Zhoukoudian, em chinês literalmente o Monte dos Ossos de Dragão (não é só por cá que os topónimos podem indicar a existência de materiais arqueológicos…), é um importante sítio nos arredores de Beijing, mais concretamente no município de Fangshan, com vestígios de várias épocas pré-históricas. É conhecido sobretudo por ter sido o local onde, a partir de finais da década de 1910, se foram encontrando vestígios fósseis do Homem de Pequim, considerado hoje uma subespécie de Homo Erectus. A sua importância reside na quantidade de vestígios, suficiente para confirmar que outras descobertas, nomeadamente em Java e logo no século XIX, pertenciam a esta espécie de hominídeo, à época nova para a ciência.
Após alguns episódios rocambolescos ao longo do século XX, que incluíram o desaparecimento, durante a II Guerra Mundial, dos fósseis encontrados até esse momento, recentes escavações por arqueólogos chineses identificaram mais vestígios no local, confirmando assim a classificação do Homem de Pequim como Homo Erectus. As datações obtidas fazem recuar os vestígios identificados até cerca de 750 000 anos BP. Outros dados importantes prendem-se com indícios do uso do fogo bem como da prática da caça por parte do Homem de Pequim.
Sendo um sítio significativo para a ideia chinesa de nação (mais um exemplo de como a Arqueologia contribui ativamente para a criação de identidades), Zhoukoudian foi objecto duma bem sucedida, estética e tecnicamente, intervenção de conservação do sítio, com a colocação duma cobertura bem pensada e implementada. Assim, para além de contribuir de forma espectacular para a experiência cénica de visita, ao ter permitido criar iluminação talvez um pouco excessiva mas que cumpre a sua função, projectar directamente nas paredes da gruta vários tipos de informação (uma solução original e interessante) e delinear um circuito de visitação que serpenteia desde o topo da colina até aos níveis inferiores escavados na gruta, a estrutura tem várias características sui generis.
Como se pode observar nas fotos, a cobertura não é una, mas antes constituída por centenas de placas duplas, interiores e exteriores. Assim, se as placas interiores são revestidas de material isolante, as exteriores são cobertas por vegetação, o que dá uma ´feição ecológica’ à intervenção. Completam o aparato exterior e interior, iluminação, algo feérica, é certo, que permite criar jogos de luz cativantes mas um pouco potentes demais. De referir ainda que o facto das placas não se encontrarem ligadas, permite a existência de aberturas de respiração natural, o que constitui uma solução bem gizada do ponto de vista conservativo, sendo que os dados ambientais do interior da gruta são monitorizados 24 horas por dia. O sítio é gerido a partir do vizinho Museu do Homem de Pequim em Zhoukoudian, também figurado nas fotos acima. As duas estruturas contam com um total de 200 trabalhadores.
Este ano em que se comemora o centésimo aniversário da descoberta do Homem de Pequim, as autoridades chinesas lançaram um vasto programa de comemorações que culminou com a realização do “Simpósio Internacional para a Conservação, Investigação e Desenvolvimento Sustentado do Património Pré-Histórico” e a inauguração desta cobertura. No que se refere ao património cultural, este evento, com vasto apoio de diversas entidades chinesas, integra-se numa nova abordagem das questões ambientais, traduzida por uma forte campanha de fomento na criação de cidades mais ecológicas e sustentáveis, nomeadamente em torno de Pequim, lançada recentemente pelo governo chinês. Assim, estas comemorações pretenderam também mostrar ao mundo o que tem vindo a ser alcançado no campo do património, tendo mesmo resultado da reunião um documento comum recomendando maior esforços globais na conservação, gestão e divulgação do património arqueológico pré-histórico mundial.
Zhoukoudian, o Monte dos Ossos de Dragão Zhoukoudian, em chinês literalmente o Monte dos Ossos de Dragão (não é só por cá que os topónimos podem indicar a existência de materiais arqueológicos...), é um importante sítio nos arredores de Beijing, mais concretamente no município de Fangshan, com vestígios de várias épocas pré-históricas.