Antes de abrir a porta do quarto, já sabia que estavas à minha espera sem estar. Durante alguns segundos, hesitei. Sabia o que ia encontrar, o que ia acontecer. Conheço de cor a tua posição na cama, meio de lado, perdido nesse teu mundo onde raramente entro. Entro em silêncio.
Levantas os olhos por um instante, sem curiosidade, sem fascínio. Já não sou novidade para ti.
Ainda assim, quando vejo o teu corpo, sei que o desejo. Fecho a porta atrás de mim e, antes mesmo de me aproximar, os teus olhos já regressaram às páginas desse livro.
O meu corpo nu encolhe-se ligeiramente. Mais uma noite em que não sei como chegar até ti. Mais uma noite em que não te sei seduzir.
Contorno a cama ao ritmo da tua indiferença e deito-me ao teu lado.
Fico a olhar para ti. Para a facilidade com que te ausentas. Para a forma como existes inteiro enquanto eu me vou tornando paisagem.
Puxo o lençol sobre o corpo e encosto a cabeça à almofada, pesada de pensamentos que já conheço demasiado bem.
Fecho os olhos.
E, com a amargura cuidadosamente escondida dentro da voz, desejo-te boa noite.













