* chapter two: for those who dream low, psalm 126:1.
alerta de gatilho: menção a automutilação e sangue.
ambição não lhe era uma palavra digna, tampouco diria próxima o suficiente. esses anos todos bandit nunca lhe entregara aos seus sonhos, ele não cultivava ambições. sua vida era trabalhar em um lugar qualquer que lhe desse conforto, mas não fama o suficiente para ter uma vida difícil. o que traçava perfeitamente o que exercia no bingo motel, local esse que estava sendo demolido após anos de serviço que prestara. sua frustração era tremenda, ele não sabia o que fazer. e não apenas por não ter mais onde trabalhar, mas por anos de trabalho em que ele poderia ter seguido a única coisa que fez sempre bem e sempre cultivou: a arte. não havia como voltar e diariamente seguidos que bandit pintava em seu quarto minúsculo, com pensamentos que o atormentavam com fulgor. pensamentos esse que o traziam as preocupações do que fazer em seguida. e é por isso que bandit odeia o silêncio. é por isso que ele pinta enquanto a melodia sutil de lacrimosa enche seus ouvidos. curioso, para alguém que tanto aparentava ser do novo século, bandit tinha gostos extremamente retrógrados e hobbies muito antigos. pintura, música erudita, leitura em latim... tudo que se veria em um conto patético por um dos irmãos grimm. mas quando a criação é lhe imposta e não ensinada, tampouco seria difícil deixar de pensar daquela forma. é, na verdade, inútil, viver de outra forma. assim que o bingo motel fora fechado, bandit havia feito um escândalo na prefeitura para receber todo o dinheiro que dizia respeito ao tempo que trabalhou, e não era pouco. eram naqueles momentos que não se esperavam que bandit queria ter tido um rumo mais sólido em sua vida. uma casa maior, mais confortável. móveis bonitos e confortáveis, o gosto de trabalhar e receber por isso sem culpa.
era aquela ideia longínqua de viver da arte, aquilo que remete aos momentos em que pintar era sua única escolha e sua última escapatória. preso no próprio quarto em sua solitária diária, onde qualquer pano branco era uma tela e qualquer tipo de líquido uma tinta. quando estava trancado no quarto, os materiais eram vastos, a única coisa que comprava ou recebia da família eram tintas, pincéis, lápis e coisas mais. entretanto, quando era a própria prisão do internato, bandit pintava com o que conseguia. fosse uma faca na própria perna ou uma pedra solta que riscava a parede. os rabiscos vinham daí, porque não se pensava mais em quando estava sozinho por horas. naqueles dias, ele lembrava de quanto pintava junto dos pais. talvez os únicos momentos de sua vida em que ele pintou junto de alguém, que outra pessoa viu o que ele fez e fielmente apreciou.
por incrível que parecesse, aqueles dias eram até confortáveis, uma vez que ganhou todo o dinheiro que exigiu ao gritar por toda a prefeitura de gaecheon. o mais surpreendente era que bandit não estava a procurar emprego, ele mal quis ver se ofereceriam alguma coisa no local que construiriam em cima do bingo. não que ele não quisesse, mas sabia bem que, naquele momento, tampouco tinha tempo para isso. naqueles últimos dias de setembro, bandit pintava uma última tela e seu minúsculo apartamento parecia menor ainda com o tanto de coisas em cima da mesa e as que secavam no chão. um trabalho árduo de um mês inteiro em memória aos perdidos, os que se perderam e os que perderam em toda aquela confusão. da dor de uma sociedade inteira nascia a inspiração e a dedicação de um artista a eternizar o sentimento e tudo que foi deixado para trás. eterno. porque é isso que a arte faz com as coisas ela eterniza todos os momentos, tudo que se passa e todos que se conhecem. quando o mundo estiver em chamas a única coisa que sobreviverá é a arte, seja caindo aos pedaços ou inteira. enquanto um artista estiver vivo, todas as almas no mundo estarão.
é na última pincelada no último quadro de uma série de 17 pinturas, em diferentes tamanhos, mesmo que monocromáticas e de mesmo material, que bandit suspira. passa a mão coberta de tinta preta pelo cabelo igualmente escuro enquanto encara todo um trabalho que apenas significava uma coisa: o nascimento de um artista. propriamente dizendo, o que ele externa é: “ eu não sei onde caralhos eu vou enfiar isso. ”, o que é uma forma chula de dizer que ele vai ter que correr atrás de uma galeria para exibir essa coleção. a coleção dele.














