Matsumura Naomi, 19. HISTORY. ESTJ-T. Everybody's talking all this stuff about me. Why don't they just let me live? I don't need permission, make my own decisions.
━ Você não acha que existe um problema aí, então? ━ Questionou hesitantemente. Sabia que era uma péssima escolha criar aquela situação, mas de seu ponto de vista, era um assunto diferente. Um que deveria receber atenção, mesmo que a poeira não tivesse baixado por completo. Pensando melhor, Mingyu percebeu que ela nunca baixaria totalmente. Nada retornaria ao que era antes, e só cabia aceitar o fato. Por isso, ainda que odiasse que ele tivesse que ser quem colocava o dedo nas feridas dela pela segunda vez na noite, sabia que tinha que fazer e não podia mais desperdiçar oportunidades. ━ Se conversamos tudo e não chegamos a lugar nenhum, é porque não conversamos tudo. ━ Mais uma pausa, dessa vez ganhando algum tempo para si mesmo ao correr os olhos pelos arredores da rua bastante movimentada. Escutou-a, claro que sim. E precisou respirar fundo algumas vezes para se controlar. Era extremamente doloroso para ele pensar no filho que já não existia. No filho que ele sabia que teria dado tudo o que tinha, tanto física quanto emocionalmente falando. Entretanto, ele evidentemente sabia que a sensação dos braços vazios não era pior do que a de um útero àquela altura. E era justamente esse tipo de coisa que ele queria ter percebido antes, quando sua mente não era nada além de caos, desespero e dor. Ainda que pudesse sustentar seu ponto, havia decidido dar ouvidos a Seulji. E era por isso que pedira por uma conversa. Quando tornou a falar, seu tom de voz era um pouquinho mais alto, tentando cobrir os ruídos da rua enquanto tentava manter a discrição: ━ Não é sobre o… Bebê. ━ Garantiu. A hesitação agora forçada pela escolha de um termo apropriado. Dentre as opções em seu eixo de sintagma e paradigma, tinha que escolher um que não fosse frio demais, como termos médicos ou algo afetuoso demais. Ainda que tudo parecesse altamente afetuoso para ele. Parecia não haver um meio termo, já que machucaria de qualquer jeito. ━ Nós não estamos bem. Provavelmente nunca vamos estar. Porém, nós não podemos só agir como se nada tivesse acontecido, entende? Eu realmente não quero ter que abaixar a cabeça e fingir que não te vi. Se vai ser ruim para nós dois pelo resto da vida, que possamos, pelo menos, ter um ao outro. Foi isso o que eu disse no outro dia. Mesmo que no meio de muita babaquice… Que eu vou estar ao seu lado. Eu quero estar ao seu lado, para o que for. Mesmo que for para você me xingar, me odiar, sei lá, pelo resto da vida.
Enquanto o ouvia, o olhar de Naomi se perdeu em alguma parte do trajeto daquelas ruas. As palavras soavam distantes, como se Mingyu estivesse longe de si ao dizê-las, enquanto encontrava-se na calçada oposta ou algo do tipo. Isso acontecia, porque estava tentando distrair a mente; tentando não deixar que as frases do mais velho tomassem conta de seus pensamentos, de modo que alimentassem qualquer nova esperança dentro dela. Tanto das coisas se ajeitarem, quanto de voltarem a sair ou qualquer coisa do gênero. Era mais fácil ser assim, agir como se nada estivesse acontecendo ou se nada estivesse sendo dito; assim, ao final de tudo, a dor não seria tão grande quanto fora no momento em que descobriu que não estava dentro das prioridades e das condições mentais do outro, fazer-lhe companhia depois do acidente traumatizante.
“Se eu não te conhecesse, eu diria que isso soa como um pedido de namoro. Mas também poderia dizer que ele veio em uma hora extremamente errada.” Sorriu de canto, após rir nasalmente, sem humor algum. Balançou a cabeça por alguns instantes, mordiscando o interno da bochecha antes de voltar a falar. “Não se preocupe, eu não te odeio. Não mais, pelo menos. Porque eu entendi que isso não mudaria o que aconteceu ou como aconteceu. Não mudaria as noites que passei me remoendo por me achar mais trouxa do que nunca, nem mudaria o rosto de uma vadia traidora que eu soquei depois que ela disse na minha cara que estava pegando o cara de quem eu disse que gostava e, principalmente, com quem ela me condenou por estar ficando.” Deu de ombros, maneando a cabeça. Minkyung era uma página virada em sua vida, mas sentia que ainda precisava explicar ao outro que não esfolara o rosto da jovem em questão, por ciúmes; mas sim porque ela a traíra. Então o foco era a maneira como uma suposta amiga fez algo do tipo, não o homem que estivera entre as duas. Até porque Naomi era a última garota no mundo que o faria -- brigar por alguém do sexo oposto -- agora que aprendera, a duras penas, que aquilo não valia à pena, baseando-se em todo seu tempo perdido com Deokhwa.
“Não tem que passar por mim e fingir que não me vi, mas eu também não quero que olhe para mim e só consiga pensar nisso. Afinal, eu deveria ser muito mais do que a mãe de um filho seu que não chegou a existir. Quero dizer, não dá pra pelo menos manter a imagem de que eu sou sua amiga? Ou era, sei lá eu.” Crispou os lábios, confusa com as próprias palavras. “E o resto da vida não é muito longo para certas pessoas, então está tudo bem para mim se continuar ruim como já está sendo. Eu só não queria que fosse assim para você também. Afinal, seu futuro é muito mais promissor que o meu.” Arqueou uma das sobrancelhas, cruzando então os braços sobre o busto. “Não acho que eu vá passar por muito mais coisa, mas... Fico grata pelas palavras. Significariam muito para mim há algum tempo atrás.” Não estava fazendo pouco caso do que ouvira, só estava falando a verdade; achava difícil que algo de muito mais ruim acontecesse consigo. Mas se fosse o caso, ficava feliz de ter Mingyu por perto. Ou algo do tipo. “Mais alguma coisa sobre a qual queira falar?” Torcia para que não houvesse mais extensão daquele assunto, mas se acontecesse... Teria de seguir o ritmo, certo? Pelo bem daquela tentativa de tentar colocar as coisas no lugar.
Estar no Japão sozinha era uma experiência e tanto. Claro que Minjoon não aprovara a viagem, mas não era como se Naomi estivesse em condições de atender aos pedidos do tutor agora. Não quando as passagens estavam compradas, não quando suas malas estavam feitas. Não quando seus e-mails foram enviados aos únicos amigos que convinha a Matsumura comunicar de sua partida, com o retorno dentro de alguns dias: Hyuna, Haneul, Deokhwa, Daehyun e mais alguns que conhecera na faculdade, por mais que não se vissem há um bom tempo. Havia até mesmo um e-mail para Jeha, com um texto meio afável, meio rude, como sempre; um para Líyue também, para o amigo que agora se encontrava morando em Busan, com quem falava periodicamente e de quem sentia muita falta. E sim, e-mail. Porque Naomi quebrara seu celular na noite anterior à viagem, intencionalmente. Mais precisamente, o jogara pela janela do ônibus quando voltava do hospital, para mais uma de suas sessões nada agradáveis na mão de algum enfermeiro para dar conta de seus machucados.
Pelo menos a vista do hotel em que estava, em Osaka, era bonita. Estava habituada a ela, aliás, porque fora ali que passara as últimas férias com Deokhwa, enquanto ainda namoravam e estavam na presença de um dos responsáveis. A temperatura era agradável, conseguia animar qualquer pessoa para agitar uma ida à piscina ou coisa do tipo. As pessoas lá fora eram receptivas e Naomi conheceu algumas naqueles dois ou três dias em que estivera na cidade, apesar de agora preferir ficar dentro do quarto e focar em seu real objetivo naquela viagem. Um que não era tão animador ou tão excitante assim, muito pelo contrário.
O grande problema era que Naomi sentia que ainda não tinha coragem o suficiente para cumpri-lo. Quer dizer, ela nunca fora muito corajosa. Uma encrenqueira e tanto, ótima com os punhos e realmente agressiva quando entrava em uma briga, mas ainda existia covardia em si quando precisava tomar suas próprias decisões. Como quando tremera na base diante da descoberta da gravidez, ou quando não pudera seguir adiante com o namoro que tinha com outra garota pelo medo da reação das pessoas e, principalmente, de seu pai. Basicamente, aquilo significava que era difícil para ela dar continuidade aos seus planos iniciais, por mais que eles fossem lhe proporcionar benefícios futuramente, como o caso do curso que demorara tanto para escolher na faculdade ou a profissão que decidira ter assim que chegara à vila e precisava de algo para distrair sua mente traumatizada, segundo Minjoon.
E foi exatamente devido a toda essa falta de coragem, que os dias foram passando. Consequentemente, havia cada vez menos tempo para que Naomi executasse o plano que inserira em sua mente numa das semanas mais conturbadas de sua vida, quando estava mais do que claro para ela que não haveria motivos para permanecer em Bukchon. Na Coreia. No mundo, na verdade. Sendo que doía perceber isso, mas não tratava-se de uma mentira ou de uma armadilha criada por sua própria mente. Era apenas um fato, considerando que já não parecia haver mais sanidade alguma a ser preservada em Naomi após a apoteose de sua vida, que fora o acidente de carro e, principalmente, a perda do filho.
[24.08]
A noite estava nublada. Matsumura jantara há algumas horas atrás e agora assistia a um programa aleatório na TV. Estava vestida com a sua melhor roupa, por mais que não fosse sair para restaurante algum. Suas duas malas estavam arrumadas num canto do cômodo, com o cinzeiro que prometera de lembrança para Mingyu, sobre uma delas, devidamente embalado e com o nome dele, assim como a cartela de adesivos da Hello Kitty; coisa que a fazia se lembrar de ter deixado todo seu quarto arrumado em Bukchon, com suas vestimentas dentro de sacos plásticos, com dizeres garrafais neles: PARA DOAÇÃO, trancando o lugar antes de sair para o aeroporto. Então, não havia nada além de itens críticos consigo agora, como as mudas de roupa que precisaria e precisou naqueles dias passados em Osaka.
Sentia falta de seu celular para comunicar seus amigos uma última vez antes de deixar o apartamento, em poucos instantes. Contudo, lembrou-se também que não havia muitos mais em sua vida. Havia sim bastante gente conhecida, de seu dia a dia no vilarejo histórico. Mas amigos? Nah, não. Perdera Líyue há algum tempo, consolara-se com Seulji, mas nada além disso. Gostaria de também ter enviado uma mensagem a Deokhwa, mas não queria ninguém se remoendo por falso remorso, ou coisa do tipo. E justamente por isso não enviara nada a Mingyu, de maneira propriamente dita; apesar de haver uma folha de papel cheia de dizeres dentro da bolsa de lado que Naomi tinha em um dos braços. As palavras eram simples, não eram textos dramáticos ou cartas que seriam enviadas a alguém. Felizmente. Por mais que Matsumura imaginasse que o conteúdo daquele documento poderia chegar ao ouvido dos mencionados depois daquela noite, simplesmente porque tragédia pouca era bobagem.
Mais abaixo, quase ao final da folha, havia algo para seu pai também. Não endereçado diretamente a ele, mas as palavras deixavam aquilo claro. O pequeno texto estava em japonês.
Será a última vez que te darei trabalho, eu prometo. Isso vai chegar a você, porque eu deixei o endereço e o telefone da nossa casa escrito na parte de trás desta página. Então, quando isso acontecer, não quero que mais ninguém saiba do que eu fiz. Providencie uma cerimônia particular, por favor; e, se não for pedir demais, eu também quero as minhas cinzas junto com as da minha mãe, em Busan. Eu te amo e lhe sou muito grata por tudo que fez por mim e não queria ter de deixá-lo sozinho. Mas eu preciso ir agora. Eu não sou a filha que você esperava que eu fosse e jamais poderei ser. Peço perdão por isso. Você merece ser muito feliz e eu não posso simplesmente impedi-lo disso.
Sabia que Minjoon não cumpriria com um de seus principais desejos, o de deixar aquele assunto intocado; justamente porque ele era do tipo que falava e explanava quando estava sob pressão ou quando questionado, mas tudo bem. Que ele fizesse como achasse melhor.
Abaixo desta parte, havia mais frases desconexas e bagunçadas. Havia mistura de caracteres japoneses e coreanos, uma clara demonstração do nervosismo de Naomi ao redigir tudo aquilo; este que sumira por completo assim que se acalmou após a ingestão de muitos de seus calmantes. E foi devido a eles que colocou-se sentada de frente para aquela TV, esperando que aqueles trovões lá fora parassem ou que a chuva viesse de uma vez. Quando eles cessaram, finalmente colocou-se em pé; abaixou-se perto do frigobar, atrás da última garrafa de soju que havia em sua geladeira. Abriu-a e virou-a de uma vez, sentindo-se tonta ao fazê-lo. Respirou fundo e se certificou de apagar todas as luzes daquele quarto antes de sair pelo corredor de seu andar. Remexeu nos bolsos e tratou de procurar por um de seus cigarros. Também era o último de seu maço; e acendeu-o no trajeto até o ponto mais alto daquele prédio que deveria ter cerca de dez andares. Ou algo do tipo.
Já sentia as pernas vacilantes, trêmulas, àquela altura do campeonato. Os calmantes estavam começando a fazer efeito, mas ela não poderia depender deles. Por isso estava lá em cima, aproximando-se da beirada do edifício, tentando ignorar o fato de que era muito provável que ouvissem o barulho de seu corpo atingindo o solo assim que pulasse. Contudo, como a coragem ainda não estava lá, aproveitou mais aqueles minutos fumando. A cada tragada, pensava em algo. Ou em alguém. Como na carreira que não teria continuidade, na tristeza de Minjoon ao saber do ocorrido; pensou também em Floyd e em Plutão, sua cobra e seu gato, respectivamente. Como o animal de pelagem negra e cego de um olho ficaria diante da ausência da dona? Floyd sobreviveria, claro. O que a preocupava era com quem poderiam ficar; por isso é que escrevera na parte de trás daquela folha que agora estava entre os dedos de sua mão direita, que gostaria que Minjoon cuidasse deles também e que se não fosse possível, que buscasse a adoção em pessoas conscientes.
Pensou também nas festas que não frequentaria mais com as amigas. Nas pessoas que não veria mais, num geral. Simplesmente porque, em poucos minutos, se tudo desse certo, seu corpo teria perdido todos os sentidos. Se não fosse pela medicação que tomara acima da dosagem recomendada – bem como Daeun em sua tentativa –, seria pela queda absurda. Sendo que pensara nela justamente porque não queria depender dos calmantes e dos antidepressivos misturados, para chegar à morte. Naomi lera em algum lugar que aquele era o meio mais adotado por pessoas que não tinham tanta certeza assim de querer seu fim, porque ele também era o menos efetivo em questões de suicídio.
Aliás, ela poderia sim estar fazendo aquilo em Bukchon. Mingyu poderia, inclusive, chamá-la de dramática por estar tirando a própria vida em outro país, rir disso. Ele estaria certo. Afinal, poderia ter sim optado pelo vilarejo. A cidade que a acolhera após a perda dos pais e da avó; mas preferira fazer aquilo bem longe de olhares conhecidos. Bem como preferia que ninguém frequentasse seu funeral, caso houvesse um – se Minjoon decidisse não atender mais aquela sua vontade póstuma. Simplesmente porque Naomi estava saturada de gente hipócrita, de convenções sociais acatadas pela comunidade que pecava no quesito de respeito mútuo e coisas do tipo. O fato era que preferia daquela maneira; morrer sozinha, chegar ao seu máximo sozinha. Não precisava da piedade de ninguém, nem de falsa comoção em uma cerimônia que acompanharia sua partida. Apenas Minjoon precisava se importar com aquilo, por mais que fosse ter um trabalho e tanto, considerando que seria a única pessoa nos preparativos para a cremação que Naomi solicitara naquela folha. Esta mesma que, como ela dissera, possuía o endereço de seu hanok em Bukchon e o telefone de Minjoon, para que todas as medidas cabíveis fossem tomadas.
Então, finalmente, seu cigarro estava no fim. A última tragada quase doeu em sua garganta, antes que Matsumura dispersasse a fumaça para cima. Aproximou-se mais da beirada e fitou o que havia mais abaixo. Largou a bituca do cigarro dentro da bolsa. A noite escura ocultava parte da real dimensão daquela altura, daquela distância entre o topo e o chão. Sentiu o estômago revirando mesmo assim, mas, mais uma vez, lembrou-se de como não poderia confiar apenas nos medicamentos que ingerira, apesar de já sentir a respiração mais fraca e sentir a visão embaçando também, a cabeça girando e tudo o mais. Afinal, Daeun contara apenas com aqueles malditos remédios e agora estava vivo, dependendo dos olhares de julgamento dos outros, certo? Se ele poderia viver com aquilo, ótimo. Ela não poderia.
Por isso tinha que ter certeza de que seu fim estava encaminhado; até porque, ele era a única coisa que poderia poupá-la daquela realidade exaustiva.
O corpo machucado, parecendo cada vez mais feio diante de seus olhos cada vez que se olhava no espelho. Todos aqueles medicamentos regulados, todas aquelas visitas ao hospital, todos aqueles médicos. Aquele maldito psicólogo que só fazia com que seu psicológico ficasse ainda mais desestabilizado, porque fora posta aos cuidados dele contra sua vontade. Todas aquelas pessoas ao seu redor, sempre tão contentes em seu próprio mundo enquanto o dela estava desabando… Parecia demais para alguém como Naomi, que usava viagens, camas alheias e itens caros para preencher as lacunas de sua vida. Esta que, finalmente, estava chegando ao fim agora, conforme a mestiça sentia suas pernas cederem completamente e finalmente cair sobre seus joelhos, mas sem um chão imediato onde pudesse apoiá-los, já que a queda livre estava acontecendo.
O vento frio em seu rosto, bagunçando-lhe o vestido e os cabelos curtos, tão intenso. Entretanto, até parecia que Naomi estava dentro de um carro, com os olhos fechados, aproveitando a brisa gostosa do momento. Como nas tardes que tirara para ir junto com os pais até alguma parte de Busan, para disputar um de seus inúmeros concursos de beleza, sendo que boa parte deles ela havia ganhado, mas que de nada adiantaram quando foi praticamente barrada na categoria de Pequena Miss Korea simplesmente porque era mestiça. Nada que tivessem dito à época de sua desclassificação, mas agora que crescera e podia se lembrar da expressão triste no rosto da mãe diante do ocorrido, compreendia absolutamente. Novamente, sem colocar a culpa em mais ninguém além de si mesma, porque no final das contas, tudo era sobre si. Sobre seus erros. Sobre suas escolhas.
Bem como aquele baque que sequer sentiu quando finalmente chegou ao chão. Chegou a ouvir barulhos de coisas se quebrando; seus ossos, talvez. Seu pescoço, principalmente. Mas nada que a preocupasse por muito tempo, felizmente. Afinal, sua consciência não perdurou muito; finalmente estaria em paz. Longe de todas aquelas coisas – e, principalmente, longe de todas aquelas pessoas – que corromperam sua alma até aquele ponto extremamente crítico; que, se tudo desse certo, não seria descoberto por ninguém, nem comentado, mesmo quando seu corpo fosse finalmente translado e voltasse para o país de origem.
Por mais que acreditasse que tivesse perdido completamente o jeito com pessoas, Mingyu estava tentando reavivar isso dentro de si. Fazer aquele tipo de esforço por algumas pessoas valia à pena, ainda mais quando ele não tinha muitas pessoas com quem se importava de fato. Então parecia crucial que ele ao menos tentasse parar de empurrar as pessoas para fora de sua vida como forma de amenizar seus problemas e suas dores. E também porque não era só por ele naquele exato momento. Entretanto, conforme os segundo passavam e ele tinha os olhos nela, mais coisas se tornavam claras. Como não se tratar exatamente de um contrato moral, mas de afeto. Ele gostava de Naomi.
E ainda que evitasse a todo custo fingir que não se importava, que seus casos eram só casualidades, ele nunca escapava. Vez ou outra, ele cometeria o pior dos deslizes: gostar de alguém. Nada arrebatador, mas sempre perturbador. Acompanhou os passos dela, também ajeitando os pertences dentro dos bolsos. “Sim, dois dias livres dos hospital, pelo menos.” Sorriu de canto. “O que não é muito bom, porque eu morro de medo de algo dar errado, sabe? Me designaram alguns pacientes e eu não consigo não pensar em como eles estão. Ainda mais porque são crianças.”
“Eu posso imaginar como é difícil. Levar o trabalho para casa dentro da sua cabeça parece ser tão difícil quanto levar em forma de papelada.” Comentou enquanto assentia; pensou em mencionar sua experiência como guia turística, quando passava algum tempo longe de seu posto e tudo o mais, mas chegou à conclusão de que o que fazia era realmente insignificante perto do prestígio da função de um médico. Por isso achou melhor se calar e não verbalizar aqueles pensamentos. “O que pretende fazer nesses dois dias livres?” Perguntou casualmente, mexendo nos cabelos até que pudesse prendê-los com um laço. Sem muito sucesso, porque logo havia madeixas escapando pela lateral de seu rosto, devido aos fios estarem curtos demais. “Ver séries médicas como Grey’s Anatomy e Dr. House é algo que está fora da sua lista de planos, eu aposto.” Brincou, virando numa das esquinas que levaria à sorveteria mais próxima.
Tão logo que encontrou-a e viu o que ela fazia, Mingyu se aproximou rapidamente para arrancar a lasca de madeira da mão dela e jogar no chão. Tomou a mão dela entre a sua e avaliou o que ela estava fazendo com os dedos. “Naomi!” Repreendeu, então, erguendo os olhos para o rosto dela. Além da enorme aflição que atingira todas as células de seu corpo com a cena que presenciara, era quase um impulso salvar ou ajudar as pessoas. Ainda que, aparentemente, Naomi não estivesse precisando que ele fizesse isso. Involuntariamente, permaneceu segurando a mão dela, acariciando seus dedos, tentando amenizar a dor que ela possivelmente sentia. Como quando se machucava e logo apertava o machucado, tentando conter a dor.
Soltou-a quando percebeu o que fazia e se afastou um passo curto, para coçar a nuca naquele sinal universal de nervosismo. Respirou fundo e então correu os olhos pelos arredores. Não havia nenhuma situação para a qual precisasse correr. “Eu…” Começou, voltando a fitá-la. “Vamos?” Perguntou, já pensando em pedir um táxi. Mingyu não dirigia, apesar de saber. E não podia simplesmente arrastar Naomi para um ponto de ônibus depois de dizer que a levaria para casa. Então fez seu caminho para o lado de fora, se despedindo brevemente das recepcionistas. “Que bom que você ficou. Eu acho que… Nós precisamos conversar, uh?”
Ela poderia ter protestado pela maneira como seu pulso foi envolvido abruptamente? Sim. Poderia ter desvencilhado-se no momento seguinte? Também poderia. Mas estava tão absorta em seus pensamentos que aquilo mais lhe pareceu como um sermão que um pai dava a uma filha inconsequente, sendo que esta mesma filha não prestava atenção nas palavras que lhe eram dirigidas, entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Por isso não fez nada além de voltar os olhos grandes de coruja para o mais velho, encolhendo os ombros e ajeitando a postura ao reparar outros olhares sobre os dois. A única coisa à qual reagiu, realmente, foi às carícias que vinha recebendo sobre seus dígitos machucados; ao senti-las, afastou o toque pouco antes de tê-lo soltando-lhe também.
No momento seguinte, começou a se perguntar se não teria sido melhor ir embora sozinha. Tanto para se poupar daquele momento de notável constrangimento por parte de Mingyu, quanto para se poupar daquele que parecia ser o prenúncio de mais uma discussão. Ou de mais alguma chateação que Matsumura passaria a guardar dentro de si, simplesmente porque não estava mais em vias de debater com alguém acerca de um assunto já remoído e enterrado.
“Olha, Mingyu...” Suspirou pesadamente, balançando a cabeça de um lado para o outro, mantendo-a erguida de modo que pudesse fitar o caminho à sua frente. “Eu acho que já conversamos tudo o que tínhamos para conversar, certo? Você expôs seus pensamentos, eu expus os meus e não chegamos a lugar algum, exceto a mais frustrações. Pelo menos no meu caso.” Deu de ombros. Apesar de falar daquela maneira, estava bastante entorpecida ao tratar daquele assunto; ouvira tudo o que precisara ouvir quando o outro a chamara de dramática, mesmo após um acidente de carro e a perda de um bebê. Era evidente sim que estava magoada, mas não era mais evidente ainda que ela não queria mais tocar naquele assunto? Justamente porque doía. E porque não estava com a mínima vontade de sentir dor alguma sozinha, outra vez, já que não era o caso de Mingyu estar lá para apoia-la, sempre tão ocupado com o trabalho, a universidade, os amigos -- enfim, a vida normal que não fora tão abruptamente interrompida quanto a de Naomi, que não tivera a opção de não ser mãe, mesmo que ainda estivesse na fase inicial de gerar outra pessoa dentro de si. “Nós... Estamos bem. Se ainda houvesse uma criança sobre a qual falar, eu entenderia a sua necessidade de conversar sobre o que aconteceu. Mas não há. Só existem duas pessoas fodidas com a perda dela, e uma que ainda sonha com isso todas as noites.” Sorriu fraco, finalmente o olhando, referindo-se a si mesma. Não sabia o quão doloroso aquele assunto era para Mingyu, mas Naomi duvidava muito que ele estivesse tão destruído por dentro quanto ela estava. Literalmente falando, também. “Por favor, não vamos tratar deste tipo de coisa se você não vai estar por perto para me ajudar com a minha consciência depois.” Apesar do peso em suas palavras, o tom de voz de Naomi era neutro; calmo, até. Tanto pela medicação, quanto porque não queria iniciar uma nova discussão quando ele se oferecera para acompanhá-la até em casa.
Tudo bem, vamos deixar para um dia com menos chances de você babar meu sofá.
Bom, o que me lembra que, por mais que eu queira ficar, tenho que voltar pra casa. É hora dos meus remédios e depois deles fica difícil até ficar em pé.
Sério? Isso é bom. Nós podíamos dar uma volta… Comer tteokbokki?
Nah, Barbie eu não gosto muito não. Só Hello Kitty mesmo, por favor.
É impressão minha ou há uma tendência em você em simplesmente me levar por aí, para qualquer lugar, nos últimos dias? A ideia de não podermos dividir o mesmo sofá, em paz, sem fazer nada, não é mais pertinente pra você ou...?
Tudo bem, Hello Kitty. E arranjo algumas cartelas da Hot Wheels pra mim.
Mesmo assim, Nao… O bonitão popular sempre foi ele, eu só sou uma sombra bonitinha, talvez… Nossa, que vibe ruim… Eu não sou assim. Sou maravilhoso demais pra ter esses pensamentos baixo-astral.
Olha, meu amor… Eu sei sentar, mas acho que você não quer ver isso.
Exatamente. A última coisa da qual precisamos na nossa vida, é baixar a cabeça para homem ou nos diminuir por causa deles. Quero dizer, mesmo que você seja um... Ainda assim, é ridículo se diminuir por causa de alguém. E é viciante. Então se vigie sempre que disser esse tipo de coisa, hm? É assim que uma autoestima vai para o saco.
Aish, Liao... Eu disse para me poupar de pensamentos -- o que inclui cenas! -- yaoi.
Ué, você é bissexual? Ou você era hétero e se descobriu lésbica? Me explique melhor isso, porque nunca tive fase hétero na minha vida.
Você queria fazer filme pornô também?! Eu não acredito… Acho que essa é a frase que mudou meu dia para algo estranho… Agora sei como você se sente quando eu falo asneira…
Ow, pera aí… Você tem biscoitos de chocolate e não quer partilhar? Cadê os princípios da amizade, o amor ao próximo e etc…? Eu acho que seria um belo ato de amor…
Sou. A vida é curta demais para beijar só meninos ou meninas. Pelo menos pra mim.
Não disse que queria, eu disse que já pensei nisso!
Não vou te dar nada. Principalmente depois de dizer que eu acabei de falar asneira.
O que? Eu não sirvo para yaoi? Quando eu era mais novo e perdi a cabeça em relação aos empregos, eu pensei que deveria ser um ator pornô… Ainda bem que me dei bem, já pensou? Ia ser estranhos…
Escuto e afirmo: tudo o que sai de meus lábios é poesia… Escuta só essa voz angelical, Nao… Escute.
Eu não disse que não serve. Eu só quis dizer que estou mais focada na minha cota de coisas lésbicas, atualmente. Estive sendo hétero demais nos últimos tempos.
Filmes pornôs não me parecem tão má ideia. Eu mesma já pensei em fazer alguns, mas dei para trás quando vi que não havia muito assunto para mulheres com mulheres no cenário nacional.
... Ouch, Liao. Eu deveria ocupar sua boca com meus biscoitos de chocolate, mas não quero dá-los a você.
Olha, amorzinho, meus gemidos são maravilhosos… Pode perguntar pra qualquer homem que… Pera… Eu não sou dado, ok? Vamos reformular essa frase: pode perguntar pra alguém que você acha que me pegou…
O meu som de acasalamento é o clássico Careless Whisper… Mentira, seria uma cena cômica e o clima acabaria em 3 segundos da música.
Pelo amor de Deus, não quero nem pensar nisso. Me poupe de qualquer pensamento que envolva yaoi, porque estou mais focada em atingir minha cota lésbica, atualmente.
... Você se escuta falando, Jun? A sua sorte é que eu gosto de você, amorzinho. Ou tiraria muito com a sua cara.