isola por necessidade ou prazer, em outra, você se vê sem ninguém ao seu lado.
eu, entre parênteses
carl jung disse que não nos sentimos sozinhos porque não há pessoas ao nosso redor, mas porque, na maioria das vezes, não conseguimos comunicar aquilo que parece importante para nós.
e eu, de fato, não sou uma pessoa só. tenho amigos que se importam comigo, tenho uma família amorosa e presente.
e ainda assim, sinto constantemente uma espécie de solidão.
ela aparece todas as vezes em que continuo tentando fazer algo apenas porque é o que esperam de mim.
e eu entro em pânico, silenciosamente, só de pensar na possibilidade de dizer:
“eu não quero isso.”
“eu não gosto disso.”
“eu quero fazer outra coisa.”
existe em mim um medo constante de simplesmente ser.
de ocupar espaço com os meus próprios desejos, de admitir minhas vontades sem pedir desculpas por elas, de existir sem corresponder às expectativas que depositaram sobre mim.
e talvez essa seja a forma mais profunda de solidão: quando ninguém nos impede de falar, mas ainda assim não conseguimos dizer quem somos.
tenho medo de ser, e essa é a coisa mais solitária que habita em mim.
Ela ainda me serve. Esse é o problema.
Fecha no corpo. Não aperta na cintura, não repuxa nos ombros, não me impede de respirar. Se eu levanto os braços, ela acompanha. Se eu sento, ela continua no lugar. Tecnicamente, não há nada de errado.
Talvez fosse mais fácil se houvesse.
Uma costura aberta, uma mancha impossível de tirar, um botão faltando. Qualquer defeito pequeno que me autorizasse a dizer: não dá mais. Pronto. Acabou. Fiz o que pude.
Mas ela está inteira.
E eu usei por tempo demais para fingir que não foi minha. Fui a lugares com ela. Fiz combinações improváveis. Me vi em fotos. Recebi elogios. Houve dias em que ela pareceu me traduzir melhor do que eu mesma. Em algum momento, aquela peça encaixava tão bem que eu achei que encaixaria para sempre, que ingenuidade.
Só que agora eu visto e alguma coisa não vem junto.
Não é o tecido. Não é o corte. Não é o espelho, embora eu sempre culpe o espelho primeiro, porque ele fica ali parado com aquela cara de funcionário público da autoestima. Sou eu. Ou alguma coisa em mim que saiu antes e não avisou.
Eu olho e reconheço. Mas não pertenço.
E isso me irrita mais do que se eu odiasse. O ódio pelo menos organiza. Junta provas, monta um caso firme. O ódio sabe bater a porta.
Mas o que eu sinto por ela não é ódio. É quase gratidão. Quase carinho. Uma espécie de respeito triste.
Talvez por isso eu continue tentando.
Troco o sapato. Prendo o cabelo. Solto o cabelo. Mudo a luz. Dou uma voltinha no quarto como se o movimento pudesse devolver alguma coisa. Como se bastasse encontrar o ângulo certo para tudo voltar a fazer sentido.
Não volta.
Ela ainda me serve, e ninguém sabe o que fazer com uma coisa que ainda funciona. A gente sabe abandonar o que machuca, pelo menos na teoria. Sabe sair quando aperta, quando sufoca, quando deixa marca. Mas como é que se explica o abandono de algo que continua tentando?
Essa é a parte mais difícil.
Não deu errado.
Eu ainda poderia usar. Ainda saberia combinar. Ainda conseguiria atravessar a rua com ela, sentar numa mesa, sorrir do jeito certo, fingir que nada está fora do lugar.
Mas eu cansei de caber em coisas só porque consigo.
Então eu não joguei fora. Não rasguei. Não fiz discurso.
Só tirei com cuidado.
Dobrei uma vez, depois outra. Deixei no canto por enquanto, sem raiva, sem cerimônia, sem aquela necessidade antiga de transformar todo fim em incêndio.
Ela ainda me serve.
Mas servir não é o bastante pra ficar.
Eu te amo. E provavelmente sempre vou amar. Mas a gente passou dias sem ter uma única conversa realmente significativa... E eu costumava sentir tanto a sua falta quando isso acontecia, mas nunca parecia que você sentia minha falta. E eu acho que, por causa disso, eu parei de sentir sua falta também.
— Brooke Penelope Davis, One Tree Hill.
“Vivo com essa sensação de abandono, de falta, de pouco, de metade.”
— Tati Bernardi.
every episode of one tree hill season 4 episode 21 - all of a sudden i miss everyone
Existe uma solidão que não nasce da falta de pessoas. Ela nasce da falta daquela conversa que fazia o dia parecer menor. Daquela pessoa que conhecia o contexto antes mesmo da explicação. Da liberdade de existir sem medir cada palavra. Algumas conexões deixam saudade justamente porque transformavam o comum em companhia.
Escriturias