Nunca segure alguém que não quer ser seu... Liberte para se libertar...
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Nunca segure alguém que não quer ser seu... Liberte para se libertar...
-Renan
A casa e o incĂȘndio
Renan costumava dizer que algumas pessoas nĂŁo entram na vida da gente: arrombam.
Mariane tinha sido assim.
Antes dela, ele era um rapaz de dezenove anos que caminhava como se o mundo nĂŁo tivesse futuro, e talvez fosse exatamente isso que o tornava perigoso: nĂŁo esperar nada de si mesmo. Trabalhava em obras, consertava mĂĄquinas, sujava as mĂŁos de graxa, ganhava o prĂłprio dinheiro e, nas horas em que a noite parecia maior que a consciĂȘncia, fazia coisas que depois preferiria nĂŁo contar. Havia nele uma espĂ©cie de vaidade triste, a vaidade dos que se acham perdidos demais para serem salvos.
Ele dizia que nĂŁo queria famĂlia. Dizia que nĂŁo queria filho. Dizia que nĂŁo queria envelhecer.
Mas a verdade era mais simples e mais covarde: Renan tinha medo de desejar qualquer coisa que pudesse perder.
EntĂŁo Mariane apareceu.
Primeiro, apareceu como aparecem as tentaçÔes modernas: numa tela pequena, numa fotografia, numa conversa de Facebook que parecia qualquer coisa e acabou sendo o começo de uma condenação. Ela queria algo banal, alguma compra, alguma aproximação torta, mas Renan, desconfiado, acostumado a olhar o mundo com a cautela dos que jå fizeram errado, recuou. Disse que não tinha. Despistou. Fugiu.
Mas a imagem dela ficou.
HĂĄ fotografias que nĂŁo mostram apenas um rosto. Mostram uma possibilidade.
Meses depois, em SĂŁo Francisco do Sul, entre o cheiro de metal, trabalho e mar, ele viu que ela tambĂ©m estava lĂĄ. Era como se o mundo tivesse estreitado seus corredores sĂł para colocar os dois no mesmo ponto. Renan, que atĂ© entĂŁo se julgava esperto, mandou um simples âoiâ.
Nunca mais foi simples depois disso.
Vieram os SMS. As esperas. As palavras pequenas que, na juventude, tĂȘm o peso de escrituras sagradas. Havia noites em que uma resposta dela fazia o sangue dele mudar de temperatura. Havia silĂȘncios que o humilhavam como castigos. Eles ainda nem tinham se visto de verdade, mas alguma coisa jĂĄ havia começado a crescer entre os dois, uma dessas coisas sem nome que a gente chama de amor porque nĂŁo suporta chamar de perigo.
Ela era de outro lugar, mas tinha raĂzes perto dele. Um dia combinou de ir Ă cidade. A Casa da Cultura virou altar antes mesmo de virar lembrança.
Renan contou Ă mĂŁe que estava tremendo. NĂŁo sabia o que fazer com as mĂŁos, com a boca, com o corpo inteiro. O pai lhe emprestou o carro, talvez sem imaginar que entregava ao filho nĂŁo apenas uma chave, mas a primeira pĂĄgina de uma histĂłria que demoraria doze anos para parar de sangrar.
Ele chegou antes. Esperou na praça. Mandou mensagem: âestou aquiâ.
Ela respondeu que jĂĄ estava indo.
E entĂŁo veio.
Renan a viu vindo de longe, cabelo meio cacheado, passo decidido, sorriso aberto, aquelas covinhas que pareciam ofender a tristeza do mundo. Ele nunca soube explicar se a amou naquele instante ou se apenas reconheceu nela a mulher que sua vida inteira, sem saber, jĂĄ esperava.
NĂŁo houve âoiâ. NĂŁo houve cerimĂŽnia. NĂŁo houve começo educado.
Houve beijo.
Como se a boca tivesse chegado antes da consciĂȘncia. Como se dois corpos, que atĂ© entĂŁo eram apenas expectativa, tivessem se cansado de pedir licença ao tempo. Beijaram-se na praça como quem assina um pacto sem ler as consequĂȘncias.
Renan, que se julgava homem por jĂĄ ter visto muita coisa cedo demais, descobriu ali que ainda era menino. E Mariane, mais velha, mais mulher, mais inteira em certos lugares, foi para ele a primeira grande porta.
Dias depois, houve uma festa. A irmĂŁ dela, o cunhado, bebida, risos, mĂșsica, noite. AtrĂĄs do barulho, havia uma floresta pequena, ou talvez Renan a tenha aumentado na memĂłria, porque tudo que envolve o primeiro desejo parece maior quando lembrado. Foram para lĂĄ. E ali, longe das luzes, ele deixou de ser virgem nos braços dela.
Não foi apenas sexo. Para Renan, foi iniciação.
Ele nĂŁo perdeu apenas a virgindade. Perdeu a Ășltima ilusĂŁo de que seu corpo era sĂł dele. Mariane entrou nele de um modo que depois nenhuma ausĂȘncia conseguiu expulsar. Ela virou pele, febre, comparação, medida. O primeiro corpo amado costuma fazer isso: ensina Ă alma um idioma que ela passarĂĄ a vida inteira tentando traduzir.
Depois veio o acidente.
O carro, a ĂĄrvore, o para-brisa, o susto, o sangue, a culpa correndo mais rĂĄpido que qualquer ambulĂąncia. Mariane ferida. Renan ferido. A ida ao atendimento, a noite mal dormida, a casa, o cuidado. Ele ficou acordado por ela. Cuidou de sua dor como quem, pela primeira vez, entendia que amar nĂŁo era apenas possuir o fogo, mas vigiar a chama para que ela nĂŁo morresse.
HĂĄ noites que fundam um homem.
Naquela noite, Renan começou a querer ser outro.
Quis ser digno. Quis ser futuro. Quis ser alguĂ©m capaz de proteger, de trabalhar, de sustentar, de acordar cedo nĂŁo apenas para si, mas para uma casa que ainda nem existia. Palavras que antes ele desprezava â famĂlia, filho, permanĂȘncia â começaram a ter forma. E tinham o rosto de Mariane.
Talvez tenha sido ali que ela se tornou perigosa para sempre: porque nĂŁo foi apenas a mulher que ele amou. Foi a mulher que fez ele desejar a vida.
Mas a juventude Ă© uma casa construĂda em terreno molhado.
Vieram o ciĂșme, a distĂąncia, os silĂȘncios, as inseguranças. Renan queria respostas como quem exige prova de existĂȘncia. Mariane, talvez mais madura, talvez apenas cansada, deixava espaços onde ele colocava monstros. Brigaram. Ele foi a Curitiba. A rodoviĂĄria assistiu ao fim provisĂłrio de algo que, para os dois, nunca saberia morrer direito.
Ela disse que nĂŁo dava mais.
A famĂlia dela nĂŁo queria. A briga pesava. A vida era outra. Ele voltou de ĂŽnibus destruĂdo, chorando com a vergonha e a pureza de quem ainda nĂŁo sabe esconder o prĂłprio abandono. Dentro dele, uma pergunta começou a apodrecer:
âComo alguĂ©m desiste tĂŁo rĂĄpido de um amor desses?â
Essa pergunta ficaria.
Passaram-se anos.
Renan mudou.
Não de uma vez. Ninguém muda de uma vez. Mas aquela passagem de Mariane havia deixado nele uma semente. Ele começou a trabalhar de outro jeito, desejar de outro jeito, existir com alguma direção. Conheceu Camila, que não chegou como raio, mas como chão. E talvez por isso ele tenha demorado tanto a entender sua importùncia.
Camila era a vida que se organiza sem espetĂĄculo.
Era cuidado, rotina, presença, pergunta simples, conta paga, remĂ©dio lembrado, roupa dobrada, madrugada comum. NĂŁo era a floresta. NĂŁo era a praça. NĂŁo era a vertigem de um amor interrompido. Era algo mais difĂcil de admirar: continuidade.
Renan casou. Teve filho. Tornou-se pai. Tornou-se homem â ou pelo menos construiu, com esforço, a aparĂȘncia e parte da substĂąncia de um.
Mas havia lugares dentro dele onde Mariane ainda morava sem pagar aluguel.
Ele a via nas redes. Ela tambĂ©m o via. Nenhum dos dois dizia, mas ambos mantinham uma vigĂlia secreta sobre a vida do outro. HĂĄ amores que acabam no calendĂĄrio, mas continuam respirando nos dedos que pesquisam nomes durante a madrugada.
Mariane também seguiu.
Conheceu MaurĂcio. Construiu casa, rotina, fĂ©, promessas. Disse âsimâ diante de Deus e talvez tenha tentado, com honestidade, entregar sua alma Ă vida que escolheu. Mas havia em seu peito uma gaveta que nunca fechava direito. De tempos em tempos, Renan fazia barulho lĂĄ dentro.
Um dia, ela viu Camila grĂĄvida.
E algo nela caiu.
NĂŁo porque quisesse o mal de Camila. NĂŁo porque fosse cruel. Mas porque a gravidez de outra mulher no corpo da histĂłria de Renan tocou um lugar antigo, dolorido, talvez o mais secreto. Mariane sempre desejara gerar um filho. E saber que outra mulher daria a Renan aquilo que ela talvez tivesse sonhado sem confessar foi, para ela, como um soco no estĂŽmago.
Renan, por sua vez, carregava uma suspeita que nunca teve coragem de transformar em certeza.
Depois do acidente, depois do atendimento, depois daquela noite confusa, ele Ă s vezes pensava se Mariane nĂŁo teria perdido algo alĂ©m de sangue. Talvez uma gravidez. Talvez uma possibilidade. Talvez nada. Talvez apenas a mente dele, que sempre soube construir catedrais sobre ruĂnas, tivesse inventado mais um fantasma para justificar a dor.
Mas a suspeita ficou.
E, quando uma suspeita envolve um filho que nunca teve nome, ela nĂŁo precisa ser verdade para assombrar.
Doze anos se passaram.
Doze anos sĂŁo suficientes para um menino virar pai. Para uma paixĂŁo virar lenda. Para uma ausĂȘncia amadurecer atĂ© parecer destino.
Em 2025, Renan foi atrĂĄs.
Ele poderia dizer que foi acaso. Poderia dizer que foi educação, um parabĂ©ns simples, uma lembrança inocente. Mas homens mentem melhor quando mentem para si mesmos. Ele trabalhava com tecnologia, sabia encontrar caminhos, descobriu o nĂșmero dela. Mandou mensagem.
A resposta dela foi uma explosĂŁo.
Mariane confessou o que havia guardado por anos. Disse que nunca deixou de amĂĄ-lo. Que acompanhava sua vida. Que procurava notĂcias. Que o via feliz e tentava se acalmar com isso. Que desistiu de procurĂĄ-lo de verdade quando viu Camila grĂĄvida, porque havia coisas que, para ela, jĂĄ nĂŁo podia tocar sem se sentir pecadora.
Renan ouviu aquilo como quem encontra ĂĄgua no deserto.
Tudo voltou.
NĂŁo voltou como lembrança. Voltou como corpo. Como urgĂȘncia. Como febre antiga que, ao invĂ©s de ter sido curada, apenas esperava uma queda de imunidade.
Conversaram. Reabriram portas. Disseram o que nĂŁo deveriam dizer. Falaram de 2013, de saudade, de destino, de âe seâ. Cada palavra era uma vela acesa num quarto cheio de pĂłlvora.
Mariane dizia que nĂŁo queria perder contato. Dizia que nĂŁo era justo prender Renan ali. Dizia que nĂŁo era justo com Camila, nem com MaurĂcio, nem com ninguĂ©m. Dizia que alguĂ©m precisava ser adulto naquela situação. Mas tambĂ©m dizia que nĂŁo queria que ele sumisse.
E essa era a crueldade maior: ela o empurrava com a mesma voz com que o chamava.
Encontraram-se em Curitiba.
Renan queria acreditar que o tempo finalmente o libertaria. Queria vĂȘ-la comum. Queria descobrir que Mariane havia sido apenas uma lembrança aumentada pela juventude. Queria abraçå-la e voltar para casa curado.
Mas ela sorriu.
E o homem que ele havia construĂdo em doze anos tremeu diante do rapaz que ainda vivia dentro dele.
NĂŁo se beijaram.
Mas hå abraços que traem mais do que bocas.
Quando Renan a segurou, sentiu que o corpo dela ainda conhecia um mapa antigo. E Mariane, dentro daquele abraço longo demais para ser inocente, talvez tenha sentido o mesmo: que havia lugares em si mesma onde MaurĂcio nunca entrara, nĂŁo por falta de amor, mas porque chegaram antes dele.
Renan disse que largaria tudo se ela largasse também.
Essa frase, quando dita, deve ter parecido corajosa. Mas talvez fosse apenas desespero vestido de grandeza. Porque amar alguĂ©m na imaginação Ă© sempre mais simples que dividir a guarda das consequĂȘncias.
Mariane recuou.
Falou de Deus. Falou do âsimâ que havia dado. Falou do que nĂŁo podia destruir. Renan ouviu como quem recebe uma segunda sentença pelo mesmo crime. Para ele, era 2013 de novo. Ela nĂŁo lutava. Ela nĂŁo o escolhia. Ela se escondia atrĂĄs da fĂ©, da famĂlia, do altar.
Chamou-a de covarde em silĂȘncio muito antes de chamar em palavras.
Mas continuaram.
HĂĄ afastamentos que sĂŁo apenas uma forma mais lenta de permanecer.
As mensagens seguiam. As lembranças tambĂ©m. Ăs vezes eram ternas; Ă s vezes, perigosas. Falavam do passado como se fosse uma terra onde ainda pudessem morar. Falavam do que teriam sido, dos filhos que talvez, dos natais que nunca, das manhĂŁs que pertenciam a outros.
Até que o marido dela viu.
Toda histĂłria clandestina acredita que Ă© invisĂvel atĂ© encontrar os olhos de quem confiava.
MaurĂcio pediu decisĂŁo.
E Mariane ficou.
Renan desabou de um modo que nĂŁo tinha sĂł dor. Tinha humilhação. Porque, no fundo, ele nĂŁo queria apenas ser amado. Queria ser escolhido acima de tudo. Acima do marido dela. Acima da fĂ© dela. Acima da casa dela. Acima das consequĂȘncias. Queria que o mundo, finalmente, confirmasse a narrativa que ele havia guardado por doze anos:
âNosso amor era maior.â
Mas Mariane escolheu a vida que tinha.
Talvez por amor. Talvez por medo. Talvez por Deus. Talvez por culpa. Talvez porque coragem, Ă s vezes, Ă© nĂŁo obedecer ao incĂȘndio.
Renan nĂŁo aceitou de inĂcio.
Escreveu como quem sangra. Chamou o silĂȘncio dela de grito. Disse adeus sem querer ir. Disse que estava morto para ela enquanto ainda esperava uma mensagem. Chamou a fĂ© dela de fuga. Chamou o casamento dela de teatro. Chamou a prĂłpria dor de amor eterno porque a dor, quando Ă© grande, gosta de se vestir de destino.
Escreveu cartas que pareciam tĂșmulos.
Em algumas, Mariane era luz e ele ficava nas sombras. Em outras, ela era covarde e ele era a vĂtima. Em outras, ele era o homem que ficava, o colo que nĂŁo perguntava nada, o abraço que compreendia atĂ© o silĂȘncio. Em todas, no entanto, havia a mesma verdade escondida:
Renan ainda estava preso.
NĂŁo apenas a Mariane. Preso ao Renan que Mariane havia criado.
EntĂŁo veio Luiz.
Luiz era desses amigos raros diante dos quais um homem pode confessar seus pecados sem precisar tornå-los bonitos. Luiz sabia ouvir. Talvez porque também tivesse seus próprios abismos. Hå amizades que não absolvem, mas sustentam o peso enquanto a verdade aprende a ficar de pé.
Renan escreveu a ele numa madrugada.
A casa estava quieta. Camila dormia. O filho dormia. Havia um carrinho de brinquedo virado no tapete da sala.
E, pela primeira vez, aquele carrinho pareceu acusĂĄ-lo mais do que qualquer sermĂŁo.
O carrinho era pequeno, ridĂculo, inocente. Tinha rodas que talvez ainda guardassem poeira do dia. Era sĂł um brinquedo. Mas, para Renan, naquela hora, era um altar mais verdadeiro que todos os altares de Mariane. Porque ali estava seu filho. Sua casa. Sua vida concreta, desarrumada e viva.
Ele olhou para o celular. Depois olhou para o carrinho. E entendeu o tamanho do homem.
Um filho no quarto. Uma esposa dormindo. Um brinquedo no chão. E ele esperando uma notificação como quem espera salvação.
Foi ali que algo começou a quebrar. Não o amor. O encanto do próprio sofrimento.
Renan percebeu que Mariane havia sido real, sim. Que amå-la não fora mentira. Que ela o transformara, que o primeiro beijo na praça existiu, que o corpo dela inaugurou nele uma linguagem, que o acidente deixou marcas, que o cuidado daquela noite acendeu nele o desejo de ser outro homem.
Mas percebeu também que a Mariane que ele carregava jå não era a mulher real.
A mulher real tinha marido. Tinha fé. Tinha medo. Tinha contradiçÔes. Tinha uma vida onde ele não cabia sem destruir paredes. A mulher real o amara, talvez. Desejara, talvez. Sofrera, quase certamente. Mas escolhera ficar.
A Mariane dentro dele era outra.
Era a de 2013. A da praça. A das covinhas. A da floresta. A do acidente. A que nĂŁo envelhecia. A que nĂŁo pagava contas. A que nĂŁo acordava de mau humor. A que nĂŁo precisava dividir rotina, nem cansaço, nem mercado, nem doença, nem silĂȘncio domĂ©stico.
Essa Mariane era uma morta bela embalsamada pela juventude.
Renan a havia colocado num altar e, por anos, visitou esse altar como quem visita uma santa proibida. Acendia velas de nostalgia, chorava diante dela, escrevia poemas, chamava de destino, chamava de alma, chamava de grande amor. Depois voltava para casa com cheiro de cemitério.
Camila, por outro lado, era chĂŁo.
E Renan, como todo homem infantil diante da maturidade, havia confundido vertigem com profundidade.
Mariane era abismo. Camila era casa.
E hĂĄ homens que sĂł aprendem tarde demais que uma casa pode ser mais sagrada que um abismo.
Isso nĂŁo fez a dor desaparecer. Nenhuma lucidez Ă© tĂŁo milagrosa. Renan ainda pensava nela. Ainda sentia o nome de Mariane subir Ă garganta em dias de chuva. Ainda imaginava se, quando sua alma gritava, ela escutava. Ainda duvidava de si. Ainda queria, em alguma parte escura, receber uma mensagem que dissesse: âerrei, eu volto, era vocĂȘâ.
Mas outra parte dele, menor e mais difĂcil, começou a dizer:
âNĂŁo.â
NĂŁo como quem deixou de amar. Mas como quem, finalmente, reconhece que nem todo amor merece obediĂȘncia.
Renan entendeu que seu filho não podia crescer pagando imposto à sua nostalgia. Que Camila não podia dormir ao lado de um homem que reservava o centro do peito para um fantasma. Que a vida real não podia continuar sendo tratada como intervalo entre uma lembrança e outra.
Entendeu, com vergonha, que talvez Mariane tivesse feito antes dele aquilo que ele precisava aprender agora: recuar do precipĂcio.
Talvez ela nĂŁo tivesse sido apenas covarde.
Talvez, quando escolheu ficar, estivesse tentando salvar algo que ele, tomado pelo fogo, fingia nĂŁo ver. Talvez tivesse chamado de pecado aquilo que ele chamava de amor porque ela compreendia que um sentimento verdadeiro ainda pode ser injusto.
Essa foi a parte que mais doeu.
Porque Ă© mais fĂĄcil odiar quem nos abandona do que admitir que talvez a pessoa tenha escolhido nĂŁo nos destruir junto com ela.
Renan chorou.
NĂŁo como chorava nos poemas, com beleza. Chorou feio. Sem metĂĄfora. Sem chuva na vidraça. Sem frase pronta. Chorou como homem que percebe que uma parte de sua tristeza tambĂ©m era vaidade. Vaidade de ser o nĂŁo escolhido. Vaidade de ser o grande amor impossĂvel. Vaidade de transformar a prĂłpria ferida em prova de superioridade.
Depois, naquela mesma madrugada, ele guardou o celular.
NĂŁo para sempre. Ele nĂŁo era santo. Sabia que talvez no dia seguinte procurasse o nome dela outra vez. Sabia que talvez ainda abrisse fotos, ainda escutasse mĂșsicas, ainda imaginasse Mariane respirando na luz enquanto ele ficava nas sombras. Sabia que a cura nĂŁo viria como raio.
Mas guardou.
E foi até o quarto.
Camila dormia.
Ele a olhou como talvez não olhasse havia muito tempo. Não com a paixão febril que o fazia tremer diante de Mariane, mas com uma espécie de culpa humilde. Camila estava ali, real, desprotegida pelo sono, confiando numa casa que ele quase incendiara por dentro.
Renan nĂŁo a tocou. NĂŁo a acordou. NĂŁo fez promessa em voz alta. Apenas ficou olhando.
E pela primeira vez em muito tempo, a ausĂȘncia de mĂșsica pareceu uma bĂȘnção.
Talvez o amor verdadeiro começasse assim: sem grandiosidade, sem destino, sem febre. Talvez começasse no homem que sente vontade de fugir e fica. No homem que ainda ama um fantasma, mas se recusa a alimentĂĄ-lo. No homem que aceita que o passado foi sagrado, mas nĂŁo tem direito de exigir sacrifĂcios humanos.
Mariane continuou existindo.
Seria mentira dizer que morreu.
HĂĄ amores que nĂŁo morrem; apenas perdem o governo.
Ela continuou em alguma rua interna de Renan, usando o sorriso de 2013, vindo pela praça como se o mundo inteiro tivesse sido criado para aquele primeiro beijo. Continuou na memĂłria do acidente, na floresta, nas mensagens, na suspeita de uma vida que talvez nunca tenha existido, no abraço de Curitiba, no silĂȘncio depois de junho.
Mas agora, quando ela vinha, Renan tentava nĂŁo abrir a porta como antes.
Ăs vezes conseguia. Ăs vezes nĂŁo.
Porque nenhum homem se salva de uma vez.
Quanto a Mariane, talvez também sofresse.
Talvez houvesse noites em que ela olhasse para o marido dormindo e pensasse em Renan. Talvez abrisse uma rede social e fechasse antes de procurar. Talvez chamasse de tentação aquilo que, em outro tempo, chamou de destino. Talvez amasse em silĂȘncio e, justamente por amar, escolhesse nĂŁo voltar.
Talvez o amor dos dois tenha sido isto: uma casa sonhada que, se construĂda, talvez desabasse sobre quatro pessoas inocentes.
Ou talvez, em outra vida, tivessem sido felizes.
Mas a crueldade das grandes histĂłrias Ă© que elas nĂŁo vivem de talvez. Vivem de escolhas.
Renan escolheu, naquela madrugada, nĂŁo mandar mensagem.
NĂŁo parece grande coisa.
Mas para um homem governado por fantasmas, nĂŁo procurar um sinal pode ser o primeiro ato de liberdade.
Anos depois, talvez ele ainda se lembre dela quando chover. Talvez ainda sinta o coração apertar ao ouvir certa mĂșsica, ao passar por uma praça, ao ver um sorriso com covinhas, ao encontrar no chĂŁo um carrinho de brinquedo virado de lado.
E talvez, entĂŁo, entenda enfim:
Mariane foi o incĂȘndio que iluminou o rapaz que ele era. Camila foi a casa que sustentou o homem que ele se tornou. O filho foi o chĂŁo chamando seu nome quando a alma queria abismo. E Luiz foi a testemunha diante de quem ele conseguiu confessar que nem toda tragĂ©dia Ă© destino; algumas sĂŁo apenas a forma mais bonita que encontramos para nĂŁo encarar nossa responsabilidade.
Renan amou Mariane.
Isso jamais serĂĄ pouco.
Mas, no fim, talvez a maior prova de amor nĂŁo tenha sido ir atrĂĄs dela. Nem pedir que ela largasse tudo. Nem escrever poemas sangrando. Nem esperar mensagens na madrugada.
Talvez a maior prova de amor tenha sido deixĂĄ-la respirar na luz que escolheu, enquanto ele, cansado de ser sombra, aprendia a acender uma lĂąmpada pequena dentro da prĂłpria casa.
E naquela luz comum â fraca, domĂ©stica, sem glĂłria â havia mais salvação do que em todos os incĂȘndios.
ConsciĂȘncia
Hoje vocĂȘ inundou em meus pensamentos, a sensação de nostalgia me cobriu como um manto
Meus pensamentos estĂŁo gritando o seu nome desde o meu inconsciente ao consciente e nĂŁo consigo me livrar disso
As vezes me pergunto se quando minha alma grita seu nome, vocĂȘ consegue me escutar?
Ou sera que esse carma com doses de pesadelos, e somente tĂŁo meu?
O problema e que ainda te amo tanto, que chegar ser humilhante..
Se vocĂȘ me ama Deixa eu ir em paz, Amor de verdade NĂŁo prende, nĂŁo faz mal Se vocĂȘ me ama Segue tua estrada Eu abençoo teus passos Sem mĂĄgoa guardada
Lanço essa musica hoje, espero que gostem é um reggae, estarei lapidando meus textos e as transformando em historias cantadas
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Ame de tal maneira, que se o outro partir, nĂŁo perca a si mesmo
Rfc
espetaculo
Teu rosto nunca me deu trégua...
Renan Carneiro
NĂŁo importa quantas vezes vocĂȘ caiu, o que importa Ă© quantas vezes se levantou e disse : Foda se, eu vou tentar outra vez..
Renan Carneiro,
as 00:00 lhe deixei pra trĂĄs, guardo lhe nos mais profundos submundos da minha alma. Preciso seguir
Meu tormento diario, ha 12 anos...
Ate a pro
ah se eu pudesse... Mas nao posso voltar no tempo, entao tenho que queimar essas lembranças no presente.
e eu ainda continuo lhe amando...
Pela ultima vez, novamente...
E no fim, Falhei novamente...