⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ 𝕯e todas as formas que poderia se aproximar, seguindo o seu desejo, o jeito abrupto como continuava parado frente à ela era reflexo da nada gentil forma como tinha o seu corpo atravessado. Era como se aquela figura o chamasse, pedindo algum tipo de favor ou até acalanto, já que não entendia muito bem o que passava na sua mente como mensagens atrás da orelha. Quando ouviu o nome alheio foi como se um clarão iluminasse o nada em um flash rápido; fazia sentido mas não sabia o motivo. Tinha certeza que conhecia aquele nome, até os acentos carregados de um sotaque diferenciado, mas seria demais perguntá-lo da onde vinha o que tanto sentia e nisso ele apenas se curvou em educação àquela que havia se apresentado.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ “Jeon Seth.” A voz séria cortou o espaço entre os dois como um trovão, seus olhos se levantando da curvatura de sua postura para atravessar os dela e dar-lhe o mínimo de conforto que conseguia. Repentinamente, sua mente se tornou uma grande sala e Seth sentou em uma das cadeiras disponíveis, observando tudo que acontecia fora de seu controle.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ 𝖀ma das palmas rumou à frente, pedindo a dela em resposta e no canto dos lábios algo que não cabia com a personalidade dele brilhou. “Pode passear comigo? Gostei de você.” Um pedido que não esperou resposta, afinal, antes do fim já estava tomando rumo a sessão que se estendia por mais uns bons metros. Devagar e com as mãos para trás, ele tinha um ar que contrariava totalmente o corpo jovial. A experiência em seus ombros era quase algo concreto e mesmo assim ele parecia alheio ao que acontecia. “Me pergunto qual foi o último bom livro que você leu… Aquele com real significado, sabe?” Dito isso, seus dedos foram à uma das prateleiras, recolhendo um volume sem parar de andar e pacientemente o entregou ao cuidado da companhia. Na página aberta, uma mensagem escrita à mão.
* ⠀ / ⠀ Haseul estava confusa a princípio, tudo bem, ela sente que já havia visto essa pessoa antes, o que atiçou a sua curiosidade, impedindo-a, ao menos, de sair correndo dali, até mesmo quando, do nada, é convidada para um passeio. Felizmente, pro desconhecido que queria companhia, o assunto mudou para algo no qual ela tinha interesse: Livros.
⠀ Uma pergunta que parecia simples, mas logo foi revelando a sua complexidade, Haseul tinha lido muitos livros considerados bons por ela, Orwell, Lispector, Huxley e até Tolkien, devorara diversos dos livros desses e outros autores, mas real significado? O que será que ele queria dizer com isso? Pensou um pouco sobre a sua terra natal, alguns livros de Sapkowski que lera, Farenheit 451, de Bradbury, talvez? Era um ótimo livro sobre o totalitarismo da indústria cultural e da sociedade de consumo, ou talvez... Quem sabe... Estava tão imersa em seus pensamentos, que nem notou o livro mostrado pelo jovem a sua frente, nem os segundos se tornando minutos, quando finalmente se dá conta de que ele a estava observando em silêncio até agora, por um breve instante, seus olhos se encontram.
⠀ Deu um passo para trás, não fazia sentido, né? Era coisa da sua cabeça, só podia ser coisa da sua cabeça. Claro, tão concentrada em encontrar um livro de real significado, estava olhando pra baixo, provavelmente, e quando levantou os olhos e fitou os do rapaz, talvez, a luminosidade do ambiente tenha proporcionado algum tipo de ilusão de ótica, tinha que ser isso, aqueles vultos ao redor dele, aqueles...
⠀ Haseul então piscou os olhos, as formas estranhas que vira não estavam mais lá, mas a inexplicável sensação de que elas também a observavam fez com que seu coração acelerasse e o suor que começou a escorrer sobre o seu pescoço era frio como o gelo. Se recompõe, estava só imaginando coisas, "Não sei, já deve fazer tanto tempo desde que eu li um livro com real significado que eu nem me lembro mas, e você? Já leu algum? Quando?" Só então deixou que os olhos voltassem ao livro que estava em suas mãos, numa tentativa de fugir dos olhos do outro.