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@beatrizpayara
Escolher-te-ia com a mesma facilidade de quem se oferece ao próprio sacrifício, sabendo, de antemão, que a dor seria inevitável e a batalha já estava perdida.
Escolher-te-ia tão facilmente que deixaria tudo para trás sem nunca olhar por cima do ombro.
Escolher-te-ia tão facilmente que nem consegues acreditar que isso seja possível.
Sei que me amas o suficiente para duvidar, mas não o suficiente para perceber que eu teria ficado.
E talvez seja essa a maior ironia: eu escolher-te-ia sempre.
Nunca fui de esconder o que sentia,
Mas é curioso o rumo que isto tem.
Tanto tempo a mostrar a alma vazia,
Para no fim perceber que não me queres também
Não parto com o orgulho magoado,
Porque amar nunca foi meu segredo
Mas podia jurar, de coração apertado,
Que o que havia em ti era medo
Tudo isto é uma estranha ironia,
Um desencontro vestido de verdade.
E mesmo achando que me amavas um dia,
Já sigo caminho e não trago saudade.
Na verdade, o meu coração nunca foi teu,
E de mim fica nada por dizer.
Gastei todas as fichas que a alma deu,
E dei-te tudo o que soube oferecer.
Eu era melhor mas me perdi.
Podes ter a certeza: ninguém te viu como eu te vi.
Vi a tua alma despida muito antes de tu saberes que ela estava nua.
E, de repente, foste estrada fora. Fiquei aqui, a juntar peças e a acumular desculpas.
Quando vais, eu sei que voltas. Mas, quando vais, eu também vou um pouco.
E fico naquele lugar onde o nosso amor não existe, e tu nem fazes ideia do que ele é.
A vida parece tão ajeitada, mas está tão desenquadrada.
E fico só.
À espera que voltes. À espera que eu volte.
Dei cabo de tudo.
De tudo.
Morning with friends in Copenhagen
kimmatthiesen
Antes de abrir a porta do quarto, já sabia que estavas à minha espera sem estar. Durante alguns segundos, hesitei. Sabia o que ia encontrar, o que ia acontecer. Conheço de cor a tua posição na cama, meio de lado, perdido nesse teu mundo onde raramente entro. Entro em silêncio.
Levantas os olhos por um instante, sem curiosidade, sem fascínio. Já não sou novidade para ti.
Ainda assim, quando vejo o teu corpo, sei que o desejo. Fecho a porta atrás de mim e, antes mesmo de me aproximar, os teus olhos já regressaram às páginas desse livro.
O meu corpo nu encolhe-se ligeiramente. Mais uma noite em que não sei como chegar até ti. Mais uma noite em que não te sei seduzir.
Contorno a cama ao ritmo da tua indiferença e deito-me ao teu lado.
Fico a olhar para ti. Para a facilidade com que te ausentas. Para a forma como existes inteiro enquanto eu me vou tornando paisagem.
Puxo o lençol sobre o corpo e encosto a cabeça à almofada, pesada de pensamentos que já conheço demasiado bem.
Fecho os olhos.
E, com a amargura cuidadosamente escondida dentro da voz, desejo-te boa noite.