A escravidão do desamor.
Recentemente, o canal “TV Brasil” anunciou a vigésima nona reprise de A Escrava Isaura (2004) e eu, como boa noveleira que sou, voltei a reservar um cantinho no sofá para assistir a versão mais recente desse clássico na TV.
E não é a primeira vez que o faço. A Escrava Isaura é um dos maiores sucessos da nossa teledramaturgia, vendida e consumida mundo a fora como um verdadeiro fenômeno. A inesquecível obra de Bernardo Guimarães ganhou duas adaptações para a TV, e em ambas as versões de Gilberto Braga (1976) e Tiago Santiago (2004), a história arrematou audiências e elogios da crítica especializada.
É curioso notar que apesar de essencialmente brasileira, há um quê universal na trama de Guimarães, capaz de reverberar em todos os cantos do mundo: a busca por um dos desejos mais primitivos do homem — a liberdade.
Mais além dos contornos abolicionistas que só ganham força quando uma escrava BRANCA se vê condenada à sofrer por toda a vida nas mãos de seu senhor, há outra trama central em A Escrava Isaura: o violento e doentio amor de Leôncio pela única mulher que nunca o correspondeu.
Possivelmente um dos maiores vilões da nossa literatura, Leôncio Almeida dispensa apresentações. Cruel, impiedoso e mimado, o filho do Comendador Almeida cresceu sob os cuidados do pai, como ditavam os costumes da época. Almeida pai perseguia suas escravas, castigava-as no tronco quando recusavam suas investidas e jamais se negou a realizar até o menor dos caprichos de seu único filho.
O pai de Leôncio se apaixona pela escrava Juliana, mãe de Isaura, e quando rejeitado por ela, ordena que a castiguem até a morte no pelourinho. Leôncio era ainda um menino quando assistiu a execução de Juliana de olhos vidrados, entendendo logo cedo que escravas não tinham o direito de se recusar aos seus senhores.
Gertrudes, uma mulher doce porém obediente, não se opôs ao castigo de Juliana, mas prometeu criar Isaura como sua própria filha, honrando assim a memória da escrava assassinada.
Leôncio e Isaura, portanto, cresceram praticamente juntos na casa grande. Mesmo escrava, Gertrudes educou Isaura como a irmã caçula de Leôncio, presenteando-a com vestidos bonitos, mimos vindos da corte e um caráter singular.
Anos depois, Leôncio viaja até a Europa para concluir seus estudos e só retorna a Campos de Goytacases como homem feito. A volta à fazenda de seus pais marca o início do suplício de Isaura. Suplício esse que, para ambos, só teria fim se um dos dois deixasse de existir para sempre. Mas logo chegaremos lá.
A jornada de heroína de Isaura é reconhecida por todos. Cada castigo que a protagonista é submetida faz o público chorar e torcer por seu final feliz. E é por isso que falar de Leôncio me interessa mais. Porque interpretar essa história, pelos olhos do “vilão”, não passa de uma tragédia.






