Me deparo sentada dentro da banheira com meus velhos companheiros - uma garrafa de vodka e uma navalha que cintila em cima do balcão. A luz da lâmpada está sendo refletida na lâmina para um canto da parede escura no corredor. Eu olho para a escuridão e me identifico, pois há um vazio enorme dentro de mim igual o vazio dessa casa. Somente eu nesse espaço - sozinha e perdida dentro de mim. Me sinto como um buraco negro ambulante - sugando a tudo e todos ao meu redor. Sugando as cores, tentando suprir a falta de... a falta... não sei bem o que é, mas eu sinto saudade de algo que eu sei que deveria estar aqui. _Como posso sentir saudade de algo que não sei nem o que é? Como posso me sentir tão vazia e ainda conseguir ficar de pé?_ Ainda consigo acordar todo dia e "viver". Eu estou cansada, saturada, finita. Estou cansada de viver, de ter que por minha máscara todo dia e, quando eu a esqueço na estante, ninguém perceber que tem algo errado. Estou cansada de falar, me abrir e as pessoas falarem "ah, isso vai passar. É só uma fase! ". A vida não é um jogo onde se existe fases para se passar ou missões para se cumprir; não somos bonecos de ferro que conseguem lidar com tudo sozinho. Eu, pelo menos, não sou. As vezes, precisamos de um ombro onde possamos chorar sem nenhuma pergunta, sem nenhuma preocupação - apenas chorar.
Dizem que chorar espanta o mal, mas eu só queria espantar essa dor e as paranóias que cercam meus pensamentos e os sufocam me deixando apenas o pó.
Eu já tentei mudar. Tentei achar algo que me fizesse feliz, mas tudo que encontrei me alimentava por apenas algumas horas. Era uma falsa felicidade; ago que me entorpecia e logo acabava, me trazendo a terrível realidade. Encontrei o álcool. Desde que tomei meu primeiro pileque e fiquei de fogo eu não o abandonei mais, afinal, ele nunca me abandonou. É claro, tem as dores de cabeça matinais, a famosa ressaca, mas ele nunca me deixou triste ou me decepcionou como os outros fizeram. Ele nunca me chamou de fracassada e o melhor : eu nunca precisei ligar no dia seguinte pedindo desculpas por mais uma vez falhar.
A navalha entrou na minha vida um pouco antes do álcool, na minha infância, eu descobri que a dor física era incrível. Ela me fazia esquecer meus sentimentos e focar apenas ali no vermelho que saia dos meus pulsos, eu nunca tive coragem para um corte fundo. Sempre pensei no que minha mãe sentiria, em como meus amigos reagiriam... Eu só não entendo ainda o porquê de eu me preocupar com eles se eles não percebem que eu estou pedindo socorro todos os dias, se eles não me conhecem.
Saio de meus desvaneios e vejo que a navalha se encontra agora em minha mão. Eu olho fixamente para ela e levemente a pressiono na pele e é uma dor libertadora, eu sinto o alívio, sinto como se ela aliviasse a pressão em meu peito. E lá se vão um na diagonal, um na vertical, um na horizontal e assim em diante meu vermelho vai saindo, os pulsos ardem. Só um pouco mais de força e tudo acaba, eu acabo. Esse é meu fim.