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@bezalef
🤓🧢🤍
Having a good memory is sometimes the worst thing we can have…
Teu Corpo, Meu Leito
Teu corpo é rio,
e eu — margem rendida.
Navego teus braços
como quem se afoga
pra depois respirar mais fundo.
Teus dedos são promessa
de correnteza mansa,
mas quando tocam,
desfazem minha fé
em terra firme.
Te olho, e há febre.
Te toco, e há prece.
Entre tua boca e a minha,
não cabe o mundo,
mas cabe o gozo inteiro.
Amar-te é esse milagre:
santificar o suor,
consagrar gemidos,
beber da tua pele
como se fosse vinho de altar.
E quando enfim me tomas,
sou maré submissa,
sou templo profano,
sou tudo que vaza,
mas nunca se esgota.
Ficar em ti
é como morrer
e ainda assim renascer
mais vivo do que nunca.
ENTRE NÓS
Éramos dois,
um sol que falava alto,
um céu que ouvia calado.
Nos gestos diários,
nos cafés sem hora,
morava o amor — disfarçado.
Quatro anos quase inteiros
de passos firmes e nublados,
com silêncios que diziam
o que nunca foi falado.
Eu sorria pra esconder
tudo o que já me faltou.
Você fugia pra não ver
o que nunca te curou.
Então veio o espaço.
A viagem. A ausência.
E na volta — a queda.
O toque estranho no sofá,
o cheiro que não era meu,
e você, quieto na cama,
com o peso que nasceu seu.
Fui embora com os olhos,
antes de abrir a porta.
E doeu.
De um jeito seco, sem cena,
sem grito, sem resposta.
O tempo nos levou pra dentro.
Você pra dentro de si.
Eu pra um espelho sem filtro,
onde enfim, me vi.
E foi longe de nós
que nos reconhecemos.
Na solidão que arde,
no medo que confessa,
na lembrança que aperta
mas não mais adoece.
Quando nos cruzamos de novo,
já não éramos os mesmos.
Você me olhou com calma.
Eu te ouvi com alma.
E pela primeira vez,
fomos verdade inteira.
Não voltamos ao começo.
Criamos um novo agora.
Com mãos que se escolhem,
com palavras que demoram
mas chegam.
Ficamos.
E ficamos bem.
Não porque esquecemos,
mas porque aprendemos
a amar com coragem
— e com os olhos abertos.
“Do unto others as you would have them do unto you”
Do amor, renascido
Fomos nau em mar revolto,
madeira à deriva no tempo,
palavra suspensa no sopro,
ecoando em abismos do vento.
Fomos ruína antes do templo,
pétala ao chão antes da flor.
Mas mesmo no luto dos dias,
havia um sussurro de amor.
Oh, quantas vezes a alma calou,
quantas vezes o orgulho bradou —
mas entre os cacos, o lume,
brando, insistente, ficou.
Não foi milagre nem sorte,
mas pacto tecido em silêncio,
um voto lançado à alvorada
quando tudo em nós parecia extinto.
E então, mãos antes trêmulas, firmaram,
olhares antes fugidios, pousaram.
E onde era inverno sem fim,
brotou um jardim.
Hoje, o que pulsa entre nós
não é o mesmo — é mais vasto.
É vinho que o tempo apurou,
é harpa que o tempo afinou.
Já não amamos com urgência,
mas com a eternidade dos rios.
E cada beijo, agora, é lume
que dissipa antigos frios.
Sim, reerguemo-nos das cinzas,
como ave de antiga lenda.
E nosso amor, já não ferida —
é chama serena, que não se renda.
🤍🍃
RECOMEÇO
Já fomos sombra um do outro,
na dança muda do desencontro.
Choveram silêncios, ventos frios,
e cada mágoa abriu seus rios.
Fomos tropeço, fardo e luta,
voz embargada, dor oculta.
Mas mesmo em meio à confusão,
teimosamente, demos as mãos.
Não foi o tempo, nem o acaso,
foi escolha — passo após passo.
Foi o querer mais forte que o orgulho,
foi plantar no caos um novo julho.
Decidimos ficar, refazer,
aceitar, ouvir, crescer.
E entre as cinzas do que fomos,
erguemos algo mais que sonhos.
Hoje, cada gesto é poesia,
construída a cada dia.
Somos novos, mesmo sendo os mesmos,
mais leves, mais verdadeiros.
Nosso amor, antes tempestade,
hoje é casa, é liberdade.
E o que um dia quase se perdeu,
floresce inteiro — renasceu.
Só com alguém ao meu lado conseguia dormir agora. Mas não era qualquer pessoa, tinha que ser ele, senão, não fazia sentido, não surtia efeito. Somente um corpo não era o suficiente para acalentar o meu ser, eu precisava de companhia e somente a alma dele era capaz de acender a luz que existia dentro de mim. E o mais engraçado é que, mesmo confuso, achando que sabia o que sentia, nunca soube verbalizar isso, achava que era cafonice, mas cafonice mesmo era a minha incapacidade de assumir os meus sentimentos, para mim mesmo e também para o outro. Precisei me deparar com o precipício, me ver diante de um abismo, para entender que precisava voltar para casa, para entender que somente dentro de mim - e dele - existia a conexão dos pensamentos - intelectuais, filosóficos, neurais, científicos - de que tanto precisava. E os sentimentos - os que tanto foram desprezados, os meus e os dele… agora passaram, de uma forma ou de outra, a fazer sentido.
Eu sempre soube que, no fundo, precisava dele. Minha admiração era encantadora, mas eu não deixava nada transparecer - como podia, sendo que não sentia, conscientemente? Mas, apesar disso, eu sempre soube, que somente o amor que um sente pelo outro é capaz de transformar química em realidade, e que nenhum amor frutificaria sem o cuidado e a devida dedicação. Por isso, a ideia deturpada de que devemos sempre seguir em frente se prova, diante de mim, quase que como num purgatório, num momento de arrependimento final, ser uma grande falácia, um antídoto para as possibilidades do que pode vir a ser - e se transformar - o sentir, o amor um pelo outro. Portanto, sabemos que seguir em frente é importante, mas que, igualmente importante, é saber voltar atrás, se for preciso para retomar as rédeas.
Dessa forma, entendo que, de um jeito ou de outro, o sentir é, jamais, o mesmo mais de uma vez. E que as possibilidades de amar e ressignificar podem ser infinitas.
Matanghy
There is no way for someone to say they love you and make fun of the issues you defend ideologically… 🤷🏽♂️
Como recém se dera conta de que o amava, cismou que engravidaria. Por bem ou por mal, propositalmente levaria um filho dele, era uma forma de também levá-lo consigo. Sabia que, dali em diante, sempre teria um espaço a seu lado reservado para ele, do leito onde faziam amor ao leito onde descansaria eternamente. Por isso, mandou construir, ao lado de sua cova, uma gaveta para ele, para que, quando chegasse a sua hora, ainda pudesse estar ao lado dele. E, depois de sofrer muito, sentia que era hora de procurar um lugar para descansar.
E na tentativa de gastar tudo de si, e também dele, o deixava adentrar, em casa e dentro de si, como quem faz questão, não só da presença, mas do que ela reverberava - no campo imagético e sensorial de todo o seu ser. Talvez fosse a paixão, a primeira porta para o amor, o motivo de se sentir tão à vontade assim com a presença de outro ser dentro si, talvez fosse, não hipotética, mas a própria definição do que julgara ser o amor. Era essa a concepção que tinha da coisa toda.
Sentia, dentro de si, uma sensação mórbida de confusão emocional. Tinha medo de sofrer, e que, se fosse para morrer, que fosse de amor.
Matanghy
Silly 🖤