Era uma vez, além dos Montes de Gelo, num lugar distante do pequeno vilarejo congelante no extremo norte de Fjerda, e subindo as íngremes colinas, oras alvas como pérolas, ora verdejantes como um jogo harmonioso de jades e esmeraldas, um lugar tão belo e agradável que, rezava a lenda, quem o encontrou jamais voltou para contar a história --- mas ora, não da forma pejorativa e medonha que os pessimistas costumam dizer essa frase. Não voltaram porque simplesmente não valia a pena; afinal, não sentia-se mais frio, fome ou medo que assolava os longos invernos da vila glacial. Alguns falastrões que habitavam o local disseram já ter visto o dito paraíso; um campo de eterno verão, com um mar de grama esmeraldina a cobrir a relva, e acima de suas cabeças. uma imensidão azul celeste, sem uma nuvem no céu --- fora o calor deveras agradável que impregnava a pele, juntamente da brisa trazida pelo frescor dos ventos oestes. Outros, diziam que o verão jamais existia nesse tal paraíso. Na verdade, seria um grande e deslumbrante palácio, feito dos mais delicados vidros e cristais, e tão alto que se perde em meio ao azul claro e límpido do céu; o inverno, lá, é eterno, mas incrivelmente agradável --- como se aquele gelo não cortasse, tampouco doesse e causasse sério e irreversíveis danos; afinal, não era difícil encontrar quem fosse desprovido do nariz e dos dedos das mãos e dos pés graças a necrose. Mas um fato convergia entre as duas vertentes de uma mesma fantasia insana, digna de mentes criativas que não viam o verdadeiro verão há anos e mais anos: quem o alcançava, era imediatamente provido de poderes. Talvez um que nós mesmos escolhemos, não? Seria uma possibilidade alta, e fascinava as crianças que ouviam as lendas próximas ao calor da fogueira. Uma delas sempre declarava que escolheria ter poderes de fogo, para assim, livrar o vilarejo daquele frio eterno e horrível que os assolava. Outro, dizia que escolheria ter um poder de fazer as plantas crescerem. Afinal, o verdadeiro problema do inverno não era a sensação desagradável e cortante, mas sim, a falta de suprimentos, que matavam muitos de fome, principalmente nos janeiros, quando era impossível para eles até sair de casa para caçar. E então, iniciava-se uma discussão sobre ele não se importar com o pobre Sr. Bjarte Sem Dedos, já que desprezava os males de frio, e claro, o colega retrucava; e com uma belíssima discussão infantil, seguia a agradável noite próximo a lareira.
Já Erich Aadland… Bem, o quarto garoto dos cinco dos filhos de Agnetta e Bengt Aadland não era lá dos mais supersticiosos, apesar de apreciar as histórias da hora da fogueira, e ter criatividade para inventar uma coisa ou outra a fim de incrementar a brincadeira. Mas sinceramente, preferia muito mais quando os meninos contavam histórias de fantasmas e assombrações --- geralmente, era o dia de Erich passar a madrugada acordado a fim de assustar os colegas durante sua noite de sono, seja batendo nas portas das casas, derrubando objetos que fariam um barulho alto o suficiente para acordar toda uma residência, até quebrando janelas e deixando o frio cortante entrar no quarto --- afinal, ele mesmo não entendia porque as pessoas reclamavam tanto da neve espessa. Não era exatamente uma sensação desagradável, apenas… Normal. Mas sua querida mamãe o obrigava a usar os grossos casacos de pele de animal e as botas já gastas, mas forradas no interior com lã de ovelha, para que ele não acabasse que nem o pobre sr. Bjarte Sem Dedos. No caso, ele seria o pobre sr. Erich sem Nariz, como dizia seu irmão mais velho. Os irmãos, apesar das constantes discussões, eram seus próprios companheiros quando o assunto era travessuras com os demais habitantes, por mais que Erich fosse claramente o mais inquieto --- e a vila era tão pequena e pacata, que parecia que todos os habitantes eram seus vizinhos. De qualquer forma, todos conheciam os irmãos Aadland, e claro, a pequena Alisha, de apenas oito anos, enquanto os demais tinham dez, doze, treze e catorze. Não era inusual que os meninos acordassem cedo demais, antes mesmo do sol raiar, para realizar atividades como pesca, quando o lago não estava completamente congelado, caça a corças para pele e carne, e ou utiliza-los e mantê-los, principalmente quando o inverno de aproximava e precisavam armazenar suprimentos. Quando não lhe serviriam para muita coisa, sempre dava para trocar por algumas moedas no centro da vila. Desde que a matriarca estivera com a saúde delicada e o patriarca, falecido graças a estar fora, na noite de inverno mais rigorosa dos últimos cem anos, sem as vestes apropriadas para sobrevivência.
Cabelos escuros e olhos cinzentos eram características dos Aadland, adquiridos por parte de pai; contudo, era exatamente essa divergência que chamava atenção no pequeno e inquieto Erich --- seus olhos não eram cinzentos, mas sim, de um azul tão brilhante e vívido que pareciam feitos de safiras recém polidas; e apesar de possuírem a cor mais fria, quando o garoto direcionava o olhar a quem quer que fosse, as íris brilhavam com malícia e vivacidade, como fogo azul. A pele, graças a falta de sol e calor, era tão alva quanto marfim, e os cabelos de um negro profundo e brilhante, pareciam fios cuidadosamente modelados de pedras de ônix. Mas a aparência bela e quase etérea do garoto contrastava evidentemente com a personalidade acalorada e até desaforada. Dos meninos de Agnetta, ele deveria ser o de mais difícil personalidade, principalmente quando o assunto era seguir as normas locais. Era só dizerem-lhe para não comer as maçãs da cesta, pois elas seriam cozidas para o jantar, que ele esperava apenas a casa esvaziar para que se aproveitasse das frutas avermelhadas, e na hora do jantar, dizer, de forma aberta e debochadamente casual, ao irmão mais velho o quão deliciosas estavam as frutas aquela tarde. Lembrava-se também de outra vez, quando Gunther, o segundo mais velho, havia deixado-o com raiva; durante as brincadeiras de jogar bolas de neve, Erich envolveu uma pedra do tamanho do seu punho com neve e o atirou na cabeça do irmão. O sangramento era aparentemente incessante, e Gunther teve que ficar sob os cuidados dos mais velhos durante o restante do dia. A companhia de Erich era rejeitado por todos aquele dia, mas não era isso que doía; era a genuína culpa. Apesar de tudo, jamais fora um garoto orgulhoso ao ponto de se recusar a pedir desculpas, e provar sua redenção da forma que podia. Fora o próprio Erich, por livre e espontânea vontade, que permaneceu a cuidar do ferimento alheio nos dias que seguiram.
Era dezembro quando a voz fina de Alisha cortou o ar da madrugada glacial: eu sei onde o papai está. As pequenas mãos balançavam o corpo de Erich a medida que ele colocava o travesseiro na cabeça e falava para ela ficar quieta e deixar de bobagem. Papai havia morrido, afinal; morrido… As palavras ainda apertavam o coração do quarto Aadland, que admirava o patriarca mais do que qualquer um em todo o mundo. A identificação com o homem era elevada, sendo extremamente parecidos física e psicologicamente; o irmão mais velho, Rolf, conta que Erich ficara mais difícil depois da morte do patriarca, mas jamais chegando a níveis extremos. As palavras de Alisha foram claramente motivo de chacota por Erich durante o resto do dia; ela dissera que o papai, na verdade, estava no paraíso dos contos, além dos Montes de Gelo e subindo as íngremes colinas esmeraldinas, e que estava bem. E cético como era, o mais velho não acreditava em uma só palavra da irmã; pelo contrário, era o tipo de história que utilizaria para pregar um susto na mais jovem, que não escapava das pirraças de mau gosto de Erich. Na noite seguinte, o garoto teve a ideia de ir até o local onde Alisha dissera que vira a carruagem negra e grande passar velozmente pelos arredores --- e para pessoas que conheciam apenas pequenos trenós, aquilo era uma grande novidade; ou melhor, quase uma baboseira qualquer de contos de fadas. Mas quando o garoto, em pleno dezembro e sem sentir nem um pouco de frio, estava às escondidas no bosque, pronto para assustar uma Alisha que certamente sairia para procurar a tal carruagem aquela noite novamente. Mas não foi a irmã mais jovem que Erich encontrou… Surpreendentemente, os olhos safira do garoto foram agraciados com a visão da carruagem negra do Darkling. Não recorda-se exatamente do momento em que fora levado até o Pequeno Palácio, tampouco porque, em nome de todos os deuses, havia aceitado o convite do homem para subir e ir para uma terra tão tão distante da vila pequena e invernal. Após chegar a tenda do Darkling, este lhe contou sobre os poderes, os Grisha, o funcionamento do Pequeno Palácio e porque ele e sua família estariam mais seguros se ele permanecesse ali, com os seus iguais. Seria devidamente treinado, e os riscos de trazer conflitos irreversíveis tanto a ele mesmo quanto a sua mãe e irmãos. Primeiramente, o garoto manteve os péssimos termos com os seus colegas, se recusando a aceitar permanecer longe da família. As brincadeiras de mau gosto envolvendo jogar pedras envolvidas com neve nos tutores eram constantes, fora as demais peças violentas pregadas e as inúmeras tentativas de fuga. Com o passar dos anos, e vendo com mais clareza o que os humanos faziam quando encontravam alguém como ele, e com quem tentava escondê-los, Erich começou a ponderar sobre a possibilidade de permanecer, mesmo que não para sempre --- apenas e somente apenas pelo bem da família, mas ainda assim, de má vontade, e sentindo-se preso ao Pequeno Palácio. Antes fosse como contavam na fogueira… Um palácio delicado e etéreo, como vidros e cristais… Quebraria fácil.
Dizem que nosso corpo é composto de, em média, setenta por cento de água; e principalmente utilizando-se do amplificador, os poderes poderiam ficar mais forte, mas também mais perigosos até para quem os manipula. Não sabia se por um descontrole momentâneo ou por decisão da sorte, Erich pela primeira vez começara a sentir frio. O frio cortante e glacial que, há muitos anos atrás, ouvira os cidadãos da vila reclamar. O frio que havia feito membros alheios necrosarem, e causava o incômodo que Erich jamais compreendera até então; não demorou muito, no entanto, para constatar que a sensação desagradável vinha de nada além do que ele mesmo. O sangue, outrora borbulhante, agora encontrava-se pouco a pouco, congelando. A dificuldade da circulação causava dor, e o tempo de vida poderia estar contado. Apesar de formas quase medíocres que havia encontrado de retardar seu congelamento completo de dentro para fora, Erich iniciou uma busca incessante e desesperada por uma forma de reverter o processo. Mergulhou em assuntos relacionados a hidrocinese a medicina, entrando em contato com alguns colegas com poderes de cura. Contudo, sem espalhar a condição para os quatro ventos --- eram raríssimas os que tinham conhecimento da ampulheta de Aadland, estes sendo amigos próximos e pessoas que poderiam ajuda-lo a reverter a situação. Ainda que não quisesse ou se importasse em permanecer no Pequeno Palácio ou se tornar um soldado exemplar, ainda não queria ser visto como incapaz ou debilitado pelos demais --- seria, para dizer o mínimo, degradável.
PODERES
Aprendera a controlar as habilidades com gelo e neve ao longos dos anos e treinamentos no Pequeno Palácio, depois de deixar as recusas e rebeldia de lado e efetivamente participar das aulas de forma devida. Apesar de não ser aplicado, sabe utilizar seus poderes corretamente, moldando geadas e tempestades de neve, modelando o gelo, como delicadas esculturas, ou até mesmo em grossas e altas camadas. Ravka não era tão fria quanto a vila em Fjerda, mas o clima ainda o ajudava com o treinamento.
Sem o prestígio da população, o apoio do governo e até mesmo graças à atitudes questionáveis vindos de alguns que se diziam salvadores da pátria, era fato que, pela primeira vez, os heróis tinham entrado em uma crise que não parecia vislumbrar um fim tão cedo. E ora, não podia-se dizer que os Walton estavam exatamente infelizes com a atual situação de Los Angeles. Em posse de milhões e milhões de dólares, além dos inúmeros patrimônios espalhados pelo mundo, podia-se dizer que a família de vilões era uma das mais ricas da região, e além dos poderes, sabiam usar o seu capital bem demais para se manter na posição de poder, mesmo que isso significasse a cidade fadada ao caos pela eternidade.
Frederich era o quarto filho das cinco crias de Fabius Walton Jr com uma anti-heroína que… Bom, nem ele mesmo lembrava quem era. Fato que o vilão nunca havia se unido em matrimônio com nenhuma mulher, mesmo que elas tenham sido mães dos seus filhos. Contudo, fato era que os cinco viviam na mansão Walton, usufruindo do privilégio de aprender a conservar o legado da família com aquele que era um dos que mantinha a sociedade desenhada ao bel-prazer da classe vilanesca. Pode-se dizer que Fabius ostentava algumas de suas crias com algum orgulho, visto que estavam destinados a seguir seus passos perfeitamente. Contudo, quem dera que fosse o caso de Rich.
Ah, ele inventou que queria ser escritor, dá pra acreditar? Bom, primeiramente, Fabius tinha certeza que era uma piada, ou até mesmo uma fase de adolescente rebelde que quer fazer tudo, menos o quena família manda. Porém, com o passar do tempo, aquilo só se desenvolveu mais e mais, e bingo! A decepção da família estava prontinha e entregue na bandeja. Contudo, não é como se Rich tivesse sido deserdado ou deixado de lado; pelo menos, não por seus irmãos, que o defendiam mesmo quando ele fazia a maior das cagadas.
Se ele era o clássico projeto de herói nascido na família errada? Pff, por favor! Claro que não; não tem nem energia pra isso. Ao conviver tanto tempo com o pai e os irmãos, era inevitável que o quarto Walton absorvesse uma ou outra característica deles. Era manipulador ao seu jeito, quando o assunto o interessava, e por vezes, poderia demonstrar uma ou outra característica ácida em sua personalidade. Mas dominação mundial e controle sobre todos os seres? Ih, muito trabalho para quem almejava apenas colocar sua alma na escrita, e vivia de migalhas, a beira de pobreza extrema graças a isso ––– ou pelo menos, é assim que ele descreve sua situação. Veja, teve até que vender sua caneta Montblanc Mystery Masterpiece, pois a sua situação e a da sua família estavam insustentáveis. Isso é, se você não contar os diamantes e gemas preciosas que basicamente pulam da terra sempre que ele passa tempo demais em um local, mas ora. Meros detalhes. Afinal, isso não quer dizer que está nadando em rios de dinheiro. Mas as pessoas, pelo visto, não entendiam que a vida de empresários em posse de carros, aviões e lanchas não era tão fácil quanto parecia. Jamais entenderiam.
Primogênito de Simba e Nala, Tan nasceu e foi criado a vida toda para assumir o posto de rei depois que Simba não tiver mais em condições de reinar. Cresceu bonito e forte, e tudo indicava que seria o herdeiro perfeito de Pride Lands. Além disso, seu temperamento extrovertido e comunicativo colaborava para as expectativas dos pais; contudo, tais conjecturas começaram a parecer incertas quando o garoto passou da primeira infância.
Logo que provou camarões, Tan imediatamente esboçou reação alérgica ao alimento, tendo que correr para casa com a pele toda empolada. Até aí tudo certo na selva; afinal, quantas pessoas – ou leões – não são alérgicos àqueles pequenos e traiçoeiros artrópodes? Mas as coisas continuaram a se complicar a medida que o tempo passou, e ele se demonstrou extremamente alérgico a absolutamente qualquer coisa.
Castanhas? Nem pensar. Lactose? Não se não quisesse passar a tarde toda no banheiro e com cólica intestinal. Pelos de gatos? Tan espirrava até seu nariz quase cair. Pelo de cachorro? Além da reação anterior, eles fediam. E pelo de leão? Esse era o pior! Receita certa para Tan espirrar o coçar o nariz o dia todo. Além disso, também tinha uma alergia bizarra à carne de zebra... e de veado, e de javali, e de hiena, e de elefante e... Bom, acho que o leitor compreendeu.
Uma vez, na sua juventude rebelde, o leão tentou experimentar drogas ilícitas, para tentar ser tão cool quanto os outros coleguinhas. Resultado? Tan é alérgico a maconha também! Mas não vamos nos prolongar com o episódio da glote do jovem fechando, e ele tendo que confessar para Nala que estava na F1 – nem que demorou alguns minutos para a leoa entender que a glote do seu filho não havia fechado por causa de corrida de carros. Resultado: uma semana de castigo.
E é aquela famosa lógica: se eu não posso, ninguém pode também! Além de ser vegano e lutar pela causa, Tan também é completamente contra o uso de maconha recreativa, o consumo de leite e derivados, e frequentador assíduo da academia, já que ele não tinha lá a saúde em dia e precisava fazer de tudo pra se manter o mais saudável possível. Há quem diga que ele luta pelas causas porque realmente acredita nelas, mas é mentira. Se um dia suas alergias passarem e ele puder voltar a viver normalmente, pode ter certeza que ele larga as causas sociais também.
PODER:
Mimetismo leonino: Tan tem o poder de se transformar em um grande leão. Contudo, graças a sua alergia a pelo de gato, permanecer na forma animal é uma verdadeira tortura. Ele não consegue ficar nem cinco minutos sem espirrar, e por isso, prefere não utilizar seus poderes com muita frequência.