“De todas as pessoas que passaram pela minha vida, são poucas as que ficaram na minha memória, mas quando se trata de você, eu guardo as lembranças mais bonitas.”
— Sobre você.
he wasn't even looking at me and he found me
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@wildfirer
“De todas as pessoas que passaram pela minha vida, são poucas as que ficaram na minha memória, mas quando se trata de você, eu guardo as lembranças mais bonitas.”
— Sobre você.
Ninguém escreve regras mais duras do que uma pessoa machucada.
Na minha cabeça, troquei a fechadura, recolhi as chaves, passei a corrente. Repeti que não faria papel de idiota outra vez. Se um dia ele voltasse, encontraria a porta fechada e teria de conviver com isso. Eu dizia essas coisas pra mim mesma como quem testa a maçaneta duas vezes antes de dormir.
Com o tempo, parei de testar.
A casa se acostumou com a falta. O chão deixou de esperar determinados passos. As conversas que eu ainda guardava foram perdendo o volume. E eu segui, talvez não exatamente em paz, mas sem precisar discutir todos os dias com alguém que não estava ali.
Até que não houve uma batida.
Houve menos do que isso.
Um sinal pequeno. Uma passagem rápida diante da janela. Quase nada. O tipo de coisa que uma pessoa equilibrada vê, registra e volta a dormir.
Eu fiquei acordada.
O corpo, esse animal sem nenhum compromisso com a minha dignidade, reconheceu primeiro. Reconheceu antes que eu pudesse lembrar a ele tudo o que tinha acontecido. Por alguns segundos, não veio a raiva, não veio a mágoa, não veio a mulher que jurou nunca mais. Veio o carinho. Inteiro, inconveniente, sem a menor vergonha de ainda existir.
Achei um desaforo.
Eu tinha passado tanto tempo construindo argumentos, ensaiando respostas, imaginando a serenidade com que não abriria aquela porta. Só não tinha previsto que, do outro lado, ainda estaria alguém que eu saberia receber. Alguém com uma risada que eu não preciso reaprender. Alguém que amei de tantas formas que nem a ausência conseguiu transformar completamente em estranho.
O carinho é péssimo de conta. Não pega o que doeu, subtrai do que foi bom e entrega um saldo honesto. Guarda tudo junto. A falta de consideração ao lado das conversas que salvaram noites difíceis. O sumiço e o conforto. A raiva e a vontade de contar alguma coisa engraçada.
Talvez seja por isso que eu não saiba o que fazer com a porta.
Não quero abrir como se nada tivesse acontecido. Também não quero mantê-la fechada só para provar que consigo. Não sei qual das duas coisas me faria sentir mais idiota.
A verdade é que eu ainda me levanto ao menor barulho.
Só depois lembro por que decidi não abrir.
Talvez eu não abra. Talvez ele nem bata.
Quando fiz a promessa, achei que ele é que teria de conviver com a porta fechada.
Não pensei que eu também teria.
Ela ainda me serve. Esse é o problema.
Fecha no corpo. Não aperta na cintura, não repuxa nos ombros, não me impede de respirar. Se eu levanto os braços, ela acompanha. Se eu sento, ela continua no lugar. Tecnicamente, não há nada de errado.
Talvez fosse mais fácil se houvesse.
Uma costura aberta, uma mancha impossível de tirar, um botão faltando. Qualquer defeito pequeno que me autorizasse a dizer: não dá mais. Pronto. Acabou. Fiz o que pude.
Mas ela está inteira.
E eu usei por tempo demais para fingir que não foi minha. Fui a lugares com ela. Fiz combinações improváveis. Me vi em fotos. Recebi elogios. Houve dias em que ela pareceu me traduzir melhor do que eu mesma. Em algum momento, aquela peça encaixava tão bem que eu achei que encaixaria para sempre, que ingenuidade.
Só que agora eu visto e alguma coisa não vem junto.
Não é o tecido. Não é o corte. Não é o espelho, embora eu sempre culpe o espelho primeiro, porque ele fica ali parado com aquela cara de funcionário público da autoestima. Sou eu. Ou alguma coisa em mim que saiu antes e não avisou.
Eu olho e reconheço. Mas não pertenço.
E isso me irrita mais do que se eu odiasse. O ódio pelo menos organiza. Junta provas, monta um caso firme. O ódio sabe bater a porta.
Mas o que eu sinto por ela não é ódio. É quase gratidão. Quase carinho. Uma espécie de respeito triste.
Talvez por isso eu continue tentando.
Troco o sapato. Prendo o cabelo. Solto o cabelo. Mudo a luz. Dou uma voltinha no quarto como se o movimento pudesse devolver alguma coisa. Como se bastasse encontrar o ângulo certo para tudo voltar a fazer sentido.
Não volta.
Ela ainda me serve, e ninguém sabe o que fazer com uma coisa que ainda funciona. A gente sabe abandonar o que machuca, pelo menos na teoria. Sabe sair quando aperta, quando sufoca, quando deixa marca. Mas como é que se explica o abandono de algo que continua tentando?
Essa é a parte mais difícil.
Não deu errado.
Eu ainda poderia usar. Ainda saberia combinar. Ainda conseguiria atravessar a rua com ela, sentar numa mesa, sorrir do jeito certo, fingir que nada está fora do lugar.
Mas eu cansei de caber em coisas só porque consigo.
Então eu não joguei fora. Não rasguei. Não fiz discurso.
Só tirei com cuidado.
Dobrei uma vez, depois outra. Deixei no canto por enquanto, sem raiva, sem cerimônia, sem aquela necessidade antiga de transformar todo fim em incêndio.
Ela ainda me serve.
Mas servir não é o bastante pra ficar.
“Preste atenção a quem realmente leva seus sentimentos em consideração”
— Jhennifer Werneck
“Você não precisa de alguém que te ame e te aceite do jeito que você é. Você que precisa se aceitar, se cuidar e se amar do jeitinho que você é. Você precisa se fazer feliz e ser apaixonado pelos seus próprios detalhes. O resto é consequência.”
— Recontador.
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